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Máfia ganha mais com exploração sexual de migrantes do que com a droga

Mundo

PIUS UTOMI EKPEI / GettyImages

O livro de uma jornalista radicada em Itália conta como toda uma rede de “gangsters”, com a Máfia à cabeça, ganha com a escravidão sexual de meninas nigerianas

“Road Map to Hell – Sex, Drugs and Arms on Mafia Coast” é o novo livro da jornalista americana, radicada em Roma (Itália), Barbie Latza Nadeau. Este mapa que leva ao inferno é percorrido por jovens nigerianas que se tornam escravas sexuais pela mão de gangues nigerianos e pela Máfia italiana. Todos ganham com a triste vida das raparigas que saem do seu país com a promessa de trabalharem num cabeleireiro, mas que ao chegarem a Itália nos botes que os migrantes utilizam para fugir da morte e da fome nos seus países, são apanhadas por uma rede de pessoas que inclui diretores e administradores de abrigos para refugiados, “madames” cujo modo de vida é acabarem com a vida delas, obrigando-as a prostituírem-se, grupos organizados de nigerianos que se atropelam para as “comercializar”, pequenos mafiosos, mas, também, altos membros da Camorra napolitana e siciliana.

Barbie Latza Nadeau conta a arrepiante história de Joy (nome fictício), uma adolescente nigeriana que deixou a sua família aos 15 anos – ela suspeita quer os pais a venderam “porque não tinham escolha”, ela era a mais velha de seis irmãos, muitas bocas para alimentar – para ir trabalhar para uma senhora que tinha um salão de beleza. Aos 16 anos, Joy teve de se submeter ao “rito iniciático” que a mamam (como chamavam à patroa) impôs: se ele desobedecesse à mamam, a família dela morreria. O inferno estava prestes a tornar-se real.

Semanas depois foi enviada, num bote, para Itália, com a promessa de que iria trabalhar num cabeleireiro. Planos furados, vida desfeita. Joy acabou num campo de migrantes chamado Cara di Mineo, um dos maiores da Europa, situado a 70 km da Sicília. O sítio para onde milhares de migrantes vão quando chegam a Itália e onde começa o processo de pedido de asilo. Mas é também onde se inicia a descida ao grau zero da Humanidade. Salubridade é coisa que não existe, há ratos e lixo por todo o lado, as casas (antes habitadas por militares americanos) estão esburacadas, onde deviam estar cinco pessoas, dormem 15, há quem faça do chão o lugar de repouso e quem monte tendas. A fome é uma constante. Os administradores dos centros, que recebem dinheiro do Estado por cada migrante, desviam-no para si próprios, num lugar onde a lei não passa de uma palavra do dicionário.

A jornalista e escritora conta a história de Joy à medida que nos vai narrando, também, toda a rede que ganha dinheiro com as raparigas. Assim, quando são obrigadas a ser escravas sexuais já devem €60 mil. Uma parte vai para quem as recruto, na Nigéria, outra para os traficantes que as metem nos barcos, e uma grande parte vai para os gangues nigerianos que, por sua vez, têm de pagar à Máfia para poderem “operar” em Itália. Segundo as contas da escritora, se metade as 11 mil nigerianas que entraram em Itália em 2016 geraram €60 mil cada um, então estamos a falar de €300 milhões.

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A polícia não tem tido mãos a medir nos últimos anos. Já foram presas e condenadas várias pessoas, tanto administradores ou diretores dos centros de asilo, como membro da Mafia. Um deles foi apanhado numa escuta telefónica, enquanto falava com uma comparas: “Fazes uma ideia do que eu ganho com os migrantes? São mais rentáveis do que a droga!”. Ambos foram sentenciados a vários anos de cadeia, em 2017, mas o processo está em recurso no tribunal.