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As imagens de uma década de protestos de Ahed, a 'Joana D'Arc' palestiniana

Mundo

A audácia de Ahed Tamimi começou a ser notícia em 2012, quando ameaçou esmurrar um soldado israelita que entrara na sua aldeia

Anadolu Agency

Pode uma bofetada ser um "ato terrorista"? O debate prossegue enquanto a adolescente Ahed Tamimi permanece presa a aguardar o julgamento, marcado para 11 de março, em Israel. Mas quem é esta menina de cara angelical que ousou enfrentar militares armados? Nos arquivos fotográficos descobrimos a sua longa história de resistência à ocupação da Cisjordânia, ao lado da família

Estamos no ano 2018 d.C.. Toda a Palestina está ocupada por Israel… Toda? Não! Uma aldeia povoada por irredutíveis árabes resiste agora e sempre ao invasor. Como é possível que uma minúscula aldeia perdida algures na Cisjordânia consiga resistir a tão poderoso exército? O que a torna invencível?

Em Nabi Saleh não há um druida a distribuir poção mágica como na aldeia de Astérix, mas isso não tem impedido os seus habitantes de enfrentarem os soldados israelitas todas as semanas, sem tréguas, na última década. Nesta centenária localidade palestiniana, com pouco mais de 500 habitantes, todos protestam contra a ocupação: os pais, os avós, os filhos, os netos, os tios, os sobrinhos. São como uma enorme família, primos dos primos dos primos, partilhando o sobrenome Tamimi. As manifestações tornaram-se parte integrante da vida da aldeia. Lado a lado tanto segue o avô, de bengala, como o neto, lambendo um chupa-chupa. E, quando o protesto pacífico azeda, pode haver guerra de pedras mas também há habitantes que combatem tal como os gauleses avançavam sobre os romanos: arregaçando as mangas e... PAF!

No final do ano passado, as bofetadas de uma adolescente com longos cabelos louros a um soldado que recusava sair do seu quintal correram mundo, via Twitter. O caso tornou-se tão embaraçoso para as forças israelitas que Ahed Tamimi, de 16 anos, acabaria por ser detida em dezembro e acusada por vários crimes, da agressão a ato terrorista. A jovem permanece presa desde então, aguardando o julgamento num tribunal militar, com início previsto para 11 de março. Mas quem é esta menina de ar angelical que os palestinianos já tratam como heroína, qual Joana D'Arc, pintando o seu rosto pelos muros da Cisjordânia e da Faixa de Gaza?

Um soldado israelita segura Ahed Tamimi, então com 9 anos, enquanto o seu pai é prso e levado por militares, por estar a filmar os protestos de Nabi Saleh

Um soldado israelita segura Ahed Tamimi, então com 9 anos, enquanto o seu pai é prso e levado por militares, por estar a filmar os protestos de Nabi Saleh

ABBAS MOMANI

A fonte dos protestos

Os montes de oliveiras que os palestinianos de Nabi Saleh viam das janelas de casa, e que pertenciam às suas famílias, já não existem. No seu lugar vê-se hoje uma sucessão de telhados vermelhos: o colonato de Halamish, que ali começou a ser construído em 1977 pelo grupo nacionalista messiânico Gush Emunim, e onde vivem cerca de 1400 judeus.

Ao lado ergue-se uma base militar israelita e, a meio caminho entre a aldeia e o colonato, brota uma fonte que os israelitas reclamaram como sua no verão de 2008. Foi, digamos assim, a gota de água para esta comunidade de agricultores, que já mal podia circular por entre os muros e checkpoints erguidos pelos militares hebraicos.

Como as suas queixas não foram ouvidas pelos tribunais israelitas, apesar de os juízes reconhecerem que a propriedade da fonte era dos habitantes da aldeia palestiniana, a população resolveu unir-se num grande protesto, em dezembro de 2009.

O objetivo era marchar de forma pacífica desde o centro de Nabi Saleh até à fonte. Iam famílias inteiras, lado a lado. As crianças desenharam cartazes e encabeçavam a manifestação, que acabou por ser duramente reprimida pelos militares, com gás lacrimogénio, canhões de água e balas de borracha. Foi a semente para uma revolução. Desde então, todas as sextas-feiras, depois das rezas do meio-dia, as gentes de Nabi Saleh organizam a sua marcha, tentando chegar à fonte. Quase nunca lograram percorrer mais que uma dezena de metros. Pelo menos 120 habitantes já foram presos, muitos deles várias vezes. Como Bassem Tamimi, pai da jovem Ahed, que se tornou um conhecido ativista contra a ocupação israelita, documentando em fotografia e vídeo os protestos da aldeia, divulgando-os depois através da pequena agência que criou: a Tamimi Press.

