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“Jedwabne é o símbolo do passado sombrio”

Mundo

Até o Partido Lei e Justiça chegar ao poder, o nacionalismo radical, xenófobo, racista e antissemita era marginal. Mas depois foi encorajado. E agora tem peso’’

Joanna Michlic integra o Centro de Estudos de Violência Coletiva, Holocausto e Genocídio, em Londres, e investiga a História da Polónia. E acusa o governo do seu país de tentar impor uma narrativa heroica e perseguir quem a contraria.

LEIA A REPORTAGEM DA VISÃO EM JEDWABNE, NA POLÓNIA

Concorda com a criminalização do termo “campos de extermínio polacos”?

Criminalizar a expressão a pretexto do seu uso maciço é um argumento mentiroso. Estudiosos da sociedade polaca e da II Guerra Mundial jamais utilizaram o termo, embora outras pessoas o fizessem. A expressão sempre provocou reações sensíveis, mas as organizações judaicas, o museu Yad Vashem e os historiadores condenaram o seu uso, pois os polacos não podem ser responsabilizados pela construção de campos de concentração ou de extermínio. A legislação do governo é, aliás, muito perigosa: não especifica quem, e como, pode ser abrangido pela punição.

A Polónia tem dificuldade em enfrentar o seu passado negro?

Nenhuma nação tem apenas páginas heroicas. As relações judaico-polacas na II Guerra Mundial incluem passagens negras e dolorosas. Académicos, clérigos e intelectuais polacos e estrangeiros escavaram esse tema desde 1989, suprimido durante a época comunista. Fizeram-no também com o passado sombrio da Polónia, desenterrando casos como o massacre de Jedwabne. À luz da nova legislação, qualquer professor que pretenda ensinar a II Guerra Mundial e a complexidade moral da natureza humana nesse período arrisca ser processado e preso. É uma situação muito perturbadora.

Falar do genocídio de judeus em Jedwabne ou episódios idênticos é um crime?

Falar de Jedwabne como um dos lugares onde polacos mataram os seus vizinhos judeus, apesar de terem andado juntos na escola e se conhecerem bem antes da II Guerra Mundial, será um crime, de acordo com a nova lei. Jedwabne é o coração da escuridão, símbolo do passado sombrio das relações judaico-polacas, mas historiadores e políticos de direita radical desencadearam um processo de negação do que ali ocorreu, responsabilizando os nazis. Entre 2000 e 2002, o Instituto da Memória Nacional fez uma profunda investigação sobre o tema, mas agora quer reescrever a História. Devemos enfrentar as nossas páginas dolorosas. Só assim amadurecemos.

O Governo está a tentar impor uma narrativa heroica do País?

O Partido Lei e Justiça [PiS, no original] pretende focar o ensino da História na grandeza do país e apagar aspetos vergonhosos, tendo em conta a relação com os judeus antes, durante e depois da II Guerra Mundial. Dizem que é o melhor para a construção de uma nação mais forte. O objetivo é mudar a perspetiva da história polaca do século XX, bastante problemática. Vivem-se tempos muito tristes 
na Polónia.

O que fazer para contrariar isso?

Há protestos contra os líderes polacos dentro e fora do país, considerando que a legislação prejudica a imagem e a democratização da Polónia, mas é difícil combater isso. A reforma educativa em curso introduz a narrativa hegemónica e os professores são aconselhados a usar livros que a promovam. Perseguem-se académicos que estudam as páginas mais difíceis da história polaca durante a II Guerra Mundial. Mesmo o enorme papel de milhares de polacos que salvaram judeus deve colocar-se em perspetiva, pois esse heroísmo individual foi criticado e censurado pelas próprias famílias e vizinhos. O estudo desta complexidade histórica, e da natureza humana a ela associada, não tem condições para florir.

Ainda existe um problema judaico na Polónia?

Até o Partido da Lei e Justiça chegar ao poder, o nacionalismo radical, xenófobo, racista e antissemita era marginal. Mas depois foi encorajado. E agora tem peso. Aumentaram as atitudes xenófobas, racistas e antissemitas em pequenas e grandes cidades e isso é preocupante para a comunidade de judeus polacos e para estrangeiros que visitam a Polónia. Muitos polacos, mesmo ao nível político e na hierarquia da Igreja, sentem-se envergonhados e condenaram os preconceitos e a discriminação.