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Portugueses na Venezuela: “A situação é muito grave" mas "a grande maioria não exprime vontade de sair"

Mundo

José Luís Carneiro, Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas

Alberto Frias

José Luís Carneiro, secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, está numa visita de quatro dias à Venezuela

José Luís Carneiro, secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, que está numa visita de quatro dias à Venezuela, diz que a “situação no país é muito grave”. Cerca de três a quatro mil portugueses já terão regressado à Madeira

Quantos portugueses vivem na Venezuela?
Estão inscritos nos serviços consulares 180 mil portugueses.

É uma comunidade grande...
Não há lugar para pânico, temos de garantir proximidade aos portugueses. A situação é grave, muito grave. Os portugueses dizem-nos que não se querem meter na vida política, nem nas opções políticas do país, querem é condições para continuar a trabalhar porque veem na Venezuela um sítio de grandes oportunidades.

Quantos regressaram à Madeira?
Não é possível ter números exatos. Sabemos que cerca de mil pessoas se inscreveram na Segurança Social madeirense.

Mas nem todos terão feito essa inscrição…
O Secretário Regional dos Assuntos Parlamentares e Europeus, Sérgio Marques, que está comigo nesta visita, estima que terão regressado três a quatro mil portugueses à Madeira, mas é uma estimativa. Mas muitos dos que regressaram têm vontade de voltar à Venezuela assim que as condições estabilizem.

Estes números vão aumentar?
A nossa convicção é que estes números vão crescer nos próximos tempos.

A Madeira está preparada para integrar estas pessoas?
Isso é um exercício especulativo. O Governo da República e o Governo Regional da Madeira estabeleceram um quadro de cooperação, temos total abertura para apoiar os esforços do Governo Regional e vamos continuar a acompanhar a situação.

E quantos regressaram para o Continente?
Sabemos que há milhares de saídas para a Colômbia, Peru, Panamá França, EUA, Espanha e Portugal, mas não sabemos os números exatos. Mas há muitos que saem e depois regressam.

Caso a situação se agrave ainda mais, equacionam fazer uma ponte aérea entre a Venezuela e Portugal?
Qualquer declaração sobre uma pergunta desta natureza tem efeitos negativos na proteção e salvaguarda dos portugueses.

Porquê?
Tudo o que é dito e perguntado em Portugal é lido e interpretado com muita atenção por todos os setores políticos da Venezuela e essa interpretação política nem sempre auxilia aquela que é a vontade dos portugueses de contribuírem para o clima de estabilidade e que garante esperança.

Como está a situação na Venezuela?
Muito difícil. Já estive com várias centenas de portugueses, entre eles empresários da panificação, da distribuição, do pequeno comércio, do ramo automóvel e combustíveis e o mais impressionante é a grande maioria destas pessoas, assim como as que trabalham nestes serviços, não exprime vontade de sair do país, porque é aqui que têm a sua vida organizada. Mesmo o grupo de 32 empresários das padarias que foram atacados por grupos organizados que lhes destruíram os estabelecimentos já está, na sua grande maioria, de novo a trabalhar. Apesar de alguns ainda estarem em situações precárias reabriram os seus negócios. O que eles temem são as questões de segurança, receiam ser vítimas de novos assaltos. Muito embora haja escassez de matérias primas para fazer o pão…

Mas falta quase tudo...
Não, do que tenho visto, não. Fui a vários estabelecimentos comerciais e estavam repletos de produtos, o problema é que a desvalorização cambial e, consequentemente, os rendimentos das famílias não lhes permitem comprar. A inflação está acima de 1 000%, um quilo de arroz ou de maçãs pode representar 5% ou 10% de um salário.

O que está o Governo português a fazer?
Estamos a trabalhar com as autoridades venezuelanas, que continuam a reiterar o apreço que têm pelos portugueses. Reconhecem a sua função social e económica – das 17 mil padarias existentes no país, 95% são de portugueses – e querem garantir segurança aos negócios de portugueses. Temos falado com as associações portugueses de apoio social, como lares, ou que ajudam pessoas com deficiência e idosos, outras ligadas ao desporto e à cultura para que continuem a fazer o seu trabalho de apoio, por exemplo, às pessoas mais carenciadas. Também reuni com o cônsul e com os funcionários do consulado no sentido de reforçar a capacidade de resposta dos 10 consulados honorários que estão nos pontos mais afastados do país.

Vai reunir-se com o presidente Nicolas Maduro?
Não. Vou reunir-me hoje com a ministra das Relações Exteriores.

Esta visita à Venezuela foi antecipada?
Há cerca de um mês tomámos a decisão de fazer uma visita à Venezuela, mas os últimos acontecimentos, nomeadamente os assaltos aos estabelecimentos portugueses e o clima de instabilidade, aceleraram esta visita.