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Como o mundo reagiu ao anúncio de Trump

Mundo

Joshua Roberts / Reuters

A decisão norte-americana de sair do Acordo de Paris causou uma vaga de críticas de líderes políticos e empresariais de todo o mundo. Elon Musk e Bob Iger abandonaram mesmo o cargo de conselheiros da Casa Branca

Francisco Perez

Donald Trump decidiu romper esta quinta-feira com o Acordo de Paris, colocando um enorme desafio a todos os países que ratificaram o combate a alterações climáticas. Entre vários líderes mundiais e executivos de multinacionais, o presidente já regista baixas na sua equipa de conselheiros.

Apesar dos argumentos do chefe de Estado de que a economia americana vai beneficiar da saída do acordo de Paris, essa não é a opinião dos responsáveis de algumas das maiores empresas do país. Elon Musk foi um dos primeiros a deixar o conselho presidencial. Segundo a CNN, avisou o chefe de Estado para manter o acordo através de oficiais da Casa Branca.

Depois de ter ameaçado abandonar o cargo caso Trump avançasse com a opção, o CEO da Tesla e da Space X cumpriu o prometido. Esta quinta-feira, refere a Reuters, as ações da Tesla Inc. subiram 1,8%.

Também o presidente e CEO da Walt Disney Company abandonou o cargo, por uma “questão de princípios”. Bob Iger reitera que está em “profundo desacordo” com o presidente, pelo que apresentou a sua demissão.

Naquele que foi o seu primeiro “tweet”, Lloyd Blankfein, CEO da Goldman Sachs, criticou a postura de Donald Trump, afirmando que tal é “um passo atrás para o ambiente e para a posição de liderança dos EUA no mundo”.

O presidente da General Eletric mostrou-se desapontado com o a decisão. No entanto, Jeff Immelt vincou que “a indústria deve agora liderar e não depender do Governo”.

Esta posição de Immelt é transversal a outros líderes de multinacionais: agora que Trump anunciou o corte com o acordo de Paris, devem ser as empresas a usarem as suas posições para continuar a luta pela preservação do meio ambiente.

Num comunicado enviado aos trabalhadores, Tim Cook afirmou que “os desenvolvimentos de hoje [quinta] não terão impacto nos esforços da Apple para proteger o ambiente”.

Marc Benioff, diretor executivo da Salesforce, também manifestou o seu desagrado.

“Muito desiludido com a decisão do presidente. Vamos duplicar os nossos esforços para combater as mudanças climáticas”.

Satya Nadella, CEO da Microsoft Corporation, partilha da mesma opinião, vincando que a empresa “continua comprometida” com a defesa do ambiente.

A Google também manifestou a sua vontade de lutar contra as alterações climáticas. O CEO da multinacional, Sundar Pichai, diz que vão “continuar a trabalhar arduamente para um futuro mais verde e mais próspero para todos”.

Mark Zuckerberg critica a decisão de Donald Trump. O CEO do Facebook escreveu que “deixar o Acordo de Paris é mau para o ambiente, é mau para a economia e coloca o futuro das crianças em risco”.

Bolsa atinge valores históricos

Apesar do anúncio da retirada dos EUA do acordo de Paris, a bolsa nova-iorquina encerrou esta quinta-feira com os três principais índices em níveis recordes. Tal não influenciou os índices bolsistas pois, na opinião de Art Hogan, da Wunderlich Securities, os investidores já tinham incorporado essa decisão nos seus cálculos.

Os resultados definitivos da sessão indicam que o Dow Jones Industrial Average avançou 0,65% (135,53 pontos), para os 21.144,18 pontos, e o Nasdaq 0,78% (48,31), para os 6.246,83. O S&P 500 valorizou 0,76% (18,26), atingindo os 2.430,06 pontos.

A criação de emprego no setor privado nos EUA cresceu em maio, ultrapassando largamente as expectativas dos analistas, indicou a sociedade de serviços informáticos ADP. As empresas terão contratado 180 mil pessoas.

Quem apoia Trump?

