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E se o dissidente que apareceu morto num hotel em Washington foi (também ele) assassinado?

Mundo

Mikhail Lesin, com Vladimir Putin, numa foto de 2002

Reuters

Relatório do ex-agente secreto britânico Christopher Steele conclui que o ex-czar dos media russos Mikhail Lesin foi espancado até à morte, alegadamente por capangas contratados por um oligarca próximo de Vladimir Putin. Dois anos e meio depois, o mistério está quase deslindado

Rosa Ruela

Rosa Ruela

Jornalista

Manhã de quinta-feira, 5 de novembro de 2015. Está sol e uma temperatura é amena em Washington quando se descobre o cadáver de Mikhail Lesin, de 57 anos, no quarto que ocupava há vários dias no The Dupont Circle Hotel, na vibrante baixa da cidade. As imagens gravadas pelas câmaras de segurança irão mostrar que na véspera o enorme russo – ele era muito justamente apelidado de O Buldozer – aparentava estar bem de saúde, mas durante a noite de 4 para 5 algo de grave se passou naquele quarto.

A família inicialmente fala em ataque cardíaco, mas o médico legista depara-se imediatamente com lesões contundentes na cabeça, e feridas no pescoço, torso e extremidades superiores e inferiores. E as análises realizadas ao sangue encontram vestígios suficientes para se poder falar em intoxicação por álcool.

No final de 2016, ao fim de quase um ano de investigação, encetada por suspeitas de homicídio, o FBI conclui que Mikhail Lesin morreu sozinho no seu quarto de hotel, após diversas quedas e “depois de consumir doses excessivas de álcool durante vários dias”. A morte terá sido, por isso, “acidental”, e o caso é dado por fechado, mas no FBI ninguém alinha pela versão oficial.

“O que posso dizer-lhe é que nem uma única pessoa aqui acredita que este tipo se embebedou, caiu e morreu”, disse no ano passado um agente ao BuzzFeed News, o site que agora publicou a cacha com o relatório de Christopher Steele (o ex-agente secreto britânico que expôs o apoio do Governo russo à candidatura de Donald Trump, em 2016). “Toda a gente pensa que ele foi agredido, e que Putin ou o Kremlin estiveram por detrás disso.”

Quem era “O Buldozer”

Faz sentido. Mikhail Yuriyevich Lesin não era um qualquer enorme homem russo. Antigo aliado do presidente russo, Vladimir Putin, ele foi durante algum tempo considerado o czar dos media. Apareceu na esfera pública (e política) logo em 1991, após a dissolução da União Soviética. Começou por ajudar Boris Ieltsin a ser reeleito em 1996 (tivera uma agência de publicidade, nos anos 90), ganhando de prémio a pasta da Imprensa; e ali se manteria até 2004, a partir de dezembro de 1999 já no Governo de Putin.

Em 2005, fundou o canal de notícias Russia Today (hoje chamado RT), financiado pelo Kremlin. O objetivo era claramente responder às perspetivas ocidentais difundidas pela CNN e a BBC, mas algo terá corrido mal entre ele e Putin, porque em 2009 deixou o cargo de assessor presidencial.

No final de 2014, demitiu-se da Gazprom-Media, onde tinha uma posição importante, alegando razões pessoais, mas o jornal russo RBK noticiou que a razão era outra: Lesin rompera relações com um dos principais acionistas da empresa, e sócio de Putin, Yuri Kovalchuk. Por essa altura, começou a ser falado nos Estados Unidos, por suspeitas de lavagem de dinheiro. Comprara lá um iate avaliado em 32 milhões de euros e diversas propriedades de luxo para si próprio, a filha, Ekaterina Lesina, que chefia um gabinete na RT, e o filho, Anton Lessine, produtor em Hollywood.

Segundo o relatório agora divulgado pelo BuzzFeedNews, Mikhail Lesin foi espancado até a morte por agentes de segurança estatais russos contratados por um oligarca próximo de Putin. O objetivo não seria matá-lo, mas os homens terão ido longe de mais.

Não é a primeira vez que Christopher Steel colabora com o Departamento de Estado americano – o antigo chefe da secção de serviços secretos britânicos que fazia os relatórios sobre a Rússia foi o autor de mais de uma centena de relatórios precisamente sobre atividades russas nos EUA. Também não é a primeira vez que o BuzzFeed News expõe mortes suspeitas relacionadas com a Rússia – só no Reino Unido, o site expôs catorze.