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A fuga da neta predileta de Franco, que é a nova marquesa de Cascais

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Há mais de seis décadas que a sua vida aparece nas revistas sociais e ainda lhe chamam Carmencita, a neta favorita de Francisco Franco. Agora, na companhia do seu jovem namorado, pretende instalar-se em Portugal para ficar bem longe dos fantasmas da Guerra Civil espanhola e das polémicas que envolvem a sua família. Em Madrid, o Governo já decidiu exumar o ditador e pondera confiscar títulos e propriedades aos herdeiros

Sabe quantas vezes é que Carmen Martínez-Bordiú já apareceu nas páginas da Hola, a mais conhecida revista espanhola? Responder com rigor é quase impossível porque esta personagem começou a ser notícia nas colunas sociais ainda antes do seu nascimento, já lá vão 67 anos. Quando ainda mal sabia andar, já sabia posar para os fotógrafos e, na infância, foram muitas as vezes em que a retrataram no Palácio do Pardo, em Madrid, ou no iate Azor. A menina servia ainda como instrumento de propaganda e também não foram poucas as ocasiões em que a usaram para promover produtos como as famosas bonecas vestidas de negro com mantilla (véu) negra ou o astro-giro, objeto quase obrigatório nos parques infantis ibéricos. A explicação para toda esta notoriedade mediática deve-se a algo muito simples: Carmencita, como todos lhe chamavam, era neta de Francisco Franco – o generalíssimo, o caudilho de Espanha que governou com mão de ferro o país desde o final da Guerra Civil, em 1939, até à sua morte, em 1975.

O ditador com as duas netas mais velhas no Palácio do Pardo, em Madrid, em 1953. Carmencita (à direita) tinha então dois anos

O ditador com as duas netas mais velhas no Palácio do Pardo, em Madrid, em 1953. Carmencita (à direita) tinha então dois anos

No fim de agosto, um grupo de pessoas autointitulado Movimento por Espanha participou numa cerimónia de homenagem ao ditador, mas é muito pouco provável que lá estivessem fotógrafos das revistas sociais a cobrir o evento ou que Carmen Martínez-Bordiú tenha marcado presença. O local do protesto é simbólico: o Vale dos Caídos, a 58 quilómetros de Madrid, o gigantesco complexo erguido por Franco para exaltar o seu regime e no qual estão sepultadas 33 mil vítimas da Guerra Civil (a maioria republicanos e mais de 12 mil por identificar). De sublinhar que só duas tumbas podem ser vistas e estão ambas junto ao altar principal da basílica escavada na rocha: a de José António Primo de Rivera, o fundador da Falange, executado pelos republicanos em 1936, e a do próprio Franco.

A legislação espanhola proíbe desde 2007 quaisquer protestos de caráter político neste polémico santuário controlado por beneditinos que recebe cerca de 280 mil visitantes por ano, mas nem isso demoveu os organizadores da manifestação. No comunicado que deram a conhecer, prometiam apenas “rezar para que os santos e mártires intercedam na preservação intacta do monumento e da tumba de Franco”. No entanto, o propósito das orações era muito claro: demonstrar que não aceitam a decisão tomada pelo Governo socialista, liderado por Pedro Sánchez, de retirar o corpo do ditador do Vale dos Caídos e de conceder 15 dias à respetiva família para o reivindicar. Caso esta última condição não seja cumprida, o próprio Executivo garante uma nova sepultura a Francisco Franco, “com dignidade e respeito”.

Auschwitz, Arlington ou demolição?

O decreto-lei aprovado no dia 24 de agosto pela equipa de Pedro Sánchez e foi posteriormente confirmado no Parlamento, com a maioria das forças políticas a concordar com este desenlace, que a vice-primeira-ministra, Carmen Calvo, acredita poder ficar concluído até ao final deste ano. A governante passou os últimos meses a recordar que esta iniciativa há muito deveria ter sido tomada e, por vezes, invoca até a recomendação da ONU, datada de 2014, para que Espanha impeça a existência de um monumento que faz a apologia de um regime fascista, o qual foi responsável pelo desaparecimento e pela morte de 100 mil opositores – uma estatística aterradora e que só tem comparação com as vítimas dos khmers vermelhos, no Camboja.

