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O homem que fez do Príncipe Real um bairro cool

Mundo

José Caria

É conhecido por “o americano que comprou vários palacetes em Lisboa”. Mas nem sequer é americano – é austríaco, e casado há muitos anos com uma alentejana, que foi quem lhe despertou a paixão pela capital portuguesa. Ao ponto de investir €100 milhões a mudar a cara de um dos bairros históricos da cidade. Quem é, afinal, Anthony Lanier e quais são os seus próximos planos?

Rosa Ruela

Rosa Ruela

Jornalista

Numa tarde de calor, a imperial tirada por Amândio Oliveira vale cada cêntimo do euro e vinte que entra na caixa, sabe de cor quem gosta de parar no seu quiosque do Príncipe Real. Mesmo Anthony Lanier, que raramente arranja tempo para esplanadas quando está em Lisboa, há de encaminhar-nos direitos ao lado sul da praça porque aprendeu há anos que a cerveja ali é sempre fresca.

O efeito da água com gás bebida no Gin Lovers & LESS, o restaurante-bar que ocupa o pátio interior de estilo mourisco do Palácio Ribeiro da Cunha, onde começara a entrevista, esgotara-se depois de meia hora a flanar entre o antigo jardim e as cavalariças em ruínas, nas traseiras. O austríaco-que-passa-por-americano precisava de uma pausa técnica ao balcão do Quiosque do Oliveira.

Uns minutos antes, o promotor imobiliário comparara o seu negócio à maneira como ataca um salami: “Tal como só corto uma fatia quando tenho fome, só avanço com a reabilitação de um edifício de cada vez. Isto é passo a passo, vai levar o resto da minha vida. É um processo que não acaba nunca, e quanto mais tempo demorar, mais perfeito será. Claro que se pode fazer um shopping em dois anos e a cidade muda, mas ele ficará obsoleto em cinco anos.”

A caminho do cedro-do-Buçaco centenário e do caramanchão de ferro que o sustenta, um dos cantos preferidos de Lanier no Jardim do Príncipe Real, até custa pensar que a palavra “shopping” saiu da sua boca. Deve ser uma técnica de choque porque ela continuará a ressoar, contrastante, enquanto damos voltas, esquecidos, à praça.

Numa das voltas murmura “Isto tem de ficar”, apontando discretamente com o queixo um banco onde conversam dois velhotes. “Queremos criar um bairro agradável para todos. Cada edifício terá uma estrutura diferente, não vai ser só reabilitação de grande luxo. Será uma mistura saudável. Em Portugal, as pessoas têm sempre medo do custo, mas eu acredito que as coisas devem ter um valor próprio. O luxo pode ter valor e nada deve ser barato. Aliás, a palavra 'barato' devia desaparecer. A palavra 'valor' é que é. 
E Portugal deve vender o que tem muito bem porque tem pouco, só pode vender uma vez.”

Anthony Lanier diz tudo isto seguido e é a introdução natural para mais uma paragem, desta vez junto ao Palácio Faria, mandado construir por Maria Rosa de Faria no final do século XIX e que ele comprou à Liga dos Amigos dos Hospitais. O edifício foi desmontado, “remontado com o século XXI atrás das paredes”, explicará, e reconvertido pelo arquiteto Eduardo Souto Moura em cinco apartamentos de luxo, quatro deles com quase 400 metros quadrados e um com 220 (mais uma moradia no jardim).

O último andar leva de brinde uma “gaiola” com janelas a toda a volta e já tem dono: o próprio Lanier. Aos 65 anos, não se imagina parado num só lugar, mas prevê que no futuro próximo a sua mulher, portuguesa, vá querer passar cada vez mais tempo em Lisboa. “Antecipei-me”, dissera com um sorriso malandro na Embaixada, a galeria comercial em que transformou o Palácio Ribeiro da Cunha há quatro anos. “Aliás, foi por causa da Isabel que tudo isto começou...”

José Caria

Tudo começou no Algarve

Já lá vamos ao flashback para perceber por que razão apostou no Príncipe Real. Agora estamos defronte do Palácio Faria – a obra não acaba antes do final do ano – e junto a um grande buraco no alcatrão, onde será enterrado um grande ecoponto. O austríaco acabara de contar que tinha sido mantida a altura das paredes, mais as portas e as janelas (“Aqui não dava para fazer chop, chop”), uma reconversão a sério depois de dez anos a remodelar só “com carpete e tinta” para “encher depressa os edifícios e dar vida ao bairro”. Um ecoponto mesmo à frente do seu condomínio de luxo era coisa que não esperava.