Ahed seguia na primeira manifestação, em 2009, empunhando um tosco cartaz de papel, pintado com as cores e traços inocentes de uma criança. Tinha apenas 8 anos. As palavras de ordem passaram a marcar o ritmo da sua vida, desde então (ver galeria de fotos). Em 2012, teve o seu primeiro momento de fama mundial, quando as agências internacionais difundiram uma fotografia sua ameaçando esmurrar um soldado israelita. Aquela figura de cabelos louros, em toda a fragilidade dos seus 11 anos, fazia frente a um homem armado, olhos nos olhos. Crescia nela a raiva acumulada pelas mortes que começaram a suceder-se entre os manifestantes. "Acidentes" com balas de borracha e granadas de gás lacrimogénio deixaram de ter justificação quando fotojornalistas internacionais captaram o momento em que um israelita apontou e disparou à cabeça de Mustafa Tamimi, de 28 anos, quando este tentava atirar uma pedra contra um jipe militar.

Alguns meses mais tarde, Ahed chegaria mesmo a "vias de facto" com um soldado, que agarrara no seu irmão de 13 anos, debilitado com um braço partido, e o pretendia levar preso por atirar pedras (atualmente, permanecem cerca de 300 menores palestinianos, com idades entre os 12 e os 17 anos, nas prisões de Israel). A rapariga saltou para cima dele e mordeu-lhe as mãos até o miúdo conseguir fugir. Um ataque ignóbil, aos olhos dos israelitas, celebrado de forma heróica no mundo árabe. O presidente turco, Recep Erdogan, homenageou-a e ofereceu-lhe um iPhone.

Em novembro do mesmo ano, os confrontos com as tropas israelitas passaram a guerra aberta, com balas verdadeiras a serem disparadas contra os manifestantes. Outro tio de Ahed, Rushdie Tamimi, de 31 anos, foi alvejado com mais de 80 balas pelas costas enquanto os manifestantes de Nabi Saleh desmobilizavam do protesto a caminho da fonte, fugindo de regresso à aldeia.

Depois da sua imagem ter corrido mundo, por ter ameaçado esmurrar um soldado israelita aos 12 anos, Ahed Tamimi passou a tapar o rosto quando participava em novos protestos.
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Depois da sua imagem ter corrido mundo, por ter ameaçado esmurrar um soldado israelita aos 12 anos, Ahed Tamimi passou a tapar o rosto quando participava em novos protestos.

ABBAS MOMANI

Aos 10 anos, encabeçando uma das manifestações semanais do povo da sua aldeia.
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Aos 10 anos, encabeçando uma das manifestações semanais do povo da sua aldeia.

ABBAS MOMANI

De casaco cor-de-rosa, Ahed marcha no centro do protesto semanal, a caminho da fonte de Nabi Saleh, em 2015.
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De casaco cor-de-rosa, Ahed marcha no centro do protesto semanal, a caminho da fonte de Nabi Saleh, em 2015.

Anadolu Agency

Mesmo quando a guerra das pedras abria frentes de batalha mais violentas, a menina palestiniana participava nos protestos.
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Mesmo quando a guerra das pedras abria frentes de batalha mais violentas, a menina palestiniana participava nos protestos.

Anadolu Agency

Mesmo quando a guerra das pedras abria frentes de batalha mais violentas, a menina palestiniana participava nos protestos.
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Mesmo quando a guerra das pedras abria frentes de batalha mais violentas, a menina palestiniana participava nos protestos.

Anadolu Agency

A partir de 2011 os confrontos com os soldados israelitas tornaram-se mais violentos. A morte de Mohamed Tamimi, tio de Ahed, atingido na cabeça com uma granada de gás, gerou ainda mais revolta na aldeia de Nabi Saleh.
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A partir de 2011 os confrontos com os soldados israelitas tornaram-se mais violentos. A morte de Mohamed Tamimi, tio de Ahed, atingido na cabeça com uma granada de gás, gerou ainda mais revolta na aldeia de Nabi Saleh.

