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Trump, o Presidente que encolheu a América

Mundo

Reuters

Imprevisível, incompetente, mentiroso e outras coisas bem piores. Já chamaram quase tudo a Donald Trump, mas o homem que lidera os EUA há 12 meses (fez este sábado um ano que tomou posse) continua a fazer e a dizer o que lhe apetece, mesmo que divida os americanos e ponha em causa o papel do seu país no mundo

Os americanos têm um estranho fascínio por estatísticas. Donald Trump não é exceção ou não tivesse ele uma licenciatura em economia. Só que o 45º Presidente dos Estados Unidos tem um sério problema, os seus números quase nunca batem certo com a realidade. 
Os seus compatriotas, mesmo aqueles que o meteram na Casa Branca através do voto, confirmam o problema sempre que são chamados a dar sua opinião: em outubro, num estudo conjunto do Politico/Morning Consult, 51% dos inquiridos disseram que Trump era um homem desonesto e, no mês passado, numa outra sondagem da Universidade de Quinnipiac, o valor era ainda mais elevado – 58%.

Os grandes meios de comunicação social, para lidar com o assunto, montaram gabinetes especiais de escrutínio às palavras e aos números do chefe de Estado. O resultado deste fact-checking não oferece dúvidas. 
O Washington Post chegou à conclusão que Donald Trump chega a dizer nove mentiras por dia e o New York Times, num artigo publicado a 14 de dezembro, apresenta um esclarecedor gráfico em que compara as falsas declarações do atual Presidente com as do seu antecessor: Barack Obama faltou à verdade em 18 ocasiões, nos seus oito anos de presidência; Trump já o fez por 103 vezes, só nos primeiros 10 meses.

Uma contabilidade que confirma as suspeitas de inúmeros repórteres, analistas e até médicos. O líder da América é um mentiroso patológico. O diagnóstico parece ser partilhado por vários elementos da Administração, pródigos em fugas de informação. A propósito, Rex Tillerson, o chefe da diplomacia americana, chamou a Trump “fucking moron” – algo que poderíamos traduzir de forma livre e eufemística como “idiota de merda”. Por tudo isto, não é de estranhar que “a América de Donald Trump se tenha tornado motivo de chacota para todo o mundo”, como escreveu o antigo primeiro-ministro da Austrália, Kevin Ruud. No entanto, se tivermos em conta as 19 mulheres que acusaram o Presidente de assédio sexual, talvez não haja aqui piada alguma.

O fim da invencibilidade

Na dia 18 de dezembro, com a pose e a pompa habituais, o Presidente dos EUA deu finalmente a conhecer a sua estratégia de segurança nacional, um documento em que é suposto ficarem descritas as grandes prioridades em matéria de defesa e de política externa. Em primeiro lugar, zurziu os seus antecessores e enalteceu os seus feitos, dando como garantido que foi ele o único responsável pelo aumento dos orçamentos bélicos dos membros da NATO. De seguida, prometeu aumentar drasticamente as despesas militares e identificou a Rússia e a China como “potências rivais que desafiam a influência dos EUA, os seus valores e a sua riqueza”. Como de costume e em apenas meia hora, converteu a ocasião num comício em que se ficou também a saber que os EUA deixam de considerar as mudanças climáticas como uma ameaça – algo que Barack Obama e o Pentágono tinham definido em 2015 – mas que estão preparados para os “perigos cibernéticos e os ataques eletromagnéticos”, sem nunca fazer qualquer referência às interferências russas na campanha eleitoral do ano passado. A mensagem principal, como seria de esperar, é a de sempre – América Primeiro (Make America Great Again). Mas Trump fez questão de juntar-lhe uma outra: “America is in the game, and America is going to win”. Será que a América, cujo potencial ninguém duvida, ainda é a líder do mundo livre? 
A resposta é cada vez menos óbvia e há manifestas dúvidas sobre a sua alegada hegemonia e invencibilidade.
A 10 de dezembro, um dos mais prestigiados centros de estudos dos EUA, a Rand Corporation, publicou um relatório de 190 páginas ao qual foi dado pouca importância e onde se fazem afirmações surpreendentes: os EUA “podem perder a próxima guerra” com a Rússia e a China; não têm “respostas satisfatórias para enfrentar os desafios” colocados pelos mísseis e armas nucleares da Coreia do Norte; dispõem de “forças armadas maiores do que o necessário”, “mal treinadas e pouco prontas” a entrar em combate; o Pentágono tem de investir mais na “deteção de forças móveis” e não tem capacidade para enfrentar, por exemplo, eventuais ataques da China a Taiwan ou da Rússia aos países bálticos. O documento que ainda por cima recebeu fundos públicos para ser elaborado é demolidor para a credibilidade do país que montou o maior dispositivo militar da história – com bases e soldados por todo planeta (ver infografia), mas cujas debilidades começam a ser notórias.

