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Presidentes à porta da saída

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Na história dos Estados Unidos da América, só dois presidentes foram alvo de processos de destituição – Andrew Johnson, no século XIX, e Bill Clinton, no XX. Será agora a vez de Donald Trump?

Longe vão os tempos em que os presidentes dos EUA se recusavam a viajar para o estrangeiro. Por saberem que o país nasceu como uma república e por considerarem absurdas quaisquer visitas a palácios e famílias reais que pouco ou nada tinham a ver com os valores da democracia. Além de que as ausências de Washington eram quase sempre sinónimo de problemas e de vazios de poder à mercê de opositores. É por isso mesmo que só em 1906 se realizou a primeira deslocação oficial de um inquilino da Casa Branca, quando Teddy Roosevelt foi ao Panamá assistir in loco à construção do famoso canal que uniu os oceanos Atlântico e Pacífico. Antes dele, apenas Chester Arthur se aventurou até ao extremo norte do Estado de Nova Iorque, para uma pescaria no rio São Lourenço que, acidentalmente, lhe colocou os pés em território canadiano e só por meros instantes.

No início de junho 1974, Richard Nixon iniciou um périplo de quase três semanas por vários países do Médio Oriente e o seu objetivo era muito simples: afastar-se o mais possível das investigações de que era alvo por causa do escândalo Watergate (ver caixa). O seu itinerário incluiu Teerão (Irão), Cairo (Egito), Jeddah (Arábia Saudita), Damasco (Síria), Telavive (Israel) e Amã (Jordânia). No regresso a casa, o Air Force One parou ainda na Base das Lajes, nos Açores, para pernoitar de 18 para 19 e Nixon se reunir com o general António de Spínola, para que este o pusesse a par da revolução dos cravos, ocorrida seis semanas antes.

Do ponto de vista diplomático, a longa viagem de Nixon foi um sucesso e permitiu aos EUA lançar as bases para o primeiro acordo de paz na mais conturbada região do mundo, entre egípcios e israelitas. Só que, para o Presidente americano, serviu-lhe de muito pouco. Dois meses depois, era forçado a pedir a demissão para não se sujeitar a um processo de destituição (impeachment).

Nos últimos tempos, tem havido inúmeras comparações entre Nixon e Trump, entre o Watergate e o Russiagate (a suposta interferência russa nas eleições de novembro) e qual o desenlace do escândalo mais recente. O que parece consensual é que a investigação ao 45º Presidente ainda só agora começou e promete durar muitos e bons meses – na melhor das hipóteses.

Ronen Zvulun

Trump investigado por possível obstrução à justiça

Donald Trump parece estar a marcar pontos junto dos seus apoiantes por promover negócios – entenda-se venda de armas – com a Arábia Saudita que podem ascender a 338 mil milhões de euros e representar alguns milhares de empregos os EUA. Pode ir ao Muro das Lamentações e dizer que vai conseguir um acordo histórico entre israelitas e palestinianos; pode até tirar uma selfie com o Papa Francisco e ser a grande vedeta da cimeira do G7. No entanto, nenhuma destas proezas em matéria de política externa o livra do calvário político que enfrenta em Washington.

O homem por si nomeado Conselheiro de Segurança Nacional e que teve de renunciar ao cargo em fevereiro por atividades e relações perigosas com o Kremlin, o general Michael Flynn, está no centro de uma batalha judicial de desfecho imprevisível. John O. Brennan, antigo diretor da CIA, já veio admitir perante o Comité de Informações da Câmara dos Representantes que há provas de uma eventual conspiração a partir de Moscovo: “Estou a par de informações que demonstram a existência de contactos e interações entre funcionários russos e pessoas envolvidas na campanha de Trump (...) e estava preocupado com o assunto por serem conhecidos os esforços russos para subornar essas pessoas”. Declarações explosivas que marcaram o início de uma novela capaz de reservar inúmeras surpresas e cujo principal guionista deve ser Robert S. Muller, 72 anos, o magistrado que dirigiu o FBI entre 2001 e 2013 e que foi nomeado Procurador Especial para o Russiagate. Para já, segundo informações do Washington Post, abriu um inquérito a Donald Trump para apurar se o Presidente cometeu o crime de obstrução à Justiça, tentando travar a investigação sobre as ações de Micheal Flynn.

