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"Se a Turquia tivesse sido aceite na UE, as coisas não teriam chegado a este ponto. Foi uma oportunidade perdida"

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OZAN KOSE/ Getty Images

Entrevista a Asli Erdogan, escritora, recentemente presa e libertada pelo regime turco

Escritora, jornalista, nascida em Istambul há 49 anos, viu-se subitamente abrangida pela onda de prisões desencadeada pelo regime turco, após a tentativa de golpe de Estado de julho de 2016. Formada em Física de Partículas, trabalhou no Centro Europeu de Investigação Nuclear (CERN), na Suíça, até ao dia em que decidiu que a escrita seria o seu futuro. Defensora dos direitos da minoria curda, seria levada em meados de agosto para a cadeia, onde ficaria quatro meses e meio. Libertada no final de dezembro, ainda não terminou, no entanto, as contas com a Justiça. O seu romance O Edifício de Pedra acaba de ser posto à venda em Portugal, com a chancela do Clube do Autor.

Como lhe sucedeu trocar a Física pela Literatura?

Vivi dois anos, entre 1994 e 1996, no Rio de Janeiro. Fui para lá fazer o doutoramento na Pontifícia Universidade Católica. Entretanto, foi publicado em Istambul o meu primeiro romance, A Cidade do Manto Vermelho. E nessa altura já estava bastante desapontada com o meu trabalho no CERN, porque o ambiente era duro, muito competitivo, muito dominado por homens. Trabalhava muitas horas sob grande pressão. Não posso dizer que mudei para a literatura. Foi mais uma transformação que sucedeu lentamente, na escuridão. Uma manhã acordei para ir fazer o meu último exame e não fui. Disse 'acabou'. Soube que terminara essa fase da minha vida e nunca me arrependi. Talvez isso ocorresse também porque no Rio estava mais isolada. Dei-me o tempo e o espaço para seguir noutra direção. Foi como olhar-me ao espelho.

O Edifício de Pedra (2009) é um livro sobre a sensação de estar preso. Mas já alguma vez tinha estado na cadeia quando o escreveu?

Não. Resultou de uma experiência coletiva que fui conhecendo ao longo de 40 anos. E o livro não é propriamente sobre a prisão, mas sobre uma longa, eterna, noite de humanos entre pedras. Há uma esquadra de polícia, celas, gritos vindos de uma câmara de tortura, corredores, mas não se passa exatamente numa cadeia.

Até que ponto a realidade foi ao encontro do que imaginava?

A prisão tem metáforas fortes, como as barras das celas. De repente, a metáfora torna-se realidade. Sentia-me como se estivesse num filme, num ambiente que me era estranho. E os primeiros dias são os mais horríveis. Passei cinco numa cela de isolamento, uma tortura muito dura. Além do mais, a cela estava muito suja. Depois, fui colocada na ala dos presos políticos. Sobrevivi com a ajuda das outras presas.

A experiência dos outros é muito importante. Ensinam-nos como sobreviver, o que fazer, o que não fazer, como tomarmos conta de nós. Devagar vamo-nos acostumando.

E não se ressentiu disso?

Claro que sim, até porque já tinha muitos problemas de saúde. Sentia o frio que havia na prisão quase como se estivesse na rua. Muitas vezes dormia com água quente, que metia em sacos de plástico. Uma vez houve até um pequeno acidente, porque um deles se abriu. Além disso, tenho uma prótese no pescoço e com qualquer pancada na cabeça ou na cara correria o risco de paralisia. Tinha sido operada à coluna. Mas nas prisões turcas há pessoas com cancro em estado terminal. Por isso, não posso queixar-me muito, atendendo à condição de outros. Ainda tive a sorte de poder tomar os medicamentos.

Foi presa sob que acusação?

O meu nome aparecia como consultora na ficha do Özgür Gündem, um jornal em língua turca que se vende em toda a parte e é perfeitamente legal. Tive lá uma coluna regular entre 2011 e 2013, e desde aí só escrevia de vez em quando. Mas o meu nome continua entre os consultores, um grupo em que um é editor, outra linguista, outro ecologista, tudo pessoas destacadas nos seus campos. Os nossos nomes estão lá simbolicamente. Dois de nós viemos a ser presos, sem que se perceba porquê. Aliás, de acordo com a lei turca, os consultores nem têm responsabilidade editorial. Fui acusada de tentativa de destruição da unidade do Estado. É a mais grave das acusações, tanto que até era punida com a pena de morte e hoje ainda dá prisão perpétua. Isso implicaria ter tido não só a vontade como os meios. Seria preciso formar um exército para poder destruir o Estado! Fui também acusada de pertencer a uma organização terrorista e de fazer propaganda (dessa organização).

Não era acusada de pertencer ao PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão)?

Sim. Fui inclusivamente acusada de ser dirigente e fundadora do PKK. Eram coisas para lá de insanas.

Que memória guarda da sua detenção?

Um grupo de polícias e de forças especiais irromperam pela minha casa como uma tempestade, com armas automáticas apontadas para mim. Fizeram buscas no meu apartamento durante sete horas, até porque tenho 3 500 livros. Havia cerca de 20 homens a fazer a busca e outros tantos na rua, a cercar o edifício. Até puseram atiradores no telhado! Portanto, foi toda uma operação muito cinematográfica. Pretendiam assustar toda a gente. As forças especiais estavam fardadas de preto, com a cara tapada.

