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Jerusalém, capital de Israel: um ato simbólico de Trump ou uma declaração de guerra ao mundo árabe?

Mundo

AHMAD GHARABLI/ Getty Images

O presidente norte-americano quer mudar a embaixada dos EUA de Telavive para Jerusalém, reconhecendo assim a cidade santa para as principais religiões monoteístas como capital do Estado hebraico. Teme-se uma escalada sem precedentes no conflito do Médio Oriente

Donald Trump telefonou esta manhã ao Presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, anunciando-lhe que irá ordenar a transferência da embaixada dos EUA em Israel para Jerusalém. Com esse passo, a administração Trump legitima a cidade santa como capital do Estado hebraico, negando aos palestinianos a possibilidade de recuperar a parte oriental de Jerusalém, anexada após a Guerra dos Seis Dias, em 1967.

Nos últimos vinte e dois anos, a questão escaldante da sede da embaixada dos EUA foi sendo tratada (ou adiada...) como um mero pro forma. De seis em seis meses, o presidente norte-americano em funções assinava uma renúncia à lei aprovada em 1995, prevendo a mudança da embaixada de Telavive para Jerusalém, e a justificação de republicanos e democratas pouco variava: essa alteração não serviria os melhores interesses da segurança nacional nem o processo de paz na região.

Todas as embaixadas internacionais em Israel têm sede em Telavive, mantendo em Jerusalém apenas apoios consulares. A cidade santa para cristãos, judeus e muçulmanos é um território disputado desde tempos imemoriais e um ponto central nos "road maps" para o estabelecimento de um Estado Palestiniano independente, nas sucessivamente falhadas negociações internacionais. Mas Donald Trump prometeu durante a campanha eleitoral que iria clarificar a posição norte-americana "de uma vez por todas" e, nos últimos dias, fez tremer os seus conselheiros mais experientes quando se mostrou inflexível para assinar uma nova renúncia à lei.

O porta-voz da Liga Árabe considera que esta decisão ameaça "não apenas a estabilidade do Médio Oriente, mas do mundo inteiro" e já convocou uma reunião de emergência. Perante os rumores de que este anúncio iria ser realizado esta semana, o presidente Erdogan já havia declarado que, para a Turquia, esse passo de Trump iria "muito para lá da linha vermelha" e que, a concretizar-se, será inadmissível para o mundo árabe. Num tom menos inflamado (mas igualmente preocupado), o presidente francês Emmanuel Macron juntou ontem a sua voz de protesto aos chefes de Estado do Egipto e da Jordânia. A União Europeia manifestou-se oficialmente desconfortável com o tema, avisando que tal não acontecerá sem que existam "sérias repercussões".

O assunto será clarificado nos próximos dias: Donald Trump irá mesmo avançar com esta mudança, sem olhar a consequências? Jared Kushner, enviado especial para a Paz no Médio Oriente (e genro de Trump) disse no domingo passado ao Washington Post algo que o porta-voz da Casa Branca passou ontem a assumir como discurso oficial: "Preparem-se porque o presidente tem sido claro deste o início. Já não se coloca a questão de 'se', é apenas uma questão de 'quando' é que Trump tomará essa decisão." Por ele, ontem já era tarde. Foi hoje.