“Se calhar temos de encontrar um sítio menos óbvio, onde o acesso é um bocadinho mais difícil… Devemos pensar no peão e na beleza do local. É sempre uma luta para avançar, mas é uma aventura positiva porque o sucesso do Príncipe Real é óbvio.”

Escreva-se que Lanier e a sua equipa da EastBanc Portugal fazem uma curadoria do mercado no bairro. Com cerca de vinte edifícios em carteira (num investimento que rondou os 50 milhões de euros), podem dar-se ao luxo de recusar arrendar espaços para restaurantes de fast food ou desejar ver ali uma loja da caríssima marca de desporto Lulu Lemon. E aplaudir a chegada de Jamie Oliver, que vai abrir em breve um restaurante no número 28 da Praça do Príncipe Real.
“Não é aquele que paga mais, é o que resulta. Queremos bons inquilinos, bons vizinhos. Tornar o Príncipe Real no bairro mais cool de Lisboa”, diz o austríaco. “Querem um exemplo?”, perguntaria mais tarde Sofia Veiga França, diretora de marketing da empresa, que em vésperas da última Noite Branca (quando as lojas ficam abertas até mais tarde) andou a distribuir informação por todos os comerciantes, mesmo os que não são inquilinos da EastBanc. “O Quiosque do Oliveira é uma âncora, é essencial aqui.”

A entrevista estivera para ser marcada em Georgetown. Seria um bom cenário para o ouvirmos falar sobre aquilo que há quinze anos imaginou fazer no Príncipe Real. Um bom cenário e um bom cartão de visita, acrescente-se, porque esse bairro de Washington D.C. é hoje um excelente exemplo de reabilitação histórica, levada a cabo por Lanier. Mas calhou ele estar por estes dias de férias em Lisboa, não íamos perder a oportunidade de o apanhar no terreno. Queríamos saber como tudo começara.

“Por uma mulher” é quase sempre a sua resposta. Mas precisamos de recuar dois anos antes de Anthony Musgrave Lanier conhecer, em Armação de Pêra, Isabel Maria Pereira dos Santos, alentejana de Aljustrel. Esse verão de 1970 não era a primeira vez que a família Lanier passava férias no Algarve. E o País ia tendo cada vez menos segredos para o jovem Anthony, que nascera no Brasil mas mal arranhava português. “Mais tarde aprendi a conhecer Portugal pelos olhos de um outro austríaco, o meu amigo Stefan von Breisky. Começámos a beber copos no Norte e chegámos ao Sul. Comemos e bebemos o País inteiro.”

Os dois austríacos haviam de se reencontrar novamente em Portugal. Ambos tinham-se licenciado em Economia (Lanier também em Ciência Política), mas enquanto Stefan herdara os negócios do pai em terras lusas, Anthony trabalhava em Viena, no imobiliário. O seu pai, Berwick Bruce Lanier, nascera numa família de banqueiros americanos e fornecia equipamento especial para fábricas de aço; a mãe, Sonja Marie Ethoffen, era austríaca e achava que a Áustria estava acima de tudo o resto.

Anthony casou-se com Isabel aos 22 anos e viveu na Europa até ao início da década de 80. Já tinha dois filhos, Nadine Isa Maria, hoje com 43 anos, e Philippe Miguel, de 39, quando se mudou para os Estados Unidos. Começou por trabalhar também ali no ramo do imobiliário, aborreceu-se, tentou a área das novas tecnologias e, em 1987, regressou à compra e venda de casas. Com um twist: iria experimentar a reabilitação e gestão de edifícios “para ser mais interessante”.

Fundou então a EastBanc e desatou a disparar um pouco para todos os lados, até que, no final da década de 90, a mulher o desafiou a apostar perto de casa. Sempre passaria mais tempo junto da família, entretanto aumentada com Camille, agora quase a fazer 24 anos.
Em pouco tempo, Lanier era dono de vários edifícios em Georgetown, dando início a uma nova forma de gerir imobiliário. Seria ele a decidir quais os prédios que mereciam ser transformados em condomínios e a escolher as lojas e os restaurantes que o transformariam no bairro mais cool da cidade. A empreitada correu-lhe tão bem que foi alcunhado de “o rei de Georgetown”.
Nessa altura, Portugal era aquele sítio onde a família ia à praia e ele fazia “por hóbi” uns investimentos. Até ao dia em que, pouco depois de ter comprado um promotor imobiliário, encontrou num avião o seu amigo Pedro Seabra e foi o início do Príncipe Real tal como o conhecemos hoje.