Nem todos discordam da tomada de posição de Donald Trump. Algumas indústrias a norte-americanas aplaudiram a decisão do presidente.
A Peabody Energy, a maior produtora de carvão registada nos EUA, defende que a permanência no acordo prejudicaria a economia. “Acreditamos que ao cumprir o acordo, sem alterações significativas, causaria um impacto significativo na economia dos EUA, aumentariam os preços e exigiria ao setor da energia que dependesse em energias menos diversificadas e mais intermitentes”.

O grupo “American Coalition for Clean Coal” (ACCCE) também apoiou a escolha, deixando críticas a Barack Obama, antecessor de Donald Trump. “A anterior administração voluntariou-se para cumprir um dos mais rigorosos objetivos de qualquer país no mundo, enquanto muitos outros países faziam muito menos para reduzir as suas emissões. Cumprir o objetivo do Presidente Obama levaria a maior regulaçãos, preços de energia mais elevados e maior dependência em fontes energéticas menos confiáveis”, declarou Paul Bailey, presidente e diretor executivo da ACCCE.

De acordo com a AFP, Rex Tillerson, secretário de Estado garantiu que os EUA vão continuar a fazer esforços para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa. Tillerson referiu ainda que o país tem um “historial excelente” na redução de emissõe, consideradas responsáveis pelo aquecimento global.

A Europa de costas voltadas

Num comunicado conjunto, França, Alemanha e Itália vincaram que o acordo de Paris não pode ser renegociado. “Consideramos irreversível o movimento gerado em Paris, em dezembro de 2015, e acreditamos firmemente que o Acordo de Paris não pode ser renegociado, uma vez que é um instrumento vital para o nosso planeta, sociedades e economias”.

Esta posição foi posteriormente reforçada por Emmanuel Macron que, ainda que “respeite a decisão”, considera-a um “erro para os EUA e para o planeta”. O presidente francês, entretanto, publicou no Twitter uma imagem onde se lê “tornar o planeta grande outra vez” – uma nova versão do lema de Trump durante a campanha presidencial “Make America Great Again” – , em resposta ao homólogo norte-americano.

Barack Obama, o responsável por ratificar o Acordo de Paris em dezembro de 2015, criticou em comunicado a decisão do seu sucessor, acusando-o de “rejeitar o futuro”. “As nações que continuam no Acordo de Paris serão as que vão colher os benefícios da criação de empregos e indústrias. Acredito que os EUA deveriam estar na frente do grupo. Mas mesmo da ausência de liderança norte-americana, mesmo com esta administração a juntar-se ao pequeno grupo de nações que rejeitam o futuro, estou confiante que os nossos estados, cidades e negócios vão destacar-se ainda mais para traçar o caminho e ajudar a proteger o único planeta que temos para as próximas gerações”, escreveu.

A Convenção-Quadro das Nações Unidas das Alterações Climáticas, em comunicado, mencionou que o Acordo de Paris não pode ser renegociado “com base num único pedido”, mas que vai levar a cabo um “diálogo com o Governo dos EUA relativamente às implicações do anúncio”.

Após o anúncio nos jardins da Casa Branca, os estados da Califórnia, Nova Iorque e Washington anunciaram uma união que continue a respeitar as premissas do acordo de Paris. A “Aliança Climática dos Estados Unidos” foi anunciada pelo governador californiano, Jerry Brown. Segundo dados da Agência de Informação Energética, citados pelo “Político” estes estados representam cerca de um quinto da população e produziram 11% das emissões poluentes do país em 2014.

Já Vladimir Putin disse esta sexta-feira que não julgará o presidente dos EUA pela decisão de sair do Acordo de Paris – que considera ser um “bom” compromisso – mas no qual Washington poderia ter permanecido. A Rússia ainda não ratificou o acordo o que, para Putin, se deve ao facto de ainda estarem a ser analisadas questões técnicas em como reduzir as emissões de dióxido de carbono.

À margem do Fórum Económico Mundial, esta sexta-feira em São Petersburgo, o presidente russo referiu que ainda há tempo para ser alcançado um acordo, conforme Trump deixou ontem no ar. “Parece-me que agora não é o momento de fazer muito barulho sobre isso, mas sim criar condições para um trabalho conjunto. “Don’t worry, be happy”, declarou, no final da sua intervenção.