“Em matéria de memória histórica, há ainda muito por fazer”, admitiu entretanto Carmen Calvo, perante a possibilidade de o mausoléu do Vale dos Caídos ser convertido num museu semelhante ao que existe em Auschwitz, como pretendem as principais forças de esquerda. Ou num futuro espaço de reconciliação, nem que seja como o Cemitério de Arlington, nos EUA, como pretende o Ciudadanos. Ou a sua demolição pura e simples, como propõem os bascos do PNV.

O principal partido da oposição, o Partido Popular (PP), que se absteve na votação, critica todo este processo, que considera absurdo. O PSOE, por seu turno, acusa-o de adotar uma “estratégia hipócrita” para não incomodar os seus militantes mais radicais e saudosistas. Pablo Casado, líder do PP, nega com veemência e justifica a “abstenção com uma absoluta indiferença” porque o “franquismo de há 40 anos já não tem nenhum significado (...) e a Espanha de hoje não pensa nestas coisas”. Para este responsável nascido em 1981, o Governo deveria antes propor e discutir questões para as próximas quatro décadas. E convenhamos que os estudos de opinião confirmam parcialmente as suas teses. Há uma década, o Centro de Investigações Sociológicas (CIS) revelou que 42% dos espanhóis achavam que não deveriam ser apuradas responsabilidades nas violações dos direitos humanos durante o período franquista, com um terço a defender ainda que o passado deveria ser esquecido para evitar o risco de um novo conflito civil. No entanto, os dados do CIS não oferecem dúvidas sobre o tipo de regime: em 1985, só 69% dos espanhóis se mostravam favoráveis à democracia; em abril passado, eram já 86% e apenas 4,8% admitiram a preferência por viver num estado autoritário.

A maldição de Tutankamon

O problema é que parece haver setores da sociedade espanhola em que os fantasmas do passado estão ainda muito presentes. É o caso das forças armadas. Mais de 600 militares aposentados e na reserva subscreveram um manifesto a defender o antigo caudilho, “hoje vilipendiado de forma inconcebível”, no qual se diz que as acusações contra ele têm como único propósito “fazer com que as novas e futuras gerações desprezem um período importante da sua própria História”. Este abaixo-assinado já levou o Ministério da Defesa a abrir um inquérito disciplinar a cinco oficiais e ao aparecimento de um outro manifesto, de sinal contrário: “O general Franco não merece respeito nem desagravo algum, apenas a nossa absoluta repulsa por ter encabeçado um golpe de Estado (...). Somos funcionários servidores do Estado (...) enquanto coletivo, não temos o direito de pressionar o Estado democrático (...). Não somos portadores de uma moral superior nem defendemos nenhuma herança sagrada.”

Perante a polémica, a numerosa prole do sádico legionário nascido na cidade galega de Ferrol tem uma posição consensual: rejeita a exumação e admite recorrer à Justiça e a outras instâncias para impedir a transladação do cadáver. Na qualidade de porta-voz da família, Francis Franco, um dos sete netos do ditador que não se importava de assinar execuções enquanto tomava o pequeno-almoço, disse ao jornal La Razón que espera que se abata uma “maldição” sobre todos os responsáveis pelo que está a acontecer, “tal como aconteceu com os que desenterraram Tutankamon”. Curiosamente, na mesma entrevista revelou que o seu avô nunca teve a mínima intenção de ser sepultado no Vale dos Caídos e que essa foi uma decisão exclusivamente tomada após a sua morte pelo rei Juan Carlos e por Carlos Arias Navarro (chefe do governo entre 1974 e 1976). E acusa o PSOE e Pedro Sánchez de estarem à frente de um Governo que “não representa quase ninguém” e de estarem a brincar com o fogo por se terem aliado aos comunistas, a exemplo do que aconteceu em 1932, insinuando que o país está cada vez mais dividido e à beira de um novo conflito.