É verdade que os EUA ainda investem e gastam muito mais do que os seus adversários diretos, só que os compromissos globais e a forma como estes estão a ser planeados e financiados põem em causa a pax americana. Na revista Foreign Policy, o historiador e analista Max Boot considera que, com Donald Trump, as coisas podem ir de mal a pior: “Na campanha ele prometeu aumentar os gastos com a defesa e fazer crescer as forças do exército de 450 mil para 540 mil efetivos; no caso dos Marines, de 24 para 36 batalhões de infantaria; na marinha, de 278 para 350 navios; na força aérea, de 915 para 1200 caças (...) O Presidente que tem sempre tempo para opinar sobre a Liga Nacional de Futebol, os ‘fake media’, Jimmy Kimmel, Hillary Clinton, Kim Jong-un e outros alvos, não tem nada a dizer sobre estas questões porque isso não é para ele uma prioridade.” E, no mesmo artigo, recorda que um outro think-tank, a Heritage Foundation, também já identificara as vulnerabilidades das forças armadas americanas.Não se julgue que este tipo de alertas tem apenas origem em personalidades independentes e do mundo académico. No último fim de semana, a comunicação social britânica revelou, por exemplo, que o chefe de estado das forças armadas do Reino Unido, o marechal Stuart Peach – que é também presidente do Comité Militar da NATO – confirmou que a Rússia “pode cortar” os cabos de internet existentes nas profundezas do Atlântico e de outros mares. O que, a confirmar-se, teria efeitos catastróficos e globais. 
É por estes cabos que se realizam 
97 por cento das comunicações do planeta e 10 biliões de dólares em transações financeiras diariamente. Algo que pode parecer ficção científica mas que, segundo Stuart Peach, estará ao alcance da marinha russa – como ficou demonstrado em 2014, quando a frota de Moscovo provocou um apagão na Crimeia e a privou de aceder livremente aos servidores globais. 
O caso complica-se devido às crescentes capacidades do Kremlin em matéria de ciberguerra e também dos seus novos submarinos a diesel com tecnologias que os tornam quase indetetáveis.

Jonathan Ernst/ Reuters

Cortes à ONU de Guterres

Ao retirar em junho os Estados Unidos do acordo de Paris sobre as alterações climáticas e ao exigir ainda a renegociação de vários outros tratados multilaterais – NAFTA (com o Canadá e o México), TPP (com onze países do Pacífico), o fim do programa nuclear iraniano ou o bloqueio a Cuba – Donald Trump criou uma situação embaraçante para a diplomacia americana. Pior. Os EUA passaram a inspirar todo o tipo de receios aos seus aliados e deixaram de ser levados a sério pelos adversários.

A situação da Coreia do Norte é paradigmática, com o regime de Pyongyang a acelerar o desenvolvimento do seu arsenal bélico, agora capaz de atingir Nova Iorque ou Chicago sem que a Casa Branca revele uma estratégia coerente e eficaz. Basta pensar nas humilhantes declarações de Rex Tillerson a sugerir, no início do mês, que os responsáveis dos dois países deveriam dialogar sem pré-condições, após Donald Trump ter ido à Assembleia Geral da ONU afirmar que podia “destruir por completo” o país a norte do paralelo 38 e classificar o seu homólogo norte-coreano como “little rocket man”.

Aliás, as Nações Unidas tornaram-se um alvo predileto da Administração Trump: em junho, foi anunciado um corte de 600 milhões de dólares nas missões de manutenção de paz que envolvam capacetes azuis; há dois meses foi a vez dos EUA se retirarem da UNESCO por causa de Israel – processo que culminou no recente anúncio do reconhecimento de Jerusalém como capital do estado hebraico; e, na última semana, foi revelado pela AFP e pelo Le Monde que Washington pretende reduzir em 250 mil milhões de dólares o orçamento da organização liderada por António Guterres, já no biénio 2018-19. Um corte que, a efetuar-se, pode conduzir à paralisia de vários organismos e agências, pondo em causa o apoio a milhões de pessoas em lugares críticos como a República Democrática do Congo, a Síria ou o Iémen.

