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Comité do Nobel da Literatura está de pantanas por causa de um escândalo sexual e já houve quatro demissões

Mundo

Discurso do escritor japonês Kazuo Ishiguro, premiado com o Nobel da Literatura em 2017

STINA STJERNKVIST/Getty

A reputação da Academia Sueca está posta em causa por não ter sabido lidar com as acusações de abuso sexual contra o marido de um dos seus membros

A prestigiada Academia Real Sueca, que atribui o Nobel da Literatura, está a braços com o maior escândalo de sempre e a sua reputação está posta em causa devido a acusações de abuso sexual e tráfico de influências contra o marido da escritora Karatina Frostenson, membro do comité que seleciona os candidatos e atribui o prémio.

Depois de, na semana passada, três escritores terem batido com a porta e saído da Academia Sueca em discordância com a forma como esta tem lidado com as acusações, ontem foi a vez de Sara Danius, secretária permanente anunciar a sua saída.

Recuemos a novembro, altura da eclosão do movimento #MeToo, em que muitas mulheres e homens denunciaram abusos sexuais que decorreram ao longo de anos. Nessa altura, 18 mulheres acusaram Jean-Claude Arnaut, 71 anos, uma figura proeminente da cena cultural sueca, de assédio sexual entre 1996 e 2017, sendo que algumas dessas abordagens tiveram lugar em locais ligados à Academia, como um apartamento do organismo em Paris.

Jean-Claude Arnaut é casado com Karatina Frostenson, do comité, e, em conjunto, detêm um clube cultural chamado Fórum, em Estocolmo, que recebia dinheiro da Academia. O homem que, segundo o jornal francês Le Monde, se gabava de ser o 19.º membro do júri (são 18 os que elegem o Nobel da Literatura), também é acusado de tráfico de influências e de ter quebrado o segredo do nome do galardoado pelo menos sete vezes.

A Academia Sueca, que tem estado em silêncio sobre este assunto, recorreu a uma firma de advogados para fazer um inquérito sobre a relação de Jean-Claude com os seus membros e, quando as conclusões chegaram, na semana passada, não houve consenso sobre o que fazer.

Assim, três escritores saíram do comité, alegando “problemas sérios” no seio da instituição e de se “porem as amizades à frente da integridade”.

A mulher de Jean-Claude aceitou, também ontem, deixar as atividades na Academia, ao mesmo tempo que este nega as acusações de que é alvo e a polícia investiga as alegadas más condutas sexuais.

Sara Danius, a secretária permanente da Academia Real Sueca

Sara Danius, a secretária permanente da Academia Real Sueca

JONATHAN NACKSTRAND/Getty

Um dos problemas que se põe, no momento em que o comité do Nobel está de pantanas, é que os 18 membros são eleitos de forma vitalícia e, mesmo que saiam, não podem ser substituídos enquanto forem vivos. O que levou, entretanto, o presidente da Academia a dizer que os estatutos talvez devessem ser revistos. Além disso, está a chegar a altura em que é definida a short-list de 20 candidatos ao Nobel da Literatura (atribuído em outubro).

O editor de cultura do jornal sueco Dagens Nyheter que, em novembro, publicou a notícia das acusações contra Jean-Claude, disse “que isto é uma tragédia para a vida cultural da Suécia”, já que sempre houve consenso de que “este grupo de pessoas é competente” e que o “seu julgamento literário é sólido”, no entanto isso está agora “ponto em causa”.

Um professor de literatura da Universidade de Helsínquia referiu ao The New York Times que se trata de “um golpe palaciano para se livrarem de Sara Danius”, pois “ela é forte e eles, na Academia, não estão habituados a ter mulheres fortes”.

Sara, no momento da sua demissão, na quinta-feira, explicou que “a situação já está a afetar bastante o Prémio Nobel, o que é um grande problema” e que sai por esse é “o desejo da Academia”.