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Relato de um português cercado pela violência no estado brasileiro do Espírito Santo

Mundo

Poucs se aventuram a sair à rua em Vitória, capital do estado, agora patrulhada pelo exército

© Paulo Whitaker / Reuters

Há seis dias que um clima de terror e guerra se instalou no Espírito Santo. Bruno Veiga, português a residir na capital daquele estado brasileiro, trancado em casa há dias com os filhos, descreve o cenário que já provocou a morte a mais de 100 pessoas

“Não há palavras para descrever isto. As crianças estão sem aulas e a minha mulher teve sorte. Foi aos Estados Unidos em trabalho e não teve de viver isto. Ninguém sai de casa há dias. Está tudo fechado. Lojas, bancos, escolas, tudo. Estão a saquear todas as lojas. Vêm de todo o lado. Não são só os bandidos, os outros aproveitam e roubam. Há civis revoltados a matarem os ladrões. Não dá para explicar. É o salve-se quem puder.”

Este é o relato à VISÃO de Bruno Veiga, português casado com uma brasileira, e que vive há anos com mais dois filhos pequenos perto da marginal de Vitória, a capital do Estado brasileiro do Espírito Santo onde nos últimos seis dias foram assassinadas mais de 100 pessoas.

A onda de violência, contada em vídeos filmados pelos moradores com os telemóveis, que estão espalhados pelo Youtube e por páginas de Facebook (há vídeos impróprios a pessoas mais suscetíveis, que mostram, por exemplo, uma pessoa no chão a ser assassinada com mais de uma dezena de tiros na cabeça), é algo nunca antes visto mesmo num país como o Brasil, com histórico de violência. E mais surpreendente ainda naquele Estado, descrito até aqui como um lugar onde o crime existia mas era controlado, e conhecido por ser um destino turístico de muitos brasileiros e estrangeiros, sobretudo nesta época do ano, devido aos seus quilómetros de praias.

Os principais órgãos de informação brasileiros dão conta de um estado caótico desde que no sábado passado as mulheres dos polícias militares bloquearam os batalhões, impedindo a saída das forças policiais, e forçando a greve, a que estão proibidos por lei. Os familiares destes polícias reivindicam aumento nos salários e criticam as más condições de trabalho. O governo acusa-os de chantagem.

Desde que a greve começou há tiroteios a toda a hora nas ruas de Vitória, a capital do Estado que fica a norte do Estado do Rio de Janeiro e a sul da Bahia, e também em cidades como Linhares, Aracruz, Colatina, Cachoeiro de Itapemirim e Piúma. Há supermercados e lojas de eletrodomésticos saqueados por criminosos especialistas em furtos e roubos e por pessoas que nunca cometeram crimes. Seguranças e porteiros mortos a tiro. Criminosos mortos ou agredidos violentamente por cidadãos revoltados. Civis apanhados por balas perdidas. Pessoas que saíram para comprar cigarros e não voltaram. Carros roubados. Autocarros queimados. Bancos fechados. Escolas encerradas. Lojas fechadas, arrombadas, com as prateleiras vazias. Hospitais que apenas tratam urgências. Cadáveres acumulados no chão porque o Instituto Médico Legal não tem espaço para mais corpos. Milhares de pessoas trancadas nas suas casas, num estado onde vivem 4 milhões de pessoas. E milhões de prejuízos no comércio e na indústria ainda por calcular.

Com a greve da Polícia Militar, responsável pelo patrulhamento das ruas, o governo enviou 200 efetivos da Força Nacional de Segurança para a capital do Estado na noite de segunda-feira. Na terça começaram a chegar a Vitória os mil militares enviados pelo Ministério da Defesa.

Mas, segundo o português Bruno Veiga, que nos enviou vídeos que mostram a marginal de Vitória praticamente deserta, com pouquíssimos carros a circular e nenhuma pessoa a andar a pé, e as praias vazias, o cenário não melhorou: “O exército passa uma falsa sensação de segurança porque todos os militares que estão a chegar ao estado do Espírito Santo têm que ser divididos por todos os municípios. Ontem um polícia civil que estava a tentar parar um assalto foi morto e com isso, além da polícia militar estar em greve, os polícias civis também estão parados em protesto. As polícias aconselham a não sair de casa e, se sair, não usar carro. Daqui não ouvimos tiroteios, porque o bairro é bom. Mas já vimos pessoas a assaltarem carros à mão armada.”

Algum comércio, explica Bruno, já tentou abrir as portas mas voltou a fechá-las pouco depois. “Os supermercados estão um caos. Não há comidas nas prateleiras, os que abrem logo viram uma confusão devido ao número de pessoas na fila e são forçados a fechar as portas. A minha sogra teve de chegar ao supermercado 40 minutos antes de abrir, foi a segunda a entrar e quando saiu o super já tinha fechado com tanta gente que se tinha acumulado do lado de fora.”

E o cenário ainda pode pior, com a paralisação da Polícia Civil.

Venilson Ferreira, jornalista em São Paulo e natural de Vitória, confirma o caos: “Os mortos são bandidos em guerra e civis apanhados em assaltos. É uma pena esta falta de autoridade do Estado. A minha família não sai de casa há dias. Só hospitais estão abertos e alguns poucos mercados. Não há ónibus [autocarros] e os táxis não circulam. Aqui no Brasil normalmente o Instituto de Medicina Legal demora, nesta situação só agrava. Sair de casa de carro é um risco grande. Mesmo quem não é bandido profissional está saqueando as lojas, bancos… A ocasião faz o ladrão.”

O portal de notícias da Globo, que conta aqui os nomes e as histórias das vítimas da onda de violência e de insegurança no Espírito Santo, e também o Estado de São Paulo (Estadão) noticiaram que alguns transportes públicos ainda saíram para as ruas esta manhã mas o sindicato alegou “falta de condições mínimas de segurança” e os autocarros voltaram a paralisar. Entre os bancos, só metade das agências do Banco do Brasil estão autorizadas a abrir as portas. Bancos como a Santander, o Bradesco e a Caixa Económica deverão manter-se encerrados. Só alguns centros comerciais estão autorizados a abrir, de forma condicionada, entre as 10 e as 16h. As repartições públicas também estão fechadas.

Ao fim de seis dias de protesto, o Sindicato da Polícia Civil registou 101 mortes violentas. Números não oficiais dão conta ainda de 400 carros roubados, dois autocarros queimados, mil lojas roubadas e saqueadas, 10 mil pessoas vítimas de furtos e roubos. A Secretaria de Estado da Segurança Pública não divulga os números oficiais. O governo fala em “sequestro do cidadão”.