Ao contrário do seu irmão, Carmen Martínez-Bordiú prefere manter-se afastada deste debate. A mais velha dos netos de Francisco Franco parece não estar interessada em aparecer publicamente para também nada lhe ser perguntado. Aliás, desde a morte da mãe, María del Carmen Franco y Polo, em dezembro, que ela se tem dado a um recato pouco habitual. Claro que la prensa del corazón continua a falar dela e a acompanhar a vida sentimental da mulher que tem, desde o verão passado, um novo namorado, nascido nos antípodas e com menos de metade da sua idade. Só que a paixão pelo australiano Timothy McKeague não explica tudo. O casal terá decido instalar-se em Portugal, onde ela conta com vários amigos (em Cascais e Sintra) e ele pode dedicar-se às suas atividades favoritas – o surf, o ioga e o contacto com a Natureza. Contudo, o título nobiliárquico que herdou da mãe, duquesa de Franco, e que foi criado especificamente por Juan Carlos em 1975, ainda promete dar-lhe muitas dores de cabeça. O anterior governo espanhol, de Mariano Rajoy, assinou a 31 de maio, três dias antes de cessar funções, um decreto a validar a transmissão do título a Carmen Martínez-Bordiú. Oficialmente, ela tornou-se duquesa a 4 de julho, após a publicação do documento no Boletim Oficial do Estado (equivalente ao português Diário da República), mas há várias personalidades e entidades a contestar estes trâmites e a porem em causa o título. Os partidos mais à esquerda no Parlamento exigem a sua extinção e o Executivo de Pedro Sánchez admite recorrer a um expediente administrativo para alterar a legislação de 1912, de modo a apaziguar a indignação dos que olham para tudo isto como mais um insulto às “114 mil pessoas que permanecem em fossas comuns, sem terem sido identificadas e enterradas condignamente pelas suas famílias” – nas palavras da Associação para a Recuperação da Memória Histórica.

Como se não bastasse, Carmen Martínez-Bordiú e os irmãos têm ainda um outro enorme problema para resolver: a Fundação Nacional Francisco Franco (FNFF). Por se tratar de uma organização privada sem fins lucrativos, a família habilita-se agora a uma série de iniciativas para que seja ilegalizada. Os adeptos das teorias conspiracionistas consideram que esta instituição permitiu à família legitimar e ampliar o património angariado pelo caudilho à custa de doações fraudulentas e incontáveis esquemas de abuso de poder. O jornalista e escritor Mariano Sánchez Soler, no seu livro Los Franco S.A., considera que a fortuna familiar deve rondar os 600 milhões de euros e é de esperar que a FNFF seja em breve alvo de um escrutínio implacável. A 19 de agosto o El País publicou uma reportagem em que vários historiadores se queixam não apenas de a fundação enaltecer um ditador e um regime fascista, mas sobretudo por lhe ser permitido pôr e dispor de milhares de documentos que deveriam estar sob tutela do Estado. Entre 2000 e 2003, o governo conservador de José María Aznar investiu mais de 150 mil euros na digitalização dos arquivos da fundação, mas os investigadores continuam a ser impedidos de consultar os dossiês mais sensíveis, como, por exemplo, os que dizem respeito às relações entre Franco e Hitler. 
“Isto não acontece nem na Rússia. Os papéis de Estaline estão disponíveis. Dos de Franco ninguém sabe”, acusa o académico Ángel Viñas. Será que Carmen Martínez-Bordiú ainda vai dar um exclusivo à Hola, a partir da sua nova casa em Cascais, a disponibilizar aos seus compatriotas as mais de 100 mil páginas que a sua mãe terá guardado ao longo dos anos? Se não o fizer depressa, ela e os seis outros netos de Franco podem vir a ser expropriados da fundação criada em 1976 para perpetuar a memória 
do Generalíssimo.