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Adeus, senhora Merkel?

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© Fabrizio Bensch / Reuters

A mulher mais poderosa do mundo está em apuros e continua sem anunciar qual o seu futuro. A humilhante e histórica derrota do seu partido nas eleições regionais de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental é a prova de que Angela Merkel já não consegue fazer milagres na Alemanha. Irá a chanceler afastar-se do poder ou lutar por um quarto mandato até 2021?

No outono de 1990, uma ilustre desconhecida faz pela primeira vez na sua vida campanha eleitoral. Com 36 anos e uma estranha franjinha loura que não chega a tocar-lhe os olhos azuis, esta doutorada em Física Quântica tem por objetivo conquistar um lugar no parlamento federal da Alemanha. As legislativas agendadas para 2 de dezembro desse ano são um escrutínio histórico: é a primeira vez que os alemães, todos os alemães, votam em conjunto e em liberdade desde 1933. O Muro de Berlim e a antiga República Democrática Alemã (RDA) implodiram e Angela Dorothea Merkel joga o seu futuro político e profissional numa das regiões mais deprimidas e despovoadas do país: Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental – ou Meck-Pomm, como também se abrevia este Land (estado) que faz fronteira a leste com a Polónia e é banhado a norte pelo Báltico. O resultado da candidata da CDU, o partido conservador liderado pelo então chanceler Helmut Kohl, dificilmente poderia ser melhor: 38,3%, com uma vantagem superior a dez pontos percentuais sobre o segundo classificado, os sociais-democratas do SPD.

Há 26 anos que Meck-Pomm é o círculo eleitoral de Angela Merkel e é também por isso que a primeira mulher a chefiar um governo germânico (em 2005) diz ter um carinho especial por aqueles que lhe deram o privilégio de os representar diretamente no Bundestag, o parlamento federal. No entanto, foram esses mesmos eleitores que decidiram humilhá-la no domingo, 4 de setembro, nas eleições do Land. A CDU obteve apenas 19% dos votos e, algo nunca visto, ficou em terceiro lugar atrás do SPD (30,6%) e ainda dos populistas xenófobos da Alternativa para a Alemanha (AfD), que alcançaram uns surpreendentes 20,8%. O mais provável é que o governo regional de coligação, entre sociais-democratas e cristãos-democratas, se mantenha mas a ascensão deste movimento antieuropeísta e assumidamente islamofóbico foi logo interpretada como uma derrota sem precedentes para a mulher que a revista Forbes classifica como a mais poderosa do mundo.

Nada visto desde Hitler

“Estamos a fazer História. Este é talvez o princípio do fim da liderança de Angela Merkel”, afirmou Leif Eric Holm, antigo radialista e cabeça de lista da AfD, mal foi conhecido o veredito das urnas. A líder e porta-voz do partido, Frauke Petry, insistiu nessa mensagem e promete cerrar fileiras para que, em setembro de 2017, quando se realizam as próximas legislativas federais, ela e os seus camaradas se tornem uma força incontornável a nível nacional. As sondagens indicam que a AfD pode converter-se no terceiro maior partido da Alemanha e o primeiro de extrema-direita a entrar no Bundestag desde a queda de Hitler. Um desempenho notável se tivermos em conta que essa força política tem apenas três anos de existência e já cometeu a proeza de conquistar dois lugares no Parlamento Europeu e eleger deputados em nove dos 16 estados da república federal. E este domingo, 18, é a vez de mostrar o que vale na cidade-estado que é também a capital do país, Berlim. Caso confirme as intenções de voto que rondam os 15%, a CDU e os demais partidos tradicionais têm um sério problema pela frente.

Uma coisa é Meck-Pomm, uma região ainda marcada pela herança da RDA, com uma taxa de desemprego que quase duplica a média nacional apesar dos emigrantes serem menos de 4% e cuja população se sente discriminada pelo poder central e admite uma certa nostalgia pelos tempos do comunismo. Outra bem diferente é Berlim, uma metrópole que o século XXI converteu num íman de ideias progressistas e culturas alternativas, onde ecologistas e até adeptos do Partido Pirata costumam ficar representados.

