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O português que anda a ajudar a tramar Guterres

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O nome mais forte para derrotar António Guterres na corrida a secretário-geral da ONU é Kristalina Georgieva. E é em português que se tem preparado o avanço da búlgara: Mário David, ex-secretário de Estado de Santana Lopes

António Pedro Ferreira

Foi eurodeputado do PSD. Secretário de Estado dos Assuntos Europeus. Vice-presidente do PPE. E agora: vice-presidente da Internacional Democrata do Centro (IDC), de que faz parte o PSD. Mário David é o rosto português por trás da candidatura de Kristalina Georgieva à ONU. É ele um dos obreiros da preparação da corrida da comissária europeia ao lugar que António Guterres anda a lutar para conseguir: secretário geral das Nações Unidas.

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David está há mais de dois anos a trabalhar nos apoios a Kristalina e não desistiu, nem mesmo quando a Rússia condenou publicamente as tentativas da Alemanha de influenciar a corrida ao cargo. Soube-se então que Angela Merkel tentou convencer Vladimir Putin a apoiar a candidatura da búlgara Kristalina Georgieva, vice-presidente da Comissão Europeia responsável pelo orçamento e recursos humanos, em detrimento de Irina Bokova, o nome que a Bulgária tinha escolhido para disputar o cargo máximo da ONU.Tendo a Rússia poder de veto no Conselho de Segurança da ONU, o apoio de Putin a qualquer nome é essencial.

Com a sinalização da Rússia do desconforto em relação às movimentações para trocar a candidata, o governo da Bulgária veio confirmar que mantinha a diretora-geral da Unesco, Irina Bokova na corrida. Mas avisou: “se após o dia 26 não for a primeira ou a segunda, não existirá forma de prosseguir e em conjunto iremos ver o que fazer".

E após dia 26, data da quinta votação, António Guterres voltou a ser o preferido e Irina caiu para sexto lugar. Era o resultado que faltava para Mário David bater palmas e ter a certeza de que governo de Sofia iria fazer a troca. Mesmo que a Rússia não concorde com o seu nome, o apoio da Alemanha é igualmente importante. Apesar de os germânicos nem sequer fazerem parte do Conselho de Segurança, com Putin e Merkel em rota de colisão, algum terá que perder no fim ou ceder.

Kristalina diz que é "implacável"

Hoje, a Bulgária oficializou o que já se antecipava: Kristalina Georgieva é candidata ao cargo de secretário-geral da ONU, anunciou o primeiro-ministro Boiko Borissov.

Kristalina já está publicamente em campanha e esta manhã disse ao site politico.eu, que deve ser eleita porque “ olho para o mundo em toda a sua complexidade. Tenho a habilidade de ver como as coisas se ligam”. E acredita que é melhor que Guterres para ocupar o cargo máximo da ONU porque é “implacável”.

Fonte próxima da candidatura já garantiu à VISÃO que além do apoio da Alemanha e da Bulgária, Kristalina já garantiu também o apoio da Hungria, Polónia, Letónia e Albânia, entre outros. O avanço inicial de Irina Bokova terá mesmo feito parte da estratégia do governo da Bulgária, que por questões internas preferiu não retirar força ao poder que Kristalina tem na Comissão Europeia.

O nome da comissária búlgara é o maior obstáculo para António Guterres. Além do apoio importante da Alemanha, Kristalina é uma figura muito mais próxima do perfil inicial que se tem antecipado para a nova liderança da ONU: é mulher e vem do leste europeu.

O papel de Juncker

E estará Juncker confortável com a candidatura da sua comissária?

O seu chefe de gabinete, Martin Selmayr, não se coibiu de nas últimas semanas ter quebrado a tradicional neutralidade da instituição num tweet para dizer que seria “uma grande perda para a Comissão, mas Kristalina será uma Secretária geral forte e deixará orgulhosos muitos europeus”.

Ao que a VISÃO apurou, o chefe de gabinete do presidente da Comissão Europeia não terá exposto este sentimento de forma tão pública sem que para isso tenha sido influenciado e instado a fazê-lo. Seja como for, a Comissão Europeia manifestou total solidariedade com aquela que fosse a decisão da Bulgária.

Para já, Jean-Claude Juncker aceitou o pedido de licença sem vencimento apresentado por Kristalina, que suspenderá as funções em Bruxelas durante o mês de outubro. Esta manhã, o porta-voz do executivo comunitário Margaritis Schinas adiantou ainda que "durante este período, Kristalina Georgieva e a Comissão Europeia vão garantir uma estrita separação entre as atividades relacionadas com a sua candidatura e o seu trabalho enquanto membro da Comissão Europeia, de forma transparente".

Enquanto estiver ausente, será o comissário alemão Gunther Oettinger a assumir as pastas do Orçamento e Recursos Humanos, que são da competência de Kristalina.

Em Junho, já se escrevia que Georgieva abordara Juncker sobre a possibilidade de ser candidata. "Posso confirmar que, na verdade, o presidente e a vice-presidente Georgieva discutiram a possibilidade de que essa questão possa aparecer", disse então a porta-voz de Juncker, salientando a "grande admiração" que o presidente tem pelo perfil da sua atual comissária. "O presidente tem uma grande admiração pela experiência internacional, capacidade de negociação e a capacidade de trabalho da senhora Georgieva, especialmente nestes tempos da crise de refugiados, em que ela organiza, a toda a hora, o orçamento necessário para que possamos gerir a crise de refugiados", adiantou.

Esta “manobra” para lançar Kristalina tem sido muito atacada pelos críticos. Mas fonte próxima da comissária lembrou à VISÃO que “as regras” permitem que esta candidatura surja apenas agora, já com cinco votações informais concluídas.

Para a semana será o teste de fogo: os membros permanentes do conselho, que têm poder de veto sobre os candidatos, terão os seus votos destacados.