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“Trump é um animal diferente dos outros”

Mundo

The Washington Post

Na era das “fake news”, o jornalismo de fact-checking é cada vez mais visto como a solução para combater a desinformação e para pressionar os políticos a falar a verdade. Aaron Sharockman, diretor do Politifact, o mais conhecido site mundial de fact-checking, falou com a VISÃO sobre um fenómeno que está a pôr em sentido a classe política norte-americana – com a exceção óbvia de Donald Trump

D.R:

Qual é a eficácia real do fact-checking?

Acho que é muito eficaz. Há estudos nos Estados Unidos que nos dizem que os políticos que sabem que vão ser sujeitos a um fact-checking logo após as suas declarações têm mais cuidado com o que vão dizer publicamente.

Incluindo Donald Trump?

Não, Trump está excluído, ele é um animal diferente (risos) de todos os outros. Mas tudo isto é uma questão de lógica: se sabes que vou confirmar o que vais dizer, tendes a ter mais cuidado para não seres exposto publicamente. Além disso, as pesquisas também dizem que os leitores gostam de fact-checks. São textos muito lidos e apreciados. Se publicares uma notícia sobre emigração ou publicares um fact-check sobre o mesmo tema, o que está demonstrado é que as pessoas retêm mais informação do fact-check, porque se trata de um modelo que as faz pensar.

Essa é a parte boa. E a parte má, existe?

Também se pode ver o copo meio vazio, sim. Nós, no Politifact, somos o maior site de fact-checking nos Estados Unidos e somos apenas 11 pessoas! Não podemos sequer ambicionar cobrir toda a desinformação que circula no espaço público. Quem dissemina falsa informação tem recursos muito mais poderosos, muitas vezes com orçamentos gigantescos.

É uma luta desigual?

Sem dúvida. Nós fazemos um bom trabalho, mas as pessoas têm de entender que o fact-checking não é “a” solução; é uma parte dela. É verdade que está em crescimento em várias partes do mundo, mas não chega para contrariar todas as falsas informações que são veiculadas, nomeadamente através das redes sociais. Há um trabalho importante a fazer nas universidades, onde tem de se dizer aos alunos de jornalismo que todos os jornalistas deviam ser fact-checkers, que esta valência deve ser parte integrante das suas funções. Nos Estados Unidos os sites de fact-checking surgiram para preencher esta lacuna criada pela imprensa mainstream.

Isso não é estranho, tendo em conta, por exemplo, a dimensão das vossas redações? Só o New York Times tem cerca de mil jornalistas...

E sabe quantos fact-checkers existem lá? Um, contratado no ano passado. E o Washington Post tem dois. Em jornais com aquela dimensão é insuficiente. Não acho que seja obrigatório haver uma equipa de fact-checkers em todas as redações, mas o espírito e a metodologia têm de estar sempre lá para serem utilizados sempre que fizer sentido.

O Facebook , que foi muito debatido na cimeira do Global Editors Network realizada recentemente em Lisboa, tem estado debaixo de fogo nos últimos dois anos por muitos motivos, entre os quais a sua utilização perniciosa para influenciar eleições. O Politifact está neste momento a ajudar Mark Zuckerberg a combater a proliferação de “fake news”. Como?

O Facebook criou uma ferramenta que deteta possíveis falsas histórias. Nós temos acesso a uma lista produzida por eles e escolhemos algumas para fazer um fact-check. Depois de publicarmos o fact-check no Politifact, informamos o Facebook sobre a nossa avaliação da informação. Se a classificarmos como falsa, eles colocam-na no fundo do feed de notícias, de modo a que quase ninguém a leia. Para a leres, terias de estar a fazer scroll no teu rato quase eternamente, tendo em conta a quantidade gigantesca de notícias que diariamente é colocada em linha.

Há quanto tempo fazem esse trabalho?

Há 18 meses.

Quantos fact-checks já fizeram?

