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Grécia: “Até as palavras arderam”

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ANGELOS TZORTZINIS/ Gett Images

Fala-se em catástrofe bíblica e áreas inteiras varridas do mapa da zona costeira da Grécia

Catástrofe bíblia. Inferno negro. Indescritível. Inacreditável. Catástrofe total. Estas são algumas das palavras usadas para descrever o que se passa na Grécia, mais concretamente nas zonas costeiras de Mati, Kineta e Nea Makri, a cerca de 40 km da capital Atenas.

Os fogos têm levado tudo à frente, numa combinação de vento extremo e temperaturas escaldantes.

Liana Spyropoulou, jornalista grega, diz na sua conta do Twitter que “até as palavras arderam” perante uma tragédia que, até agora, fez cerca de 74 mortos.

Liana diz que não vai colocar fotos dos mortos que viu, mas apenas outras imagens.

O primeiro-ministro Alexix Tsipras refereiu que “o país está a passar por uma tragédia indescritível. Hoje, a Grécia está de luto e vamos declarar três dias de luto nacional, em memória das vítimas”.

A estância balnear de Mati é, sobretudo, frequentada por pensionistas e crianças que estão nos campos de férias.

Muitas das vítimas ficaram encurraladas pelas chamas quando tentavam chegar à praia. Os 26 corpos carbonizados, encontrados todos juntos, estavam perto da praia.

“Fui informado por um elemento das operações de resgate de uma fotografia chocante que mostrava 26 pessoas num campo situado a 30 metros da praia” de Mati, disse Nikos Economopoulous, presidente da Cruz Vermelha grega”. “Tentaram encontrar uma rota de fuga mas infelizmente estas pessoas e as suas crianças não conseguiram encontrá-la a tempo”, acrescentou ainda.

Andreaas Passios, que mora perto do local onde foram encontrados os corpos, contou como escapou à fúria das chamas. “Aconteceu em segundos. Peguei uma toalha de praia, encharquei-a e isso salvou-me. Eu e a minha mulher corremos para o mar. Era inacreditável. Bombas de gás a explodir e pinhas a arder voavam por todo o lado”.

À BBC, Kostas Koukoumakas, jornalista que esteve em Mati, descreveu o cenário terrível que presenciou:

“O que está a acontecer aqui é um inferno negro. Depois de ter passado por centenas de carros e casas em chamas, cheguei ao pátio em que, segundo a polícia, muitas pessoas [26] foram encontradas mortas”. Koukoumakas diz que viu “algumas pessoas deitadas no chão, enquanto a névoa cobria o local e um cheiro tóxico estava espalhado pela atmosfera”.

Nikos Stavrinidis fugiu para a praia e entrou no mar para se salvar. Esteve duas horas dentro de água até ser resgatado por um barco de pesca com tripulação egípcia.

“O fogo apareceu muito depressa. O vento era indescritível, nunca vi nada assim na vida”, contou à Associated Press. Nem todos os que mergulharam com ele se salvaram. “Entrámos na água e tentámos ganhar distância por causa do dióxido de carbono… mas à medida que avançávamos, o vento e a corrente começaram a afastar-nos da costa. Não éramos capazes de ver onde estávamos”, disse.

“O que carregarei no coração é que é terrível ver uma pessoa perto de ti a afogar-se e não poder ajudá-la. Não podes. É a única coisa trágica que vai ficar comigo”, disse, ainda, o sobrevivente.

Kostas Laganos também fugiu para a praia. “As chamas perseguiram-nos todo o caminho que fizemos” até ao mar. “Já estavam a queimar-nos as costas quando mergulhámos.”

A casa e o carro de George Vokas ardeu, mas ele e a família, que fugiram para a praia, estão bem. “Estamos a falar de uma catástrofe bíblica nesta zona maravilhosa de Mati”, referiu à BBC.

Quando algumas pessoas insistiam em proteger as suas casas, o chefe dos bombeiros foi à televisão fazer um apelo a todos para fugirem. “As pessoas devem fechar as casa e fugir. Não é possível aguentar tanto fumo por muito tempo. Esta é uma situação extrema”.