O currículo de Robert S. Muller é testemunho de independência e inclui, por exemplo, a investigação ao atentado de Lockerbie e as acusações contra Manuel Noriega, o ex-Presidente do Panamá, e John Gotti, o chefe da máfia nova-iorquina. Ou seja, está na hora de Donald Trump ser mais sensato com o que diz e escreve nas redes sociais, caso contrário habilita-se a ouvir a frase que o popularizou no seu programa de televisão: “Estás despedido!” Um cenário pouco verosímil nos tempos mais próximos mas que pode acontecer depois de 6 de novembro de 2018, data em que os americanos vão às urnas para renovar toda a Câmara dos Representantes e um terço do Senado. E se o Partido Democrata tiver maioria nas duas câmaras tudo passa a ser possível.

AFP

WATERGATE

Protagonista 
Richard Nixon, 37º Presidente

O que foi
Escândalo que recebeu o nome de um edifício de Washington D.C. em que elementos da Administração Nixon levaram a cabo várias atividades clandestinas. O Presidente usou depois os seus poderes para evitar as investigações e provocou uma crise político-constitucional sem precedentes

Quando aconteceu
Entre junho de 1972 (data em que cinco indivíduos que trabalhavam para o comité de reeleição de Nixon foram detidos quando assaltavam um escritório do Partido Democrata) e 8 de agosto de 1974, dia em que o Presidente anuncia a sua demissão para não se sujeitar a um processo de impeachment

Quais as acusações
Obstrução à justiça, abuso de poder e desrespeito pelo Congresso

Quem investigou
FBI, Bob Woodward e Carl Bernstein (repórteres do Washington Post) e o procurador-especial Archibald Cox

Como terminou
Um mês depois de abandonar a Casa Branca, Nixon foi amnistiado pelo seu sucessor no cargo, Gerald Ford, para não ter de responder por quaisquer crimes cometidos na presidência

MIKE SARGENT

Irão-Contras

Protagonista 
Ronald Reagan, 40º Presidente

O que foi
Trama montada por vários colaboradores de Reagan para os EUA venderem clandestinamente armas ao Irão e o desvio das verbas daí resultantes a serem usadas para financiar a guerrilha anti-sandinista da Nicarágua (os Contras).

Quando aconteceu
Entre agosto de 1985, data em que terão chegado a Teerão os primeiros 96 mísseis antitanque made in USA, e março de 1987, quando Reagan, num discurso televisivo, pediu desculpas aos americanos pelo escândalo

Quais as acusações
O Presidente não chegou a ser formalmente acusado mas 14 dos seus colaboradores – incluindo o secretário da Defesa e o conselheiro de Segurança Nacional – tiveram de responder pelos crimes de conspiração, abuso de poder, perjúrio e obstrução à justiça

Quem investigou
O Congresso criou várias comissões de inquérito, a principal ficou a cargo do procurador Lawrence E. Walsh

Como terminou
Reagan escapou ileso mas 11 dos seus colaboradores foram condenados – a penas suspensas – até serem perdoados pelo 41º Presidente, George H. W. Bush.

Kevin Lamarque

Monicagate

Protagonista 
Bill Clinton, 42º Presidente

O que foi
O envolvimento do chefe de Estado com uma estagiária da Casa Branca, Monica Lewinsky, de 22 anos, foi o pretexto ideal para os seus opositores porem em causa a agenda política do Presidente e sobretudo o seu caráter

Quando aconteceu
Entre janeiro de 1998, quando se multiplicam os rumores sobre as infidelidades de Clinton, e 12 fevereiro de 1999, data em que o Senado deu por encerrado o processo

Quais as acusações
Perjúrio, obstrução à justiça e abuso de poder

Quem investigou
O procurador-especial Kenneth Starr que começou por investigar os negócios imobiliários de Clinton (caso Whitewater) mas que acabou por centrar-se na vida amorosa do Presidente

Como terminou
Bill Clinton acabou por ser ilibado – não houve uma maioria de dois terços no Senado para o destituir – e cumpriu o seu segundo mandato até ao fim.