Cerca de 2300.

Qual é o vosso critério para decidir fazer o fact-check a uma informação?

Olhamos para histórias que sejam populares no sentido em que estão a provocar muita atenção pública. Trabalhamos principalmente a área política. Não podemos fazer fact-checking a todas as afirmações de Donald Trump porque não temos pessoas para avaliar tanta desinformação (risos). Por isso, e porque os Estados Unidos não se resumem a Trump, temos de escolher com base no que nos provoca mais dúvidas.

Têm a preocupação de demonstrar algum equilíbrio entre o Partido Republicano e o Democrata?

Não. O nosso critério é puramente jornalístico. Se algo relacionado com o Partido Democrata nos provocar dúvidas durante cinco dias, trabalhamos sobre isso durante esse tempo. E o contrário também é verdadeiro.

Nos Estados Unidos está criada a ideia de que o Politifact é mais “simpático” com os democratas do que com os republicanos. Isso condiciona o vosso trabalho?

Nada. A verdade e que o Partido Republicano tem sido muito eficaz a espalhar essa mensagem, mas não apenas sobre o Politifact – o que eles dizem é que a esmagadora maioria dos media estão ativamente contra Donald Trump.

Alguém escreveu que o fact-checking não nasceu com Donald Trump, mas que se o fenómeno fosse uma loja de hambúrgueres, o néon à porta teria a cara do presidente dos EUA. Concorda?

Tenho de concordar (risos).

Como é que garantem a vossa transparência?

Pensamos muito para sermos tão transparentes quanto possível. O que não queremos é que alguém diga: “Não sei como fazes o que fazes” ou “como é que tomaste essa decisão de classificação da informação?” ou “quem foram as tuas fontes de informação?” Para prevenir isto, listamos todas as nossas fontes em cada um dos artigos, não temos fontes em “off the record”, temos o nosso método feito explicado passo a passo no site. Há 11 anos que é assim. Outra coisa importante: quando somos criticados por algo específico procuramos saber porquê. Normalmente as críticas não estão relacionadas com o que escrevemos, têm a ver com o veredicto que demos.

Têm uma escala de classificação da veracidade das informações?

Sim. Pode ir da “verdade” até à mais extrema “pants on fire”, que é quando uma informação é escandalosamente falsa. Pelo meio existem outras classificações intermédias como “meia verdade” ou “tendencialmente falsa”. O que as pessoas têm de compreender é que isto não é ciência, não é matemática. É a nossa resposta, que procuramos ser consistentes e honestos. O ideal era que perante uma afirmação de Donald Trumpo, por exemplo, eu nos Estados Unidos e o Fernando em Portugal pudéssemos atribuir a mesma classificação, mas infelizmente isso não é assim, precisamente porque não estamos perante uma ciência. O máximo que podemos fazer é um trabalho transparente e correto. No Politifact podemos fazer um fact-check sobre quem que seja e sobre o que quer que seja, com total liberdade.

O que tem o jornalismo de fact-checking que o jornalismo dito “mainstream” não tem?

Há algumas coisas, mas acima de tudo o fact-checking tem algo que o distingue: enquanto que uma notícia num jornal dura 24 horas, um fact-check pode sobreviver durante anos. Em 2016 algumas das nossas história mais populares foram publicadas em 2015. Ainda este mês, um fact-check que fizemos sobre John McCain em 2009 teve 200 mil visualizações. Alguém o encontrou quando, provavelmente pesquisava sobre as posições de Mc Cain sobre a polémica recente com o diretor do FBI. Em 11 anos de existência fizemos 16 mil fact-checks. Temos uma base de dados gigantesca e valiosa, até para a imprensa mainstream, que a consulta regularmente.

Quantos fact-checks fazem por dia?

Normalmente uns cinco. Só para se ter uma noção comparativa, o Washington Post coloca um conteúdo novo online a cada minuto. É um trabalho totalmente diferente.