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Criou a ovelha Dolly para ajudar na cura de quem sofre de Parkinson. Agora é ele que sofre da doença

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Diagnosticado há poucos meses, o cientista britânico Ian Wilmut não desiste de investigar novas terapias para a doença degenerativa com a qual tem agora ele próprio de lidar

Duas décadas após ter espantado o mundo, quando apresentou a ovelha Dolly, clonada a partir de uma célula adulta, e que abriu caminho a novas investigações em busca da cura para quem sofre de Parkinson, o cientista britânico Ian Wilmut anunciou agora que, há quatro meses, a doença lhe foi diagnosticada. Mas o professor, 73 anos, que vive na Escócia, divulgou também que vai participar num programa de investigação de grande amplitude, para testar novos tratamentos que visam retardar a progressão da doença de Parkinson.

O novo projeto investigará as causas da doença, ao mesmo tempo que procederá à troca de informações de diversas experiências científicas, esperando-se que desta conjugação nasçam terapias inovadoras. "Foi a partir de uma semente idêntica que a Dolly se desenvolveu - podemos ter a esperança de que este novo projeto traga benefícios semelhantes", diz Ian Wilmut.

Em 1996, Wilmut e um grupo de cientistas do Instituto Roslin, em Edimburgo, clonaram uma ovelha adulta, do que resultou o nascimento de Dolly. Foi algo que chocou investigadores em todo o mundo, os quais diziam que esse feito não era possível de alcançar.

Mas o nascimento de Dolly provou que quaisquer células no corpo podem comportar-se como um "novo ovo fertilizado". Isso traduziu-se numa ideia que transformou o pensamento científico e encorajou investigadores a pesquisarem técnicas de reprogramação de células adultas.

O certo, porém, é que por agora os tratamentos disponíveis apenas medem os sintomas da doença de Parkinson, não existindo terapias que retardem ou parem a progressão da patologia, a qual afeta o sistema nervoso ao nível dos movimentos motores e causa tremores involuntários. As novas investigações, no entanto, conduziram à descoberta de células estaminais pluripotentes e induzidas, que representam uma terapia muito promissora para a doença de Parkinson, pelo seu potencial na regeneração de tecidos degradados.

É consensual na comunidade científica, aliás, que houve um desenvolvimento exponencial, nos últimos anos, do conhecimento genético e biológico relacionado com a doença que Ian Wilmut começa a sentir física e psicologicamente. "Possivelmente vou morrer mais cedo do que era suposto e, sobretudo, irá alterar a minha qualidade de vida", disse o "pai da Dolly" numa entrevista à BBC escocesa. O cientista vive num local montanhoso e rural, e gosta de dar passeios a pé. Mas já sente as dificuldades motoras inerentes à doença.

A ovelha Dolly morreu em 2003, na sequência de uma infeção pulmonar. O seu corpo foi doado ao Museu Nacional da Escócia, o qual deve boa parte dos visitantes a pessoas que querem ver o animal histórico. Wilmut ainda fala dela com carinho: "Continua a ser um símbolo simpático da ciência."