Vladimir Putin afirmou há quase duas décadas que o fim da União Soviética foi o maior cataclismo do século XX. Agora, tem motivos para dizer que, graças a Donald Trump, lhe saiu a sorte grande. Independentemente das teorias mais ou menos conspirativas sobre o papel que o Kremlin teve nas eleições americanas de 2016, a Rússia tem demonstrado saber aproveitar todos os vazios de poder criados pelos EUA.

Pax putiniana no Médio Oriente

A Síria é um dos melhores exemplos. Em outubro de 2015, Moscovo envolveu-se na guerra civil para manter no poder o Presidente Bashar al-Assad e a 13 de dezembro Putin foi a Damasco puxar dos galões. O Daesh foi praticamente erradicado do território sírio, a oposição curda está refém da Turquia e dos humores de Trump, enquanto a Rússia volta a ser uma peça indispensável no complexo xadrez do Médio Oriente. Não é por acaso que o Kremlin tem multiplicado os laços comerciais, políticos e militares na região, incluindo com governos aliados dos EUA. 
O objetivo é muito simples: recuperar zonas de influência e fazer prova de que a Rússia se converteu novamente num grande ator geopolítico. É por isso que Vladimir recebeu em outubro o rei da Arábia Saudita e lhe recordou que a URSS foi o primeiro país, em 1926, a reconhecer o reino árabe. Ou que se tenha encontrado na última semana como seu homólogo egípcio, no Cairo, para ambos assinarem um contrato de 30 mil milhões de dólares para construção de uma central nuclear e a instalação de uma base aérea russa no país que foi um parceiro estratégico dos soviéticos entre 1953 e 1973. Ou que tenha convencido o Presidente Erdogan da Turquia a comprar material bélico russo, apesar do regime de Ancara ser membro da NATO, e a elaborarem uma estratégia conjunta para a reconstrução da Síria – algo que fizeram em Sochi, com o contributo de Hassan Rouhani, o chefe de Estado iraniano. Pelo meio, Putin tem manobrado para consolidar os seus interesses na Líbia – entenda-se a instalação de uma base aeronaval – e manifestou ainda disponibilidade para servir de mediador entre palestinianos e israelitas. Será isto motivo para acreditarmos nas previsões de Peter Pomerantsev, o escritor e consultor russo instalado em Londres? “Um dia, o mundo inteiro será como a Rússia, uma ditadura subtil, um teatro gigante”. Um cenário em que Donald Trump poderia encaixar na perfeição, mas ao qual temos de juntar dois outros atores de peso: a Europa e a China.

Ronaldo no Império do Meio

Na última edição da revista Economist diz-se que o Governo de Pequim já consegue manipular as democracias ocidentais e nem precisa de recorrer à força nem a meios militares. E apresentam-se os exemplos da Austrália, onde um deputado se demitiu após ter admitido subornos, e da Alemanha, cujos serviços secretos alemães acusaram este mês os seus pares chineses de usarem as redes sociais para recrutarem informadores germânicos. O antigo Império do Meio já percebeu que pode levar a sua influência aos cinco cantos do globo. A melhor demonstração desse poder chama-se “Uma Faixa, uma Rota” – uma versão contemporânea da antiga rota da seda – um gigantesco plano de infraestruturas que pretende incluir 65 países e mais de quatro mil milhões de pessoas, mais de metade da população mundial. Claro que, em simultâneo, investe na modernização do seu arsenal bélico e se dá ao luxo de construir ilhas artificiais no Mar da China Meridional, ao arrepio das leis internacionais e sem que os EUA lhe façam frente. No Velho Continente, investe no elo mais fraco da União Europeia, os países mais a oriente, sedentos de investimentos e onde o euroceticismo impera. O Presidente Xi Jinping visitou este ano a República Checa, a Polónia e a Sérvia. E, no final do mês passado, o primeiro-ministro Li Keqqiang esteve em Budapeste para fechar negócios com a Hungria e com o resto do grupo cunhado 16+1, no valor de 10 mil milhões de euros. “Se não tivermos êxito numa estratégia comum, a China vai ter êxito na divisão da Europa”, afirmou então o chefe da diplomacia alemã, Sigmar Gabriel. Ou seja, as antigas fronteiras da cortina de ferro continuam a ser uma falha tectónica e um documento secreto do ministério da Defesa da Alemanha, revelado pela Der Spiegel, considera que, em 2040, a UE pode ter os dias contados. Se calhar nem vale a pena esperar tanto. Donald Trump nem imagina e até parece mentira, mas Cristiano Ronaldo e Lionel Messi já fazem publicidade à Huawei e o misterioso grupo HNA é um dos maiores acionistas do Deutsche Bank e da TAP.

(Artigo publicado na VISÃO 1294 de 21 dedezembro)