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Pode o Reino Unido sair “à bruta” da União Europeia? Pode, mas não é a mesma coisa

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Theresa May, durante o seu discurso, na recente conferência do Partido Conservador

Carl Court / GettyImages

A primeira-ministra britânica garante que vai ativar o artigo 50 do Tratado de Lisboa até finais de março de 2017. Se o fizer começa a contagem decrescente de dois anos para a saída do Reino Unido da União Europeia. Mas isso parece mais fácil de dizer do que de cumprir. Para já, o que segue mesmo à bruta é o tom dos discursos do governo e as respostas da oposição sobre as medidas que Theresa May quer adotar para controlar a imigração.

"Nojento, xenófobo, repelente". Em grandes parangonas, o jornal escocês The National desta quinta-feira (6) não poupou adjetivos na análise ao discurso da primeira-ministra britânica na conferência anual do partido conservador, esta semana. Por baixo das palavras fortes ainda sobrou espaço na primeira página para um recado, em nome dos escoceses: "Nós não queremos ter nada a ver com a visão de Theresa May sobre o Reino Unido".

Afinal, o que May defende, e a sua secretária do Interior, Amber Rudd, já veio mesmo apresentar, são medidas para limitar significativamente o número de autorizações de residência para estrangeiros que pretendam imigrar para o país para estudar ou trabalhar. Além disso quer que as empresas britânicas sejam obrigadas a divulgar o número de trabalhadores estrangeiros que empregam. O objetivo do governo é reduzir drasticamente o número de 327 mil novos residentes que o país atingiu no ano passado. "Não vamos sair da UE para voltar a perder o controlo sobre a nossa imigração", afirmou Theresa May.

Da Escócia não foi apenas o The National que reagiu com dureza. Nicola Sturgeon, a primeira-ministra, afirmou que a visão de May do Brexit "é horrorosa, um país onde as pessoas são julgadas não pelas suas capacidades ou a sua contribuição para o bem comum mas pelo seu local de nascimento ou pelo passaporte".

Mas de Inglaterra também houve reações duras. Jeremy Corbyn, o líder do partido Trabalhista, acusou May de xenofobia e de "tentar culpar os imigrantes pelos seus próprios falhanços".

Tida por muitos especialistas como decisiva para o referendo que ditou a saída do Reino Unido da UE, a questão dos imigrantes é, contudo, apenas uma das que domina a discussão política. A data, os moldes em que a saída será feita e a relação posterior do país com a UE suscitam grandes preocupações políticas e económicas, com diversas empresas, nomeadamente do setor automóvel, como a Nissan, a Toyota e a Jaguar-Land Rover a ameaçarem esta semana rever os seus investimentos em solo britânico, e com a libra a cair para mínimos de há 31 anos, face ao dólar. Enquanto diversas vozes, como a do presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, instam a chefe do governo a iniciar rapidamente o divórcio, há muitas dúvidas sobre o modelo que será adotado.

"Este dilema de não querer estar na UE e só querer acesso ao mercado único vai ser difícil de dirimir em dois anos", antevê Bernardo Pires de Lima, em declarações à VISÃO. Depois, prossegue o investigador do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI), "o Reino Unido precisa de ser aceite na Organização Mundial do Comércio porque só lá está via UE. E para chegar a esses acordos é preciso capacidade negocial que o país não tem. Não há experiência nessa matéria porque nestes cerca de 40 anos isso era competência da união".

Para Bernardo Pires de Lima "há claramente uma agenda de setores do partido Conservador que se está a impor e a afastar qualquer discurso ao centro". Pires de Lima recorda que a primeira-ministra não é herdeira de qualquer euro-entusiasmo. Recordando que "ela não fez campanha pelo Brexit mas também não a fez pela permanência".

Curioso é que, com o líder dos trabalhistas, Jeremy Corbyn, a ser acusado, mesmo dentro do próprio partido, de ter posições radicais de esquerda, os conservadores aproximam cada vez mais o seu discurso das posições dos nacionalistas do UKIP o que deixa cada vez mais um vazio ao centro.