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“O problema não é que as pessoas sejam estúpidas, o mundo é que é difícil”

Mundo

Lucília Monteiro

A VISÃO entrevistou Richard Thaler um ano depois de ter ganhado o Nobel da Economia. Falámos sobre impostos, regulação e poupanças, mas também de Star Trek, Selena Gomez e Donald Trump

Nuno Aguiar

Nuno Aguiar

Jornalista

Foi com ar cansado que Richard Thaler se sentou em frente à VISÃO, no lobby da Porto Business School. O último ano tem sido uma roda-viva de entrevistas, desde que ganhou o Prémio de Ciências Económicas em Memória de Alfred Nobel. Enquanto um dos pais da economia comportamental, o académico argumenta que os economistas veem os humanos como réplicas da personagem Spock, de Star Trek: muito inteligentes e com enorme autocontrolo. Este não é o caso da generalidade das pessoas, nem de Thaler que prometeu gastar o prémio de quase um milhão de euros do Nobel “da forma mais irracional possível”. Nesta entrevista, defende que a condenação de banqueiros teria tido um efeito positivo, que era bom haver um GPS para o crédito à habitação e que alguém devia arrancar o comando de televisão das mãos de Donald Trump.

A investigação que lhe deu o Nobel da Economia parte do princípio de que nem sempre agimos de forma racional, confrontando-nos com as nossas imperfeições. Que exemplos existem dessa atuação mais irrefletida?

Deixe-me clarificar: nós não agimos da forma que os economistas definem como “racional”. Um dos exemplos que costumo dar é a falácia dos custos irrecuperáveis. Nesta viagem a Portugal, fomos ao Algarve e tínhamos um hotel pago por quatro noites. Ao fim de três dias, pensámos: se calhar, devíamos passar mais um dia no Porto e menos um dia no Algarve. Mas já tínhamos pagado aquela última noite… A minha mulher disse logo: “Não, não podemos fazer isso.” No entanto, nós não íamos recuperar aquele dinheiro! É o mesmo que ir a um restaurante, pedir uma sobremesa e perceber que duas dentadas eram o suficientes. Mas já pagou por ela e a sua mãe ensinou-o a comer aquilo que está no prato.

Ou ter um bilhete para um jogo e não querer ir porque começou uma tempestade de neve.

Exatamente. Mas vai na mesma porque já pagou por isso.

Argumenta que das teorias económicas que guiam as nossas políticas públicas assumem que somos todos como o senhor Spock, de Star Trek. Somos mais como o capitão Kirk?

Talvez sejamos mais como o Homer Simpson. Entre Spock e Simpson, acho que estamos mais perto do Simpson.

Portanto, se assumirmos que somos sempre racionais, vamos cometer erros. O que estamos a fazer mal?

Uma visão radical seria dizer que não precisamos de regulação, porque as pessoas vão resolver sozinhas os seus problemas. Se olharmos para a crise financeira, os bancos dizem que são inteligentes e que não precisam de ser regulados. Mas é claro que cometeram muitos erros. Fizeram empréstimos que não deviam ter feito e criaram títulos que estavam desenhados para falhar. Mais importante: quando as pessoas se comprometem com um crédito à habitação, têm capacidade para fazer uma escolha inteligente? Ou devemos tornar isso mais fácil? O problema não é que as pessoas sejam estúpidas, o mundo é que é difícil.

Essa visão não deve agradar muito aos liberais.

Sim. O mundo é difícil. Por isso é que eu gosto da analogia do GPS. Se tiveres um sentido de orientação como o meu, é uma grande ajuda. Se houvesse uma espécie de GPS para o crédito à habitação, seria muito útil e pouparia muita dor a muitas pessoas.

É responsável pela invenção do conceito “nudge”. Há quem o caracterize como um truque Jedi.

Não é bem um truque Jedi. A investigação científica mostra que não faz diferença dizer às pessoas que tornámos uma opção predefinida para que mais pessoas a escolham.

Não há problema em revelar o truque?

Não há. Se o Obi-Wan Kenobi disser ao guarda: “Eu estou a dizer-lhe, para o enganar, que estes não são os droides que está à procura”, isso não vai funcionar. Muitos nudges vão funcionar mesmo que as pessoas saibam que estão a ser influenciadas.

Como podemos usar isso?

Digo sempre: “Nudge for good.” Deve começar pelas coisas que são difíceis, importantes e com as quais as pessoas têm dificuldades. Há tanto no mundo que pode ser melhorado. Basta pensar na sinalização. Podemos tornar o mundo mais navegável. Regresso sempre ao exemplo do GPS: ninguém acha que é um truque Jedi. É simplesmente um mapa melhor.

Deve ter lido o artigo de opinião anónimo publicado no New York Times, escrito por um funcionário de topo da Casa Branca que diz ter roubado papéis da secretária do Presidente para que ele não os assinasse. Em vez de roubarem papéis, poderiam estas pessoas usar nudges para influenciar Donald Trump?