José Caria

Comprar logo vinte

Pedro Seabra tinha em carteira o antigo Palácio Castilho, onde existia a loja de design Emporio Casa. “Vi a fotografia do edifício e disse 'É sensacional, vamos ver já'. O José Luís Barbosa queria vender, eu tinha feito um centro de design em Washington, conhecia o tipo de negócio. Quis comprar como um par de sapatos, mas claro que nada acontece rápido.”

O número 42 da Rua da Escola Politécnica, que começou por ser a galeria comercial Entre Tanto e hoje alberga a Vintage Department e a Pau-Brasil, seria a primeira das muitas aquisições na zona. “A minha mulher estava sempre a dizer-me para comprar uma casa em Portugal, mas eu sabia que se o fizesse ela fugiria e vinha morar para aqui. Por isso comprei vinte.”

A explicação tem graça, mas a verdade é que o austríaco já decidira fazer no bairro alguma coisa parecida com o que fizera em Georgetown quando avançou para a aquisição do Palácio Castilho. “Queria – e ainda quero – ter tudo. O nosso objetivo é cada dia sermos donos de mais património, porque o todo vale mais do que a soma das partes. Se queremos fazer reabilitação, temos de ser donos de uma quantidade grande de edifícios. Aprendi isso nos Estados Unidos.”
Para destrunfar, precisava de assegurar a propriedade dos dois jardins que confinavam com o seu – já sabia que os três juntos perfazem um hectare. A compra do Palacete Anjos, que pertencia ao Banco de Portugal, aconteceu um ano depois, num concurso público por carta fechada. A do Palácio Ribeiro da Cunha seria mais morosa e complicada, mas quando Lanier ficou seu dono e senhor “começou a corrida”, diz.

Estávamos em 2008 e pelo caminho já adquirira um quarteirão inteiro da Rua D. Pedro V
e um dos edifícios na Avenida da Liberdade que fazem esquina com a Praça da Alegria. Havia ainda de comprar um prédio na Rua da Alegria, “para controlar a circunferência do Jardim Botânico até ao Parque Mayer”, e mais uns quantos edifícios no bairro.

O Príncipe Real tinha tudo para dar certo – e tem, continua a defender. “Além da quantidade de jardins incrível no centro da cidade, podemos ir a pé a todos os sítios importantes – Avenida da Liberdade, Amoreiras, Chiado – em dez minutos, e vemos o Tejo da maioria dos segundos ou terceiros últimos andares. Ah, e em cima disso encontrei tudo vazio. Toda a gente estava a falhar nesta zona. As pessoas queriam coisas novas, que funcionassem, com mais casas de banho e estacionamento, é natural. Mas tenho a convicção de que hão de voltar para aqui porque viver na cidade é mais eficaz, gere-se melhor o tempo, não se perdem horas entre a casa e o trabalho. Se eu aqui morasse, andaria de bicicleta como ando habitualmente em Washington.”

O Palácio Faria é o primeiro a ser reabilitado com vista à habitação. Até recentemente, a equipa da EastBanc Portugal colocou as fichas todas no comércio de rua porque a prioridade foi tornar o Príncipe Real atrativo. Mas o futuro passa por apostar também na habitação, vai avisando Anthony Lanier, e por várias razões. “Não queremos um bairro artificial nem internacional; se eu tiver sucesso vai ser um bairro português. E já sabemos da nossa experiência em Washington que é arriscado fazer apenas escritórios. O que as pessoas querem hoje não é o que querem amanhã. Hoje pode ser um open space e amanhã pequenos gabinetes. Quanto às casas, toda a gente quer morar numa casa melhor. Por isso a maioria dos edifícios vai ser de apartamentos, nem todos de luxo. O edifício da Rua da Alegria, por exemplo, vai ter também apartamentos com 40 metros quadrados porque quero ali movimento, gente mais jovem.”

