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Trump chama “falsa Pocahontas” a senadora que diz descender dos índios

Mundo

Elizabeth Warren durante uma ação de campanha em 2013

JOSEPH PREZIOSO/Getty

O teste de ADN, segundo os documentos mostrados, não deixa dúvidas de que a senadora americana tem ascendência índia que remonta a entre “seis e dez gerações”. Mas não tem cidadania índia quem quer

Há uma frase célebre que diz “Se não os consegues vencer, junta-te a eles”. Elizabeth Warren, senadora americana e putativa candidata às presidenciais de 2020, nos EUA, tentou desconstruir a frase para um “Se não te consegues juntar a eles, vence-os”, mas as guerras contra Donald Trump podem ser fratricidas quando se entra num jogo a que ele está habituado e cujas regras vai alterando a seu bel prazer.

A senadora democrata do Massachusetts fartou-se dos ataques de Trump – que começaram logo no início do ano quando se soube que olhava para uma candidatura presidencial como um facto a ter em conta – e quis pôr um ponto final na questão da sua herança genética. Elizabeth Warren, que sempre disse, com orgulho, ter raízes nos americanos nativos foi desafiada por Trump a prová-lo.

Dado que as eleições para o Senado estão à porta, Warren pretendeu acabar com o assunto antes mesmo da campanha eleitoral, para que este não se tornasse um tema.

Recorde-se que Trump pôs em causa as origens de Barack Obama em plena campanha presidencial (que Obama viria a vencer) e o certificado de nascimento foi distribuído aos jornalistas da Casa Branca.

Assim, quando em julho, Donald Trump respondeu a um jornalista sobre a hipótese de debater com Warren caso ela avançasse para Washington e fez uma promessa: “Darei um milhão de dólares à sua [da senadora] instituição de caridade preferida se fizer um teste [de ADN] a provar que você é índia”.

A democrata entrou no perigoso jogo de Trump e fez o teste em agosto. Os resultados chegaram na semana passada e Elizabeth Warren tornou-os públicos, na segunda-feira, 15, através de um site com vários documentos e um vídeo em que entram alguns familiares, o geneticista que lhe fez a análise e alguns clips que mostram Trump a ridicularizá-la e a prometer o tal milhão de dólares.

De acordo com os resultados dos testes de ADN, há uma “forte evidência” de que Warren tem raízes nos americanos nativos de há “seis a dez gerações”, refere o documento do médico, e a possibilidade de erro é menos de um em mil.

Imagem do site (https://elizabethwarren.com/fact-squad/heritage/) onde a senadora explica a sua herança genética

Imagem do site (https://elizabethwarren.com/fact-squad/heritage/) onde a senadora explica a sua herança genética

Capatura de ecrã

A herança genética de Warren foi confirmada publicamente. Trump, ao ser questionado sobre o assunto, resolveu-o à sua maneira: “Who cares, who cares?” (“Quem se importa com isso?”). Quanto à promessa de dar um milhão de dólares, negou-a: “Eu não disse isso”. Mas disse, sim.

Mas, e como tem acontecido em outros “tabuleiros” de jogo, onde o peão (Trump) varre todas as casas do adversário recorrendo, até, às características de movimento das outras peças, houve um bafejar de sorte para o seu lado.

Políticos da esquerda e da direita entraram no despique e a machada veio dos representantes da Cherokee Nation – as tribos índias – ao porem em causa a cidadania de Warren.

“Isto ridiculariza os testes de ADN e o seu legítimo uso ao mesmo tempo que desonra os legítimos governos tribais e os seus cidadãos, cujos ancestrais estão bem documentados e cuja herança está provada”, disse Chuck Hoskin Jr., secretário de estado da Cherokee Nation.

Warren respondeu que “o ADN e a história familiar nada têm a ver com filiação ou cidadania, que é determinada só – e apenas só – pelas Nações Tribais. […] Respeito essa distinção e não me listei no Senado como nativa”.

Só que Trump é sempre Trump e fez jus à frase do filósofo suíço Rosseau (séc. XVIII): “A injúria é o argumento dos que não têm razão”. Aproveitou o momento de descredibilização de uma potencial adversária e fez o habitual: “twittou.” Usando do escárnio e do insulto, ao chamar “falsa Pocahontas” à senadora, o presidente dos EUA disse que nem as tribos “a querem”.

Elizabeth Warren, 69 anos, foi eleita como senadora em 2013. Durante 30 anos foi professora de direito na Universidade de Harvard. O facto de ter mudado a sua “identidade étnica” nos registos da universidade, na década de 1980, de “branca” para “americana nativa” não passou despercebido aos que agora a criticam.

Mas a própria explicou ao The Boston Globe que “há uma distinção entre cidadania e ancestralidade. Gostaria de ter sido mais consciente dessa distinção na altura. São as tribos e apenas elas que determinam a cidadania” e pediu desculpa aos líderes tribais que aceitaram encontrar-se com ela por esse erro de há 30 anos.