Parece-me claro que, se conseguir controlar o canal de televisão que ele está a ver… tirar-lhe o comando das mãos.

Não deixar que veja apenas Fox News?

Sim. Embora ele pareça ver o suficiente da CNN para se zangar com eles. Ele parece ter um défice de atenção, portanto imagino que seja possível distraí-lo. Mas acho que Trump precisa de mais do que um nudge [pequeno encosto].

Um empurrão?

Sim.

Porque pode um nudge ser mais eficaz do que um empurrão?

Em primeiro lugar, um empurrão pode provocar uma reação. Se eu, literalmente, te empurrar, tu vais empurrar-me de volta. Nestes dias em que estive no Porto, fui a um restaurante onde havia um degrau muito pequeno com um sinal que dizia “cuidado com o degrau”. É nesses pequenos degraus que é mais provável cairmos, porque não os vemos. Quando o empregado nos leva à mesa e diz “cuidado com o degrau”, é porque sabe que não vai reparar.

É por ser pequeno que é tão eficaz?

Exatamente. Acho que pode pensar nesses pequenos degraus como armadilhas. Quando comecei a trabalhar no livro Misbehaving [portar-se mal], o título original era Snag [empecilho]. Como esse pequeno degrau. Na realidade, percebi que não conseguia escrever esse livro, mas é isso que quero analisar: onde é que as pessoas estão a tropeçar? E como podemos reduzir o número de quedas. É isso que tento fazer.

Uma das coisas que o comportamentalismo nos diz é que eu valorizo mais aquilo que posso perder do que aquilo que posso ganhar. Isso serve de lição para os governos quando têm de subir ou descer impostos?

Sim. Logo depois de Obama ter sido eleito, houve um corte de impostos extraordinário, de cerca de mil dólares. Na Administração debateram se deviam dar um cheque a cada pessoa de mil dólares ou, pagando semanalmente, dar-lhes 20 dólares por semana. O objetivo era que as pessoas gastassem esse dinheiro.

Então era melhor semanalmente.

Sim, à semana era melhor, porque as pessoas gastam aquilo que têm. Se receberem uma soma mais avultada, é mais provável que poupem. Eu acho que eles tomaram a decisão correta, que era espalhar o alívio. Mas, precisamente por terem tornado o corte de impostos menos percetível, isso significou que Obama recebeu menos crédito pela medida, porque as pessoas não a sentiram tanto.

Essa foi uma das medidas que Obama aprovou para reagir à crise financeira, que fez agora dez anos. O que significa, para o comportamento dos agentes financeiros, não ter havido nenhuma condenação de um CEO de Wall Street?

Bom, não sei quem deveria ser preso ou se sequer se alguém deveria ser preso. Mas certamente algumas empresas – talvez não as maiores, mas quem vendia hipotecas – portaram-se mesmo mal. Alguns CEO deveriam ter sido castigados. E castigar alguns teria tido um efeito positivo.

As dietas podem ensinar-nos alguma coisa sobre como poupar mais?

Começar uma dieta é mais difícil. Se assinar um plano de pensões no meu trabalho e eles me tirarem o dinheiro antes de eu o ver, só tenho de decidir uma vez e está feito. Não existe nenhum plano “coma menos amanhã”. Seria bom se eu pudesse organizar a minha vida de forma a que, em todas as oportunidades, me dessem menos 10% de comida.

Sempre que agimos, estamos a fazer escolhas. Quando escolho a pergunta que vou fazer-lhe a seguir, posso optar pela errada. Ajudaria se tivéssemos uma ferramenta que nos dissesse as probabilidades de cada decisão ser a mais correta?

O que seria útil era termos melhor feedback. Se pensar nisso, a maioria das pessoas conduz de forma relativamente competente. Porquê? Porque tem feedback instantâneo quando carrega no acelerador e no travão. O problema é que quando gasta 1000 euros do cartão de crédito, não está a ter mais feedback. Se pensarmos em nós como cães de Pavlov, ao comprarmos um novo iPad, através do cartão de crédito, temos o prazer do iPad e a dor do dinheiro gasto é distribuída ao longo do tempo.

Os erros são bons?

Os erros são apenas bons se vierem com uma lição, com feedback.

Já tem netos. O que os impressionou mais: ter ganhado o Nobel ou ter conhecido a Selena Gomez enquanto gravava o filme A Queda de Wall Street?

Nem sequer tem comparação. Tenho duas netas que são grandes fãs da Selena Gomez e o mais impressionante foi ter conseguido levar-lhes um autógrafo dela. Agora sou um herói. O Prémio Nobel, enfim…

Quando ganhou o Nobel, disse que pretendia gastar o dinheiro do prémio de forma irracional. Um ano depois, cumpriu essa promessa?

Digamos apenas que eu fiz essa afirmação às 4h45 da manhã. Não devo ser responsabilizado por ela.