Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Afogaram-se 423 crianças no Mediterrâneo desde a morte de Aylan

Mundo

  • 333

As lágrimas pelo pequeno Aylan, que morreu há um ano, foram de crocodilo. Outras 423 crianças refugiadas afogaram-se, entretanto, no Mediterrâneo. Pouco ou nada mudou

STRINGER/TURKEY

Muitos já terão esquecido este nome: Aylan Kurdi. Mas a imagem captada pela fotógrafa turca Nilüfer Demir, deve ter ficado incrustada na memória da maioria dos consumidores de informação. Mostra o cadáver de um menino de três anos que deu à costa numa praia da Turquia. Já se lembra?

Fez esta sexta-feira, dia 2, exatamente um ano que Aylan Kurdi, natural de Kobane, no Curdistão sírio morreu.

A objetiva de Nilüfer Demir imortalizou-o, despertando as (más) consciências europeias para um problema premente: o dos refugiados, vítimas das guerras no Médio Oriente. O problema é que a memória é curta e a catástrofe humanitária mantém-se praticamente inalterada.

Um ano depois, a imagem de Aylan morto pode continua a comover. Mas mais chocante é pensar que a sua morte pode ter sido em vão. Um sinal de alarme demasiado fraco para mexer com as consciências dos poderosos do mundo. É que, desde que a morte de Aylan, outras 423 crianças afogaram-se no Mediterrâneo na tentativa de encontrarem paz na Europa.

A situação é tal que a organização não governamental norte-americana Save the Children fala em crises de refugiados infantis.

Segundo os dados mais recentes da Save the Children, desde 2015 terão chegado à Europa mais de 1,2 milhões de refugiados – a maior vaga de migração forçada desde a Segunda Guerra Mundial.

Os bombardeamentos, os tiros e a tortura forçam milhões de sírios, sudaneses, afegãos, somalis e eritreus, entre outros, a fazerem o perigosos caminho pelo mar ou por terra rumo à pacífica e próspera Europa. Desde 2015 morreram ou desapareceram 6.656 pessoas nessa tentativa.

Desde o acordo entre a União Europeia e a Turquia – contenção da vaga de refugiados em troco de dinheiro e concessões políticas, a verdade é que milhares de crianças, muitas delas desacompanhadas, fugindo de zonas de guerra acabam por ser acolhidos em autênticos campos de detenção, onde têm de viver em condições sub-humanas durante períodos prolongados. Muitas delas acabam por desaparecer e por ser vítimas das redes de tráfico de órgãos e de prostituição infantil, conforme a Europol, organismo europeu de polícia criminal, já denunciava em janeiro deste ano.