ABBAS MOMANI

Musab Firas Tamimi, de 17 anos, é a mais recente vítima mortal dos confrontos entre palestinianos e israelitas, na Cisjordânia. Foi morto à queima-roupa, com uma bala na cabeça, a 3 de janeiro deste ano.
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Musab Firas Tamimi, de 17 anos, é a mais recente vítima mortal dos confrontos entre palestinianos e israelitas, na Cisjordânia. Foi morto à queima-roupa, com uma bala na cabeça, a 3 de janeiro deste ano.

Anadolu Agency

O mundial de futebol, em 2015, foi o pretexto para os habitantes mostrarem cartões vermelhos aos soldados israelitas, em mais um dos seus protestos semanais.
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O mundial de futebol, em 2015, foi o pretexto para os habitantes mostrarem cartões vermelhos aos soldados israelitas, em mais um dos seus protestos semanais.

Anadolu Agency

Em agosto de 2015, o irmão de Ahed, com 13 anos, foi apanhado por um militar, que logo ordenou a sua detenção. Apesar do braço partido, estava a atirar pedras aos colonos judeus que iniciavam novas construções nos terrenos da família Tamimi.
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Em agosto de 2015, o irmão de Ahed, com 13 anos, foi apanhado por um militar, que logo ordenou a sua detenção. Apesar do braço partido, estava a atirar pedras aos colonos judeus que iniciavam novas construções nos terrenos da família Tamimi.

ABBAS MOMANI

Ahed gritou pela mãe a acabou por conseguir que o soldado israelita largasse o seu irmão: mordeu-lhe as mãos.
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Ahed gritou pela mãe a acabou por conseguir que o soldado israelita largasse o seu irmão: mordeu-lhe as mãos.

Anadolu Agency

A 25 de dezembro de 2017 foi levada perante um juiz israelita por ter esbofetado um soldado. Permanece na prisão desde esse dia, a aguardar julgamento num tribunal militar.
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A 25 de dezembro de 2017 foi levada perante um juiz israelita por ter esbofetado um soldado. Permanece na prisão desde esse dia, a aguardar julgamento num tribunal militar.

AHMAD GHARABLI

Um mural da nova heroína palestiniana, numa rua da Faixa de Gaza, em janeiro de 2018, mencionando o hashtag #freeAhed
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Um mural da nova heroína palestiniana, numa rua da Faixa de Gaza, em janeiro de 2018, mencionando o hashtag #freeAhed

Momen Faiz

Ahed Tamimi completou 17 anos a 31 de janeiro numa prisão israelita. Esta foi a sua última aparição pública, em tribunal, a 13 de fevereiro.
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Ahed Tamimi completou 17 anos a 31 de janeiro numa prisão israelita. Esta foi a sua última aparição pública, em tribunal, a 13 de fevereiro.

Anadolu Agency

Agressões em direto

Cinco anos passaram sobre esse dia e quase tudo se mantinha na mesma, em Nabi Saleh. Voavam balas pelos campos em redor do casario árabe quando Mohamed, um primo de Aleh com 15 anos, foi atingido na cabeça. A jovem, já com 16 anos, viu tudo em tempo real, através de um direto nas redes sociais, filmado por outro familiar. Pouco depois, dois soldados entravam no quintal da família, usando os muros do jardim como resguardo e continuando a disparar contra os manifestantes. Ahed reconheceu um deles: era o militar que alvejara o seu primo, naquele dia. Saiu de casa a correr na sua direção e uma outra prima, Narimi, começou a filmar tudo com o telefone, transmitindo em direto o que se passava, via Twitter.

Aleh disse-lhes que estavam em propriedade privada e tinham de ir embora. Perante a recusa dos homens, começou a pontapeá-los e a tentar empurrá-los para fora do seu quintal. A mãe de Ahed veio em socorro, tentando acalmar as partes, mas a rapariga estava possuída pela raiva. Não se percebe a troca de palavras entre todos mas ficou registado o momento em que a rapariga esbofeteia um dos soldados. É por essa agressão que permanece detida há três meses e arrisca uma pena superior a 10 anos de prisão.

O rosto de menina que descobrimos nas fotografias de arquivo, ao longo da última década, ganhou outra maturidade. Outra dureza. Os 17 anos, completados a 31 de janeiro, foram passados na solidão de uma cela. Na semana seguinte, notava-se alguma tristeza no seu olhar quando foi fotografada a entrar na audição perante o juiz, para que fosse definida a data do início do julgamento. Mas assim que olhou para trás, e viu dezenas de fotógrafos e jornalistas entre o público, esboçou um tímido sorriso. Percebeu que a sua história continua a correr o mundo - e que estará ainda longe de conhecer um ponto final.