Qual é a sua própria explicação para ter sido presa?

Muitas pessoas ficaram admiradas com a minha detenção, porque não sou uma pessoa com destaque político. Sou uma escritora de ficção que, de vez em quando, assina uma coluna num jornal, sempre numa linguagem branda. Nunca tive de ir a tribunal por causa de um texto meu. Mesmo em relação à questão curda, há muitas outras pessoas que defendem os direitos dos curdos. Creio que foi um aviso aos intelectuais e escritores do género 'mantenham-se afastados dos curdos, que nós tratamos do assunto.' Além disso, sou mulher e uma figura bastante solitária. Não tenho envolvimento político, não tenho um partido a apoiar-me. Portanto, era uma presa fácil. Fizeram isto porque podiam.

Como estava a prisão, quando chegou? Cheia?

Sim. No Palácio da Justiça havia centenas de pessoas à espera de serem levadas para a prisão, principalmente soldados, polícias, juízes. Estávamos muito chocados. Grande parte das pessoas não fazia ideia da razão porque ali estava. Lembro-me de que mais tarde, já na cadeia, ouvi uma mulher, numa cela solitária ao lado daquela em que estive, chorar durante 48 horas e perguntar ''porquê eu?''. Estava em choque total. E, devido ao regime de exceção, todos os dias as normas se iam tornando mais rígidas. Num dia limitavam a roupa, no outro levavam os livros. Havia sempre novas proibições.

Foi libertada a 29 de dezembro. Está livre de todas as acusações?

Não. Ainda sou acusada de propaganda (de organização terrorista).

Das pessoas presas desde a declaração do estado de emergência, quantas ainda estão na cadeia?

Creio que ainda lá estão 50 mil a 60 mil.

Entre elas encontram-se quantos jornalistas?

Ainda estão 151, segundo os números que apurámos no final de janeiro. Além destes, havia mais 90 que tinham sido presos e que, entretanto, foram soltos, como o meu caso. É um recorde mundial.

E ainda há muitos órgãos de comunicação social que continuam fechados?

Sim. Eles fecharam entre 150 a 200, incluindo jornais, canais de TV, rádios e agências noticiosas. E só reabriram um ou outro. Em consequência disso, há também 2 500 jornalistas que ficaram sem emprego. A estes juntam-se 4 mil académicos, que foram despedidos. Portanto, há uma grande campanha de silêncio na sociedade. Por mim, escrevia artigos sobre direitos dos curdos, ou sobre a violência de Estado contras as minorias, incluindo nelas as mulheres.

Na prisão escreveu uma carta onde dizia que a Europa devia assumir as suas responsabilidades. Referia-se a quê?

A defesa dos direitos humanos, a igualdade de direitos, a liberdade de expressão e de pensamento são valores há muito adotados pela Europa e que são hoje considerados valores universais. A democracia depende desses valores. Foram séculos de debates, de guerras, de trabalho intelectual para chegarmos a estes conceitos. A Europa devia estar orgulhosa do seu passado e assumir a responsabilidade por estes seus ideais. Os direitos humanos são o centro da formação da identidade europeia.

Como tem sido o papel da Europa relativamente à situação na Turquia?

Creio que a Europa está bastante consciente do que se passa na Turquia, mas não sabe o que fazer, quais as suas responsabilidades e os seus limites. Claro que falo como uma intelectual que escreve sobre direitos humanos e democracia, mas o mundo é governado por outras realidades, como acordos de negócios, estratégias políticas. E hoje existe a guerra na Síria. A questão dos direitos humanos não é a mais importante para homens de negócios, políticos ou militares. Como intelectual tinha de sublinhar estas questões centrais mas eu, que é como quem diz, nós, intelectuais, não somos um fator decisivo.

Faria alguma diferença a Turquia ter sido aceite como membro da União Europeia?

Claro que sim. A maioria dos lideres europeus está hoje evidentemente mais preocupada com a questão dos refugiados sírios, que são três milhões e meio de pessoas a entrar. Nestas circunstâncias, quem se preocupa com um grupo de jornalistas na prisão? Tanto a União Europeia como a Turquia perderam uma oportunidade em 2000. Não só a democratização na Turquia estaria mais consolidada, como a situação no Médio Oriente não se teria agravado tanto. Foi uma oportunidade que surgiu nessa altura e que agora está perdida.

Já não acredita que a Turquia venha a poder entrar na UE?

Não creio, não. Agora a Turquia está a cortar os laços com a Europa e penso que a maioria da população já nem acredita nisso. Acho mesmo que essa oportunidade se perdeu.

Dentro em breve, a Turquia fará um referendo sobre as alterações constitucionais, que darão mais poder ao Presidente, Recep Erdogan. Que posição tem sobre isso?

Tenho criticado a maneira como o debate se polarizou, porque não se trata de ser a favor ou contra Erdogan. A realidade é que está em causa uma questão de regime, que irá estender-se por muito tempo. A nova Constituição, se for aprovada, será muito estrita, totalitária. Haverá uma monopolização ainda maior do poder. O resultado pode ser muito perigoso para a Turquia.