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Multiplicam-se as denúncias de assédio sexual na peregrinação a Meca

Mundo

KARIM SAHIB / GettyImages

Em #MosqueMeToo muitas muçulmanas contam casos de assédio sexual de que foram vítimas durante a peregrinação a Meca

“O lugar mais sagrado da Terra foi desonrado por bestas humanas.” Zi Moneer, muçulmana, deixou este comentário no twitter, assim como muitas outras mulheres que contaram a sua experiência durante a peregrinação a Meca, na Arábia Saudita.

Meca, considerada pelos muçulmanos como local sagrado da sua religião é visita obrigatória, pelo menos uma vez na vida, para rezar. A peregrinação, que tem o nome de Hajj, inclui um ritual que consiste em dar sete voltas em torno do Kabaa (a construção cúbica que está no centro do recinto da grande mesquita de Meca).

Depois do americano #MeToo, onde várias mulheres e homens se queixaram de assédio sexual, na sequência do “caso” do produtor Weinstein vir a público, agora são as muçulmanas que partilham na rede social Twitter, através do #MosqueMeToo, os casos de assédio de que foram vítimas durante a peregrinação a Meca.

Salma Omar, de 33 anos, relatou a sua experiência ao jornal digital Middle East Eye. A primeira vez aconteceu durante a Umrah, uma peregrinação mais pequena, quando “um homem que vinha atrás de mim começou a tocar-me”, a segunda vez, contou Omar, foi durante as voltas ao Kabba: “um tipo que vinha atrás começou a esfregar-se em mim”. Continua: “Ao início pensei que fosse algum engano, dado que havia uma grande multidão. Não conseguia virar-me para ver quem era e, quando o consegui, vi um tipo especado a olhar-me nos olhos e a rir. Isto continuou durante uns cinco ou 10 minutos, ao mesmo tempo que tentava aproximar-me do meu grupo. Fiquei aterrorizada. Assustou-me para toda a vida”.

Enquanto muitas muçulmanas falam na serenidade que sentiram em Meca, muitas outras têm denunciado, nos últimos dias, o assédio de que foram vítimas.

Outra mulher conta que foi apalpada por um rapaz de cerca de 20 anos, no recinto da medina, quando tinha 15 anos, “nunca esquecerei, nem perdoarei”, refere, no Twitter.

Mona Eltahawy, que há uns anos partilhou a sua própria experiência na peregrinação, começou a anotar os comentários injuriosos que já foram ditos às mulheres que denunciaram abusos. Chamou-lhe “Coisa que vais ouvir quando disseres que foste vítima de assédio”: “és demasiado feia para ser assediada”; “estás a ser paga para dizeres isso”; “queres é ser famosa”; “apenas pretendes atenção”; “queres destruir o Islão”, “queres que os muçulmanos passem por homens maus”; “és uma puta”; “o assédio sexual acontece em todo o lado, do que é que estavas à espera?”

As histórias são várias e pedem que a hashtag #MosqueMeToo não páre. “Sempre que a minha mãe e a minha irmã fizeram a Hajj foram apalpadas – pessoas nojentas e sem moral”, conta um rapaz.

Há quem fale do clima de medo e insegurança. “Não fui vítima de assédio, mas lembro-me de sentir os olhos dos homens em cima de mim quando ia do hotel para a mesquita. Senti-me como se fosse uma presa”, contou Kaya, de 23 anos, ao jornal online Middle East Eye.