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Houve uma nuvem de radiações sobre a Europa e ninguém assume a culpa

Mundo

Uma nuvem de radiação andou a pairar sobre a Europa, de finais de setembro a meados de outubro. O Instituto de Radioprotecção e Segurança Nuclear francês aponta para um possível acidente nuclear na Rússia ou no Cazaquistão

Um acidente nuclear não reportado pode estar na origem da nuvem de radiações que começou a sobrevoar a Europa na última semana de setembro, relata o Instituto de Radioprotecção e Segurança Nuclear francês (IRSN).

De 26 de setembro a 19 de outubro, várias estações europeias dedicadas à monitorização atmosférica mediram níveis de ruténio -106 (Ru-106) – uma substância nuclear não-natural que resulta da divisão de átomos em reatores nucleares – superiores ao normal.

Contudo, o IRSN descartou a possibilidade de se tratar de um acidente num reator nuclear, pois se assim fosse, outras substancias para além do Ru-106 seriam encontradas na atmosfera, o que não aconteceu.

O instituto afirma que o mais provável foi ter sido numa fábrica de tratamento de combustível nuclearou num centro de medicina radioativa.

O IRSN estima que tenham sido lançados para a atmosfera, a partir do local estimado, 100 a 300 teraBecquerels de ruténio-106, uma dose muito superior à presente naturalmente na atmosfera.

Acrescenta ainda que, caso um acidente desta magnitude se tivesse dado em França, as pessoas num raio de vários quilómetros da fonte do acidente teriam de ser evacuadas e abrigadas da radiação.

Não houve, no entanto, nenhum impacto para a saúde humana ou para o ambiente na Europa, reporta o instituto.

Não foi possível localizar exatamente a origem da fuga de material radioativo, mas o IRSN baseou-se nos padrões climáticos e nas observações das várias estações europeias para chegar a uma estimativa: o acidente ter-se-á dado entre os montes Urais e o rio Volga.

Tal significa que a Rússia ou o Cazaquistão podem estar por detrás do sucedido, propõe o IRSN.

Mapa da origem plausível da descarga

Mapa da origem plausível da descarga

Institut de Radioprotection et de Sûreté Nucléaire (IRSN)

"As autoridades russas disseram não estar conscientes de um acidente no seu território", disse o diretordo IRSN, Jean-Marc Peres, à Reuters. O instituto não conseguiu contactar ainda as autoridades cazaques.

Mas os factos podem não ser assim tão lineares:

A Rússia reportou este mês níveis "extremamente elevados" de Ru-106 na atmosfera em várias partes do país, nomeadamente na vila de Argayash, a sul dos montes Urais.

Os valores – cerca de 990 vezes superiores ao normal – foram divulgados pelo Serviço Federal de Hidrometeorologia e Monitoramento Ambiental (Rosgidromet), referentes a amostras atmosféricas recolhidas entre 25 de setembro e 1 de outubro.

No entanto, a Companhia Estatal de Energia Nuclear russa (Rosatom) tinha já feito, a meados de outubro, declarações em que afirmava que "em amostras testadas de 25 de setembro a 7 de outubro, incluindo a sul dos montes Urais, nenhum vestígio de Ru-106 foi encontrado; exceto em São Petersburgo", reporta o The Guardian.

Esta contradição está a ser posta em causa pela sucursal russa da Greenpeace. A organização afirma que "vai enviar uma carta aos representantes legais para que abram uma investigação sobre um potencial encobrimento de incidente nuclear" por parte da Rússia, declara a ONG.

O Ru-106 já não se encontra a circular na atmosfera europeia, tendo os níveis da substância começado a diminuir desde dia 6 de Outubro, relata o IRSN.