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Hillary tinha 16 anos quando se candidatou, pela primeira vez, à Presidência

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Estávamos nos anos 60, numa altura em que se considerava "estúpido" que uma rapariga pensasse que podia ganhar. Mas era por essa altura, também, que Bob Dylan lançava The Times They are a Changing

Foto de Hillary no livro de curso da Maine East High School

Foto de Hillary no livro de curso da Maine East High School

Já se tinha entrado nos anos 60, mas ainda não chegara a loucura que acabou por marcar essa década. O espírito, em Park Ridge, Illinois, era mais tranquilo, mais anos 50. Vivia-se numa espécie de cocoon homogéneo onde as ruas, ladeadas por frondosos ulmeiros, ainda eram iluminadas por candeeiros a gás.

A família Rodham não era propriamente abastada, mas a jovem Hillary (que por casamento se tornaria Clinton) tinha um quarto só para si, com chão de madeira, paredes pintadas de amarelo e cortinas cor-de-rosa. Produto de uma educação conservadora, aprendera a tocar piano com um vizinho, jogava pingue-pongue e ia à igreja metodista, onde lhe passavam a mensagem "Be nice, don’t drink, don’t smoke, don’t say dirty words, don’t pierce your ears and don’t be contaminated by the world outside" [sê simpática, não bebas, não fumes, não digas palavras feias, não fures as orelhas e não te deixes contaminar pelo mundo exterior], relata o jornal Washington Post, recordando uma entrevista de vida a Hillary, publicada em 1993.

Hillary (segunda, à esquerda, na fila de cima) com a sua equipa de debate na campanha para a associação de estudantes

Hillary (segunda, à esquerda, na fila de cima) com a sua equipa de debate na campanha para a associação de estudantes

DR

Na escola (a Maine East High School), Hillary era vice-presidente (o equivalente subdelegada) da sua classe e a vida corria pacata, até decidir candidatar-se à presidência do conselho (ou associação) de estudantes, para o mandato que começaria no ano seguinte. Nunca uma rapariga o tinha feito. Geralmente, a presidência era disputada por rapazes. As raparigas - e apenas as mais populares - costumavam candidatar-se a não mais do que ao lugar de secretária, explicou ao jornal americano o colega de turma Tim Sheldon.

Mas nesse ano de 1964, enquanto Bob Dylan lançava o single The Times They Are a Changing, os ventos de mudança também chegavam a Park Ridge. Entre os cinco candidatos, destacavam-se duas raparigas: Hillary e Jackie Anderson. Hillary chegou a ouvir, de um colega, que tinha de ser "mesmo estúpida" se pensava que uma rapariga podia ganhar.

Não ganhou, é certo. Mas a jovem conservadora, apoiante do republicano Barry Goldwater (que concorria contra o democrata Lyndon Johnson, que em novembro viria a suceder a John F. Kennedy) ganhava fama – de alguém que, apesar de não ter carisma, estudava, se preparava, sabia debater, "tinha intelecto para ganhar um debate de ideias", refere o jornal americano. “Era a pessoa mais brilhante que alguma vez conheci e ainda acredito nisso”, diz Howard Primer, com quem simulou um debate perante uma plateia de alunos.

O ano de 1964 passou, mas os tempos de mudança ficaram. Park Ridge deixou de ser a cidade onde uma rapariga nunca tinha sido eleita presidente da associação de estudantes, para passar a ser aquela onde uma rapariga sabia que já podia concorrer.