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Projeto de luta contra os abusos sexuais renasce depois da eleição de Donald Trump

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O "Project Unbreakable", que dá voz às vítimas de abuso sexual, tinha sido dado por terminado em 2015. Agora renasceu - porque um homem acusado de múltiplas queixas de abuso se tornou presidente da América

"'Sssshhhh... Vais aprender a gostar.' - [Dizia] O meu pai quando eu tinha entre 9 e 11 anos. Agora, tenho 15. Nunca o confrontei", pode-se ler num dos cartazes. "'Levanta-te e limpa este mijo e esse rímel e lágrimas da cara. Pareces uma vadia. É isso que tu és: uma vadia louca que transforma a minha vida num inferno.' Disse-me o meu ex namorado, depois de me pontapear as costelas 4 vezes e de me dar socos na cabeça 8 vezes até que eu fizesse xixi nas calças, enquanto me deitava no chão, em posição fetal", lê-se noutro cartaz. "Eu disse 'não'. Mas ele disse 'sim'." Outro. "'Tu dizes que foste abusado, mas não foste, seu bebé. Talvez eu devesse tirar-te as calças e fazer-te sexo oral. Aí serias mesmo abusado', a minha mãe/abusadora." Como estes, milhares. Pessoas, de todos os géneros, idades e raças testemunham a sua história através de cartazes, onde se lê a sua verdade. Abusos sofridos pelos pais, namorados, avós, desconhecidos. As reações da família que se recusou a acreditar.

O "Project Unbreakable" (Projeto Inquebrável), no qual se podem ler estes e, infelizmente, muitos outros testemunhos, nasceu a novembro de 2011 pelas mãos da fotógrafa americana Grace Brown, que não imaginava a dimensão que o site ia ganhar. Num vídeo, a fundadora conta que, quando começou a fotografar os sobreviventes com as frases dos seus agressores, "não tinha ideia do poder que o projeto viria a ter".

"Comecei a receber centenas de emails a agradecer pelo que estava a fazer. Os sobreviventes contactavam-me, pediam-me que os fotografasse e que mostrasse a imagem deles. Comecei a perceber que tinha a possibilidade de fazer a diferença", diz, no vídeo de apresentação.

Depois de ter dado voz a sobreviventes – preferem este termo a 'vítimas' - de violência sexual durante quatro anos, o "Project Unbreakable" parou em 2015. Em janeiro deste ano, os sobreviventes voltaram a falar, porque não podem ouvir outra vez alguém que lhes diga que "ninguém tem que saber". Por baixo da primeira imagem tirada para o projeto, uma descrição que explica o motivo do 'renascimento' da página, desta vez na plataforma Instagram. "À luz do clima político que se tem vivido, o facto de um homem acusado de múltiplas queixas de violência sexual estar a tornar-se presidente dos EUA, decidi repostar algumas imagens dos 'Unbreakable'". A criadora do site encoraja também a que partilhem as próprias fotografias com a 'hashtag' #projectunbreakable.

A violência sexual é um problema global. Em 2015, em Portugal, foi reportada mais de uma violação por dia: 375, no total. Muitas, muitas outras ficam por reportar. Por falta de coragem, por medo, por vergonha e, em muitos casos, por falta de conhecimento do que é a violência sexual. "Fi-lo por amor" - a justificação dada por um abusador, tal como se vê num dos cartazes do "Project Unbreakable" - não pode continuar a ser uma desculpa.