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Hong Kong: líderes da "revolução dos chapéus de chuva" chegam pela primeira vez ao parlamento

Mundo

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© Bobby Yip / Reuters

Os líderes do movimento que durante dois meses, em 2014, paralisou quarteirões inteiros de Hong Kong, foram eleitos pela primeira vez para o Conselho Legislativo daquele pedaço do território chinês, Na agenda, levam um referendo à independência

Ativistas que em 2014 confrontaram o governo de Pequim nas ruas de Hong Kong, numa manifestação pacífica que ficou conhecida como “revolução dos chapéus de chuva”, foram eleitos pela primeira vez para o Conselho Legislativo (Parlamento) daquela região autónoma especial da China. Os resultados provisórios das eleições legislativas, realizadas no domingo, apontam para a eleição de pelo menos quatro desses ativistas que, há dois anos, rejeitaram a premissa de “um País, dois sistemas” que em 1997 norteou a transferência de Hong Kong para a China. Em 1999, seguiu-se Macau.

A eleição destes jovens, ligados ao movimento internacional Occupy, é lida pelos media ocidentais como uma forma de protesto contra o reforço do poder de Pequim nos domínios político, cultural e educativo. Mais de 2,2 milhões de eleitores votaram pela noite dentro para eleger os seus representantes no futuro parlamento da região, ao qual se candidataram, pela primeira vez, cidadãos que defendem a independência do território. Em consequência desta participação recorde, próxima dos 60% do eleitorado, a votação prolongou-se até à madrugada de segunda-feira.

De acordo com os resultados provisórios, pelo menos quatro ativistas terão sido eleitos. Entre eles, está Nathan Law, 23 anos, que a par de Joshua Wong foi uma das principais figuras da “revolução dos chapéus de chuva” que durante dois meses paralisou quarteirões inteiros de Hong Kong. O movimento Demosisto, pelo qual se candidatou, defende a realização de um referendo sobre a independência, insistindo no direito à livre escolha. “Os habitantes de Hong Kong querem a mudança. Os jovens têm um sentimento de urgência no que respeita ao seu futuro”, disse o ativista em campanha.

Na noite eleitoral, Law estava visivelmente satisfeito com a sua eleição, por 50 mil votos. “Penso que é um milagre”, disse aos repórteres. “Isto é absolutamente inesperado – ninguém imaginava que acontecesse. A nossa equipa trabalhou e suou de dia e de noite para transformar uma derrota numa vitória”, acrescentou.

Nathan Law deverá chegar ao parlamento na companhia de Yan Wai-ching, 25 anos, e de Sixtus “Baggio” Leung, 30 anos, ambos do recém fundado partido Youngspiration, que defende igualmente a independência. Cheng Chung-tai, 33 anos, membro do Civic Passion também foi eleito. Espera-se que contagem final dos votos permita eleger mais alguns ativistas para além destes quatro.

Segundo o diário francês Le Monde, Hong Kong está cada dia mais dividido entre os jovens que lutam pela independência e os mais velhos que defendem a autodeterminação do território que em 1997 foi entregue pelos britânicos à China. Para um analista local, Joseph Cheng, “estas eleições caracterizam-se em larga medida pela mudança geracional dos dirigentes políticos.”

Os resultados provisórios sugerem que a oposição democrática tradicional vai conservar a sua minoria de bloqueio, já que o complexo sistema eleitoral de Hong Kong torna praticamente impossível uma maioria. Apenas 35 dos 70 membros do Conselho Legislativo são eleitos por sufrágio universal direto, sendo a outra metade dos lugares atribuída a políticos pró-Pequim.

Mas nem todos partilham do entusiasmo dos jovens eleitos pela primeira vez. “Estou preocupado”, disse ao jornal inglês The Guardian o advogado e membro dos democratas Albert Ho, para quem “os democratas moderados estão numa posição muito difícil”. Embora compreendendo as aspirações dos jovens, privados do direito à livre escolha do seu futuro, aquele político veterano alerta para os efeitos desta fragmentação dos movimentos democratas, temendo ao mesmo tempo uma resposta musculada do autoritário regime chinês.

Em 2014, a "revolução dos guarda-chuvas" paralisou durante meses o centro de Hong Kong

Em 2014, a "revolução dos guarda-chuvas" paralisou durante meses o centro de Hong Kong

Paula Bronstein / GettyImages