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Escrevia discursos para Durão Barroso mas tinha de passar os rascunhos por baixo da porta

Mundo

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Ryan Heath diz ter vivido uma experiência desastrosa a trabalhar para o então presidente da Comissão Europeia. E, depois de lhe ter entupido a banheira, nunca mais o português lhe falou

Rui Antunes

Rui Antunes

Jornalista

Ryan Heath

Ryan Heath

A experiência de Ryan Heath na equipa que escrevia os discursos de Durão Barroso na Comissão Europeia (CE) foi "um desastre absoluto", nas palavras do próprio. E acabou de forma insólita: por azar, numa passagem por Singapura em 2011, o ex-funcionário público britânico entupiu a banheira da suíte VIP do então presidente da CE. Foi a gota de água para uma relação que esteve sempre longe de ser a ideal para alguém que pretende transmitir mensagens e mal fala com o homem contratado para o ajudar nas palavras.

Num artigo publicado no jornal Politico, o correspondente na Europa Ryan Heath relata os dias de ostracismo que viveu ao lado de Durão Barroso, em 2011. "O que ele desejava – se é que o disse a alguém - nunca me foi comunicado", escreve o britânico, sustentando a sua ideia com alguns episódios rocambolescos. Como aquele na Austrália em que a caravana de veículos da Comissão Europeia se esqueceu dele, depois de um discurso de Durão Barroso num casino, e o obrigou a regressar sozinho ao hotel, "com os papéis descartados do discurso na mão".

Conta Ryan Heath que Durão dava pouca importância à preparação do que ia dizer e raramente trocava impressões com a equipa encarregada de o aconselhar na oratória. Para contrariar essa tendência, os conselheiros do líder da CE tinham sugerido que Heath o acompanhasse na viagem à Austrália e Nova Zelândia. Mas o diálogo nunca existiu. "Barroso tinha pouco tempo para mim. Ficou sozinho na cabina de primeira-classe, relegou-me para o último carro da comitiva e obrigou-me a pedir aos seguranças para passar os rascunhos dos discursos por baixo da porta no hotel." Uma grande dúvida assaltou o britânico após a visita à Oceânia: "Ou Durão Barroso ignorava-me intencionalmente ou não parecia saber o que eu estava ali a fazer."

Numa outra ocasião, no aeroporto de Singapura, o colaborador da CE encheu-se de coragem e tentou abordar diretamente o superior hierárquico para acertar detalhes de um discurso. "Mas ele não quis falar comigo", descreve Heath no seu artigo. "Em vez disso, pediu-me para pesquisar sobre ligações da família dele a uma região de vinhos na Austrália chamada Barossa Valley." Nada a declarar.

Já muito havia a dizer sobre o estado em que Durão Barroso encontrou a suíte VIP onde o instalaram, depois de uma reunião com o primeiro-ministro de Singapura noutro local do mesmo hotel. Ryan Heath foi deixado para trás, sozinho, e decidiu "tomar um banho depois de 12 horas de voo desde a Europa". Azar completo: a banheira entupiu e os funcionários do hotel não conseguiram resolver o problema antes de Durão Barroso regressar.

"Durante quatro meses, vi pessoas a entrar e sair do grupo que escrevia os discursos. Desta vez, foi a minha vez de ser desconvidado. Voltei para Bruxelas de mãos vazias e Barroso nunca mais me falou", conta o homem que diz ter-se sentido a "escrever para uma caixa negra" durante a sua experiência com o político português. Passou a estar confinado ao seu gabinete, a escrever tweets sobre os discursos, até abandonar funções.