O historiador e ensaísta francês Jean-Louis Thiériot, num texto que assinou no diário Le Figaro, fez uma interpretação desconcertante da votação de há duas semanas: “A AfD pode agora apresentar-se como uma verdadeira alternativa de direita (…) mas a maioria dos seus votos é de esquerda.” As suas contas fazem todo o sentido: as perdas totais dos partidos de centro-esquerda, face ao escrutínio de 2011, somam quase 15%. Por outro lado, roubou quatro pontos à CDU e ainda se apropriou dos simpatizantes neonazis do NPD que ficaram arredados do hemiciclo regional por ficarem abaixo da fasquia dos 5%. Tudo isto numa ida às urnas em que a taxa de participação passou de 51 para 61 por cento. Perante um cenário destes, Angela Merkel não poderia ficar indiferente. Dias depois, quando ainda participava na cimeira do G-20, na China, a chanceler fez questão de assumir todas as responsabilidades: “Vamos ter de pensar muito bem como podemos recuperar a confiança das pessoas. A começar por mim, claro. Sou eu a secretária-geral do partido, sou eu a chanceler.”

A “Mãezinha” perdeu o controlo

A história prega partidas a toda a gente e a eleição de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental ocorreu exatamente um ano depois de Angela Merkel anunciar aos seus compatriotas a abertura das fronteiras do país aos refugiados. A 4 de setembro de 2015, invocando “motivos humanitários”, ela permitiu que dezenas de milhares de pessoas que se acumulavam na estação ferroviária de Budapeste, e ao longo da denominada rota dos Balcãs, viajassem rumo à Alemanha através de território austríaco. Um êxodo que fez com que a Alemanha recebesse um milhão de pedidos de asilo o ano transato e perto de 300 mil desde janeiro último. Uma situação que a maioria dos alemães deixou de aceitar de ânimo leve, por considerarem que o Governo de Berlim foi longe e generoso de mais.

O que se reflete de forma clara nos índices de popularidade da chanceler, os mais baixos dos últimos cinco anos. Boa parte da opinião pública entende que a governante muitas vezes tratada por “Mutti” (mãezinha) deixou de ser capaz de liderar a Alemanha e se enganou há um ano quando afirmou “Wir schaffen das” (vamos conseguir), para defender a sua política de acolhimento e a entrada maciça de emigrantes. Agora, multiplicam-se os que, como a AfD e Leif Eric Holm, já falam da necessidade de defender a “civilização alemã” para impedir que o país se torne um “califado” ou uma “coutada do Daesh”, em que a sharia, a burqa e os atentados terroristas fazem parte integrante do quotidiano. Aliás, as vozes críticas já surgem de todo o espetro político. “O sentimento do cidadãos não pode ser ignorado por mais tempo”, afirmou o ministro das Finanças da Baviera, Markus Söder, um dos falcões da CSU, braço político da CDU na região mais rica do país. E a verdade é que apenas 42% dos alemães se mostra favorável a que Angela Merkel se mantenha no poder e concorra a um quarto mandato.

Por enquanto, ela trata o assunto como tabu e só em dezembro, quando se realiza o Congresso da CDU, deverá anunciar se vai ou não apresentar-se à legislativas do próximo ano. Caso faça e vença, pode governar até 2021 – um cenário bem verosímil dada a ausência de alternativas credíveis e personalidades dispostas a enfrentá-la. No entanto, como gosta de dizer Jens Spahn, glosando o antigo chanceler Konrad Adenauer, “às vezes temos de ser muito impopulares antes de sermos levados a sério”. Uma frase que faz ainda mais sentido se lhe juntarmos uma outra, da autoria de Wolfgang Schäuble, o homem que tutela as finanças alemãs: “Angela Merkel tem uma forte sede de poder e a paciência é uma das suas grandes forças.” Talvez a revista The Economist esteja certa quando alerta para os perigos da entrada da AfD no parlamento federal em 2017. E, claro está, que a falta de confiança em Angela Merkel tenha “consequências históricas” para todos nós.