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Guia para entender as eleições britânicas

Mundo

Neil Hall / Reuters

Pela terceira vez em dois anos, os britânicos são chamados às urnas. Os conservadores chegaram a ter um avanço de 20 pontos nas sondagens mas, agora, tudo pode acontecer...até a entrada de Jeremy Corbyn em Downing Street

As eleições antecipadas, convocadas em abril, pareciam favas contadas para a primeira-ministra Theresa May. As sondagens apontavam todas para uma nova maioria dos conservadores (tories) em Westminster, essencial para reforçar a legitimidade de May na negociação da saída britânica da União Europeia (Brexit).

Mês e meio depois, e dois ataques terroristas em Londres, a aritmética eleitoral é tudo menos previsível. A questão da segurança até joga a desfavor de may, ministra do Interior durante seis anos e durante esse período responsável por cortes consecutivos nas forças policiais do Reino Unido.

A 8 de junho, o britânicos vão escolher não só quem se senta na mesa de negociações do Brexit mas também como se irá realizar o processo de divórcio – Corbyn diz-se disposto a negociar com Bruxelas, May inclina-se para uma negociação mais dura ou mesmo de rutura, que pode até acabar sem acordo.

As urnas para os mais de 46 milhões de eleitores abrem às seis da manhã (GMT) e fecham às 21 horas. Saiba o que está em jogo nas legislativas desta quinta-feira:

Para onde apontam as sondagens?

A última sondagem do YouGov/Sunday Times mostrava uma diferença de quatro pontos percentuais nas intenções de voto entre os tories (42%) e os trabalhistas (38%). Os liberais- democratas (lib-dem), que estiveram em coligação com o David Cameron, atingem os 9%, enquanto os eurocéticos (Ukip) ficam com 4%. Em abril, as diferença entre os dois partidos rondava os 20 pontos percentuais.

Nas legislativas de 2015, as sondagens saíram bastante ao lado dos resultados – tudo apontava para uma disputa renhida entre tories e trabalhistas, mas os conservadores acabaram por vencer com maioria absoluta. A falta de uma amostra significativa foi uma das razões apontadas para o fracasso dos estudos de opinião, uma situação que pode repetir-se uma vez que as empresas de sondagens foram apanhadas desprevenidas com um calendário eleitoral antecipado.

Um cenário de ‘hung parliament’ é provável?

Quando nenhum partido político consegue a maioria da Câmara dos Comuns, que totaliza 650 deputados, existe a figura de ‘hung parliament’. Projecções, também do YouGov, indicam que os conservadores podem perder a maioria no parlamento britânico – ou seja, 20 lugares, enquanto os trabalhistas ganham 30 deputados. A bancada ‘tory’ tem hoje 330 deputados, mais quatro que a fasquia da maioria (326).

Os lib-dem já formaram governo com os tories no passado recente, mas desta vez será mais difícil uma coligação já que o partido, liderado por Tim Farron, continua a defender uma via europeísta para o Reino Unido, ao contrário dos conservadores eurocéticos. O manifesto dos lib-dem propõe mesmo que os britânicos votem o Brexit num segundo referendo, depois de conhecer os termos do acordo de saída com a UE. No atual panorama político, os lib-dem mais rapidamente se aliavam aos trabalhistas.

Quais as consequências para Brexit?

As eleições marcaram mais um compasso de espera. May acionou o artigo 50º, que inicia o processo de saída de um país da UE, no final de março. Se a primeira-ministra britânica consolidar a maioria nas eleições desta quinta-feira terá um mandato reforçado para negociar o Brexit. Em particular, May ganha legitimidade para uma negociação dura com Bruxelas, que inclui retirar o Reino Unido do mercado único europeu, da união aduaneira e impor uma política de imigração mais apertada. No limite Londres pode divorciar-se sem qualquer acordo, um cenário que os europeus receiam e repudiam.

Os trabalhistas apoiaram a manutenção do país na UE, antes do referendo, mas perante o resultado Corbyn avisou que vai conduzir as negociações para o Brexit. No entanto, o partido trabalhista quer uma mudança do tom negocial, acabar com “a abordagem imprudente” de May e procurar um “acordo que funcione” para todas as comunidades do Reino Unido. A Escócia, e com menos ruído a Irlanda do Norte, está a mobilizar-se para realizar um novo referendo para a independência, no final de 2018 ou início de 2019, de forma a voltar ou manter-se na família europeia.

Corbyn não esconde que quer também reter os benefícios de pertencer ao mercado único europeia e à união aduaneira. Ao mesmo tempo, promete que os cidadãos europeus no Reino Unido terão os mesmos direitos que os britânicos se existir reciprocidade. G.M.