'Não queremos destruir Lisboa'

Importante na reabilitação é “entender a alma do edifício”, defende o austríaco. “Qual era a razão deste sítio onde estamos sentados?”, pergunta, olhando em volta o pátio interior da Embaixada. “O Pedro Norton de Matos queria fazer aqui um hotel, mas eu nunca quis destruir este edifício. Um dia encontrei-me com o [arquiteto João Pedro] Falcão de Campos e pedi-lhe: 'Tens de entender melhor o que é este edifício. Ele disse: 'Acho que o melhor é como está'. E tem razão. Este uso é o uso ótimo.”

Embora a Entre Tanto tenha este ano dado lugar a duas lojas autónomas, Lanier e a sua equipa acreditam que os bazares continuam a fazer sentido no bairro. A tendência é para as lojas serem cada vez mais pequenas e próximas do conceito de pop-up stores. 
A flexibilidade dos contratos de arrendamento – habitualmente de 90 dias – faz sentido para ambas as partes, diz Lanier. “Hoje, com a internet, posso avisar num segundo: 'Estou aqui', e tanto faz a loja estar na rua, no rés do chão, ou num primeiro andar.”

Há dez anos, Anthony Lanier nem falava português. Agora que a EastBanc, de que é acionista maioritário, já investiu cerca de €50 milhões a comprar edifícios no Príncipe Real e se prepara para gastar outro tanto na sua reabilitação e reconversão, viaja para Lisboa todos os meses. “O dinheiro é irrelevante”, diz, com cara de quem não está a dizer uma boutade. “Nunca ninguém perguntou quantas mil horas se trabalhou nisto.”

Com os dois filhos mais velhos a trabalhar na empresa e a mais nova a tentar a sorte no ateliê de arquitetura suíço Herzog & de Meuron, imagina-se a passar cada vez mais tempo na capital portuguesa, que adora. “Não queremos destruir Lisboa, queremos celebrar a cidade. Os primeiros a perceberem o que ela tem para oferecer foram os estrangeiros, mas com o tempo vai acontecer uma revolução e os portugueses vão recuperar o seu espaço. É um processo, talvez nem sempre agradável, mas será sempre para melhor.”

José Caria

B.I. - Anthony Lanier

- Nasceu no Rio de Janeiro, em 1952, filho de pai americano 
e mãe austríaca

- O dramaturgo Tennessee Williams (pseudónimo de Thomas Lanier Williams) era seu parente

- Cresceu em Viena, onde se licenciou em Economia e Ciência Política

- Em 1968, durante umas férias no Algarve, conheceu a alentejana Isabel Pereira dos Santos, com quem se casou em 1974

- Mudou-se para Washington D.C. em 1982 e cinco anos depois fundou a empresa de desenvolvimento e gestão imobiliária EastBanc

- Por sugestão da mulher, começou a investir em Georgetown, transformando-o no bairro mais cool da cidade

- Na viragem do milénio, começou a investir também em Lisboa, cidade que considera “sensacional”

- Tem três filhos; os dois mais velhos trabalham na sua empresa e a mais nova, ex-jogadora da seleção portuguesa de squash, é arquiteta

Os passos 
da EastBanc 
em Lisboa

Em poucos anos, Anthony Lanier comprou cerca de vinte edifícios na zona do Príncipe Real. Investiu 50 milhões de euros e deverá gastar outro tanto na sua reabilitação

Maio 2005 
Compra do Palacete Castilho (antiga Entre Tanto, hoje Vintage Department 
e Pau-Brasil)

Maio 2006 
Compra do Palacete Anjos (pertencia ao Banco de Portugal, é a sede da agência de publicidade Uzina)

Agosto 2007 
Compra de um quarteirão da Rua 
D. Pedro V (números 69-99)

Janeiro 2008 
Compra do edifício na Avenida da Liberdade, 81 (esquina com a Praça da Alegria)

Fevereiro 2008 Compra do Palacete Ribeiro da Cunha (hoje a galeria comercial Embaixada; o projeto prevê a reconversão das cavalariças e outros pequenos edifícios dispersos nas traseiras)

Setembro 2013 
Inauguração da Embaixada

Março 2014 Inauguração da galeria comercial Entre Tanto

Setembro 2015 
Início da Reabilitação do Palácio Faria

Fevereiro-Abril 2017
 Reconversão da Entre Tanto em duas lojas autónoma

(Artigo publicado na VISÃO 1277, de 24 de agosto de 2017)