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Os miúdos americanos querem acabar com as armas nas mãos de outros miúdos, mas há quem não goste

Mundo

Emma González (à frente, de cabelo curto) é um dos rostos dos adolescentes americanos na luta contra a posse de armas

Chip Somodevilla/Getty

Poderão os adolescentes lutar contra a política de posse de armas nos EUA? Parece que sim, ou não estivessem já a ser injuriados e alvo de notícias falsas pela ala direita e pela poderosa Associação Nacional das Armas

Cinco adolescentes formaram o movimento #NeverAgain (Nunca Mais), deram voz à luta contra as armas e despoletaram a raiva e a fúria da direita na internet. Emma González, David Hogg, Cameron Kasky, Alex Wind e Jaclyn Corin estavam na escola Marjory Stoneman, em Parkland (Florida), no dia 14 de fevereiro, quando outro estudante, Nikolas Cruz, de 19 anos, irrompeu pelo recinto de arma automática e matou 17 pessoas (14 estudantes e três funcionários). Desde então, são o rosto do combate que enfrenta um dos lobbies mais poderosos dos EUA, a NRA (National Rifle Association; Associação Nacional das Armas), e a ala direita que olha apenas para “os bons tipos com armas”.

Numa sequência diabólica de tweets maldizentes, teorias da conspiração propaladas no You Tube e memes truncados, os cinco adolescentes que sobrevivam ao massacre de Parkland tornaram-se no alvo dos conservadores logo depois de começaram a aparecer nos media e de organizarem uma marcha/manifestação (“March for Our Lives”; Marcha pelas Nossas Vidas) contra a política de posse de armas que encheu as ruas de Washington no sábado, dia 24.

Emma González e David Hogg, os primeiros cujos testemunhos foram transmitidos pela comunicação social, ficaram desde logo na mira da NRA e dos provocadores de serviço nas redes. Apenas seis dias depois da matança, um dos provocadores da ala direita escrevia no twitter: “Adultos, 1, crianças 0” e “O pior dia desde os pais vos mandaram arranjar um trabalho de verão”. As frases estavam acompanhadas de uma imagem dos sobreviventes do massacre a chorar e referia-se à legislação estatal para acabar com a venda de armas de estilo militar que acabava de ser chumbada. Os tweets tiveram mais de 25 mil likes e oito mil retweets (respostas).

Logo a seguir, vários utilizadores do twitter, sob anonimato, começaram a lançar teorias da conspiração. Que os adolescentes, nomeadamente Emma e David, eram atores e não vítimas, e que os miúdos que escreveram tweets enquanto decorria o massacre na escola faziam parte dessa conspiração. As frases foram vistas por milhares de pessoas, que responderam na rede social.

Se o “gatilho” destes incitadores já estava a ficar quente, na altura em que os miúdos começaram a falar em controlo de armas ficou a ferver e a campanha de descrédito alargou-se. Rapidamente, um vídeo no You Tube, onde se dizia que David era um ator, chegou ao primeiro lugar. Um “youtuber” com 2 milhões de seguidores fez vários outros vídeos sobre este adolescente de 17 anos apenas para o difamar.

No patamar mais alto da indignidade está um meme truncado (em cima) em que a protagonista é Emma González. À frente de três raparigas, Emma rasga a imagem de um alvo de tiro, numa reportagem sobre jovens ativistas publicada na revista Teen Vogue. A gravação foi truncada e usada para disseminar um meme em que Emma aparece a rasgar a Constituição dos EUA.

A rapariga que se apresentou à Harper's Bazaar, num texto escrito por si, desta forma; “Chamo-me Emma González. Tenho 18 nos, sou cubana e bissexual. Sou tão indecisa que nem consigo escolher uma cor preferida e sou alérgica a 12 coisas diferentes. Desenho, pinto, faço croché e bordado, coso – qualquer coisa produtiva que consiga fazer com as mãos enquanto vejo Netflix. Mas agora já nada disso interessa”; é a mesma que comoveu dezenas de milhares de pessoas na manifestação de 24 de março com um discurso de 6 minutos e 20 segundos (o tempo que durou o massacre na escola), entrecortado por um longo silêncio a meio. Emma foi, também, alvo de insultos na página de facebook de um político republicano – com assento na Câmara dos Representantes – por usar uma pequena bandeira de Cuba cosida no casaco.

Discurso de Emma González na "March for Our Lives", em Washington, EUA, no dia 24

A NRA não ficou parada. Aliás, terá andado sempre na sombra, mesmo quando não era referida diretamente. Até que um dos comentares da NRA TV, que tem mais de 650 mil seguidores na sua página do You Tube, falou diretamente para os estudantes: “Ninguém saberia quem vocês são” se um atirador não tivesse entrado na escola. Quanto à marcha de 24 de março, referiu que “estes miúdos deviam era manifestar-se contra as suas próprias crenças hipócritas”, numa alusão à luta pelo controle de armas que esteve na base da manifestação e marcha pelas ruas de Washington.

Mas a NRA também está na mira de muitos. Emma González que nem conta no Twitter tinha antes do tiroteio, tem hoje mais seguidores que a associação de armas. Não esquecendo que várias grandes empresas como a Delta Airlines, United Arlines, Hertz ou a seguradora MetLife fizeram saber que cortaram as parcerias com a associação.

Os cinco adolescentes que formaram o movimento #NeverAgain fizeram a capa da revista Time desta semana, que lhes chamou a “geração dos tiroteios escolares”. Na foto aparece uma única palavra “Enough.” (Chega.)