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Acabou-se a "família tradicional" na política?

Mundo

ERIC FEFERBERG

Mostrar-se ao lado da família - mulher ou marido e filhos - sempre foi uma mais-valia e um trunfo na política. Mas os tempos estão a mudar

Patrícia Gouveia

O fator família sempre serviu como referência para campanhas políticas. É frequente ver primeiros-ministros e presidentes da República ladeados pelas companheiras e pelos filhos antes das eleições. Algumas mulheres optam até por discursar e apelar ao voto no marido, em comícios. Exemplo de Melania Trump, que durante encontros com eleitores subiu ao palco para falar de Donald. Entretanto, a sociedade mudou, o conceito de família também e, por consequência, a realidade política foi ela própria alvo de mudanças.

Nos Estados Unidos a família é um padrão especialmente enraizado e apresenta-se como um trunfo para conquistar o público. Muitos eleitores vêem na família do presidente uma estabilidade que procuram ter no país. Uma espécie de frente unida. Trump é apenas o segundo presidente da história política americana com um divórcio no currículo (ou outro é Reagan). Não foi por isso que deixou de ganhar as eleições em novembro de 2016.

Por essa Europa fora há outros casos de políticos que não têm essa "família tradicional". E basta olhar para as presidenciais francesas deste fim de semana: Emmanuel Macron é casado, mas não tem filhos. Algo que o tornou um alvo de várias acusações por parte da oposição. Durante a campanha eleitoral, Jean-Marie Le Pen, pai de Marine, a opositora de Macron, atacou o facto de Macron não ter nenhum descendente. "Ele fala do futuro, mas nem tem filhos!" E logo lembrou aos eleitores que Marine é uma mãe de família dedicada.

O certo é que Macron não tem filhos biológicos, mas Brigitte Trogneux, mulher do presidente eleito, tem três filhos de um casamento anterior que chamam Macron de pai. "Senhor Le Pen, eu tenho filhos e netos no meu coração", disse Macron num comício em resposta ao pai da sua opositora. Uma família moderna.

Quem também tem lutado para mudar o paradigma da família tradicional é Angela Merkel. Assim como Emmanuel Macron, Merkel nunca teve filhos biológicos, mas tem dois enteados, filhos do marido, Joachim Sauer. Ao longo da sua carreira política, a chanceler alemã foi também criticada por nunca ter sido mãe. Em 2005, Doris Schröder-Köpf - mulher de Gerhard Schröder - disse numa entrevista a um jornal alemão que Merkel não representava a experiência da maioria das mulheres. Mulheres essas que "estão ocupadas a tentar conciliar a família com a carreira." Por outro lado, Rainbow Murray, no seu livro que faz uma comparação entre as campanhas das mulheres, escreveu que os eleitores sempre souberam que a chanceler não era uma mãe, mas que ela se tornou a mãe da nação.

Por terras britânicas, o cenário mantém-se: uma mulher sem filhos no poder. Nem biológicos nem adotivos. Theresa May foi várias vezes criticada pelos seus adversários por não ser mãe. A primeira-ministra britânica está casada há 37 anos com Philip May e várias vezes foi forçada a explicar a opção. "É claro que não ter conseguido ter filhos afetou-me, mas temos de aceitar o que a vida nos dá", justificou, durante uma campanha. "Às vezes há coisas que queremos, mas não podemos ter."

Também em Portugal há o caso de um presidente que não tem a típica 'família tradicional'. Marcelo Rebelo de Sousa chegou a casar em 1972, matrimónio que lhe deu dois filhos. Hoje é divorciado e avó de cinco netos, mas namora com Rita Amaral Cabral há mais de 30 anos. E até conseguiu conquistar os portugueses - tidos por conservadores - sem ter de se fazer acompanhar da namorada.