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Madeleine Albright: “O fascismo instala-se quando as pessoas se convencem de que ninguém é de confiança”

Mundo

The Washington Post

Preocupada com os sinais crescentes de autoritarismo que vê no mundo, a primeira mulher a chefiar a diplomacia dos EUA lança um alerta sobre o regresso do fascismo, critica Donald Trump e elogia António Guterres

Secretária de Estado de Bill Clinton e antiga embaixadora norte-americana na ONU, Madeleine Albright, 81 anos, fala sobre o seu recém-publicado livro Fascismo: Um Alerta, numa entrevista por email.

A ordem mundial parece estar completamente virada do avesso. Se fosse outra vez a chefe da diplomacia norte-americana, voltaria a dizer que o orçamento do Departamento de Estado deve ser tão grande quanto o do Pentágono?

O dinheiro investido na diplomacia pode reduzir a necessidade de se alocar recursos para armas e tropas. A chave, em ambos os casos, não é, porém, o quanto se gasta mas como se gasta. Nestes dias perigosos, precisamos de tomar boas decisões.

Sendo uma cientista política, como define Donald Trump? É um iliberal, um autocrata ou um fascista? No verão de 2016, disse que ele “seria um presente para o Presidente russo, Vladimir Putin”.

Donald Trump tem mais tendências antidemocráticas do que qualquer outro Presidente dos Estados Unidos da América na história moderna. Não lhe chamo fascista, mas lamento o desprezo que demonstra pela Imprensa, pelos tribunais e pelo processo eleitoral. Esta atitude permitiu que Putin e outros líderes autocráticos justificassem as suas próprias ações.

O título do seu livro é um alerta ou uma provocação? Concorda com Timothy Snyder e Yascha Mounk [autores, respetivamente, de The Road to Unfreedom: Russia, Europe, America e The People vs. Democracy: Why our Freedom Is in Danger and How to Save It], entre outros, quando dizem que a democracia norte-americana está agora em perigo?

As instituições democráticas nos EUA e noutros países estão sob intensa pressão de forças diversas. Aos defensores da democracia cabe a responsabilidade de resistirem. Foi por isso que escrevi este livro – como um alerta.

Acredita mesmo que a Administração Trump está a transformar o modo como os Estados Unidos da América se relacionam com o resto do mundo?

O atual Presidente vê o mundo como um lugar onde todos os países estão numa luta permanente para se aproveitarem uns dos outros. Até agora, na resolução de problemas comuns, os líderes norte-americanos exortavam à cooperação e realçavam os interesses partilhados por cada país. Esta é a grande diferença [em relação a Trump].

Os Estados Unidos da América ainda são “a nação indispensável”?

Podem ser. Os Estados Unidos da América continuam a ter mais recursos diplomáticos, económicos e de segurança do que qualquer outro país. Mantêm a capacidade de liderar.

Como antiga embaixadora dos Estados Unidos da América na ONU, como vê o papel da organização e do secretário-geral, António Guterres, nestes tempos desafiantes?

As Nações Unidas continuam a ser a única organização com legitimidade global e filiação quase universal. As agências da ONU proporcionam uma série de serviços essenciais, humanitários e de manutenção da paz. Por outro lado, a ONU só pode ser eficaz se os seus membros o permitirem. Hoje em dia, muitos líderes mundiais seguem objetivos limitados, em detrimento do progresso mundial. Tendo em conta os obstáculos que precisa de enfrentar, Guterres está a fazer um excelente trabalho. Os portugueses podem estar orgulhosos da sua ação, e eu desejo-lhe felicidades.

Em 2000, foi a primeira responsável norte-americana a visitar Pyongyang, para se encontrar com o então líder norte-coreano, Kim Jong-il. Acha que o Presidente Trump estava preparado para a cimeira de junho deste ano, em Singapura, com Kim Jong-un?

Ainda é muito cedo para determinar se a cimeira de Singapura foi um sucesso. Uma razão para a incerteza é os compromissos serem vagos e não haver um calendário para a aplicação de um acordo. Uma maior preparação poderia ter clarificado antecipadamente que passos cada parte estava disposta a dar, quando é que esses seriam dados e como poderiam ser verificados. De momento, ainda há muito trabalho a fazer.

A senhora e a sua família são refugiados [chegaram a Denver, no Colorado, em 1948, provenientes da antiga Checoslováquia, e dez anos depois ela obteve a cidadania norte-americana]. Os EUA vão reduzir drasticamente [de 45 mil em 2018], para 30 mil, o número de refugiados que tencionam receber em 2019. Pode comentar esta situação?

Sim, posso. A nova política é um recuo na responsabilidade internacional e uma traição aos valores norte-americanos.

Há um número recorde de mulheres candidatas às eleições intercalares de novembro próximo [para a Câmara dos Representantes e para o Senado]. É uma tomada de posição contra a misoginia do Presidente Trump ou algo ainda mais importante?

Uma maior participação de mulheres no processo eleitoral é um sinal de que a democracia norte-americana – embora sob pressão – é forte e resiliente. Vejo esta tendência não tanto como um movimento contra o atual Presidente, mas como um compromisso por parte das mulheres em defender os seus direitos e a sua dignidade.

Nem todas as pessoas saberão que é uma perita em informação – creio que foi este o tema da sua tese de doutoramento [o papel dos jornalistas na Primavera de Praga, em 1968]. Como avalia esta era de desinformação, redes sociais e fake news?

Uma das primeiras medidas de um regime fascista é tentar monopolizar o fluxo de informação, publicitando a sua própria versão da verdade, censurando e controlando os média, ditando o que pode ser ensinado nas escolas. Procura, deste modo, desacreditar os que oferecem descrições concorrentes da realidade. O fascismo instala-se quando as pessoas se convencem de que ninguém é de confiança e que é necessária uma mão dura para impor a ordem num mundo caótico. É por isso que os média independentes e corajosos são tão fundamentais para a democracia e que os esforços apoiados pela Rússia (e outros) para propagar mentiras, através das redes sociais, são tão perturbadores.

Ficou incomodada com o facto de dois dos maiores populistas da Europa – [o primeiro-ministro húngaro] Viktor Orbán e [o ex-ministro britânico dos Negócios Estrangeiros] Boris Johnson – terem lido o seu livro, e um deles (BoJo) o ter até recomendado?

Não me incomoda, agrada-me. É essencial a comunicação, franca e aberta, com pessoas que exprimem opiniões divergentes. Muitos na direita política – e na esquerda – são demasiado impacientes, inseguros e de vistas curtas para considerarem legítimos os interesses e preocupações dos outros. As pessoas surpreendem-se por eu, todas as manhãs, ouvir um programa numa emissora de direita, quando vou de carro para o trabalho. Se alguma vez for a Washington e vir uma senhora idosa ao volante, a esbracejar e a gritar para o rádio do carro, provavelmente serei eu.