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Mais de 50 mil crianças podem morrer de fome e doenças no Iémen até ao fim do ano

Mundo

ABDULJABBAR ZEYAD / Reuters

A ONU considera que o país, destroçado por uma guerra civil em que a Arábia Saudita e o Irão se confrontam numa luta pela hegemonia regional, vive a pior situação humanitária do mundo, ainda mais grave, por exemplo, do que a da Síria

É um imenso desastre humanitário em curso, mas esquecido, apesar dos alertas desesperados da ONU. A Organização Mundial da Saúde, por exemplo, avisa que, no Iémen, 11 milhões de crianças precisam de assistência humanitária urgente. Um recente grito chegou da ONG Save the Children: mais de 50 mil crianças encontram-se em risco iminente de morrerem de fome e doenças até ao fim do ano, naquele país da Península Arábica. A Save the Children estima que 130 crianças iemenitas morrem diariamente, por desnutrição. Como se não bastasse, o Iémen foi atingido pelo maior surto de cólera que alguma vez eclodiu no planeta. A última atualização de pessoas infetadas, feita pela ONU a 5 de novembro, registava 908 mil casos e 2 192 mortes.

No cerne do desastre está um conflito armado que opõe os rebeldes xiitas houthi, apoiados pelo Irão, a uma coligação militar liderada pela Arábia Saudita, e da qual fazem parte os Emirados Árabes Unidos, o Egito e o Sudão. Mas pedaços do território iemenita são também controlados por grupos ligados à Al-Qaeda e ao autoproclamado Estado Islâmico. A guerra é total e absolutamente destruidora e cruel. Hoje, pode dizer-se, aquele que já era o país mais pobre do Médio Oriente, desprovido de quaisquer riquezas naturais (mesmo em tempo de paz, Sanaa tinha o triste estatuto de capital com menos água potável e pior saneamento básico, a nível mundial), deixou de existir.

Em março de 2015, a Arábia Saudita invadiu o Iémen, por terra, ar e mar, num cenário de luta de poder, contra o inimigo Irão, pela hegemonia regional. Pelo lado de Teerão, combatem os xiitas houthi, originários do Norte iemenita.

Para a população, as condições de vida, já deploráveis, pioraram substancialmente a 6 de novembro, quando a Arábia Saudita impôs um bloqueio fronteiriço total às entradas no Iémen. O pretexto foi um míssil disparado pelas milícias houthi, destruído no ar, mas que supostamente tinha como alvo o aeroporto internacional da capital saudita, Riade. Mohammed bin Salman, o príncipe agora herdeiro da coroa saudita, acusou o Irão de ter feito uma "declaração de guerra", por alegadamente fornecer mísseis balísticos aos houthi.

Embora ténue, a esperança de salvar algumas vidas, sobretudo de crianças, reside agora nas negociações que a ONU tenta encetar com os diversos beligerantes, de maneira a que assistência alimentar e médica possa entrar no país através de "portos não estratégicos" espalhados pela extensa costa do Iémen.