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"Esperar que a Goldman Sachs seja um bastião da ética é para lá de risível"

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William D. Cohan, autor de um dos livros mais reveladores sobre a história da Goldman Sachs, em entrevista à VISÃO

William D. Cohan é autor de Money and Power: How Goldman Sachs Came to Rule the World, um dos melhores livros sobre a história da Goldman Sachs. Em entrevista à VISÃO, traçou o perfil da instituição desde a sua fundação e falou da escolha de Durão Barroso. (Leia aqui toda a reportagem sobre o banco)

A Goldman Sachs (GS) manda realmente no mundo, como diz no pós-título do seu livro?

Bom, isso é uma boa metáfora para o facto de a Goldman ser incrivelmente poderosa e influente. Este é o banco de investimento líder do mundo e talvez até a mais importante instituição financeira global, embora não seja a maior. A GS é a empresa mais “esperta” de Wall Street, que sempre abriu caminhos e conseguiu atrair as pessoas melhores e mais inteligentes. Tudo isto faz dela a instituição financeira com mais prestígio.

Já tinha escrito um livro sobre a Bear Stearns. Quais as diferenças que encontrou entre as duas instituições?

Não podiam ser mais diferentes em termos de background e cultura corporativa. As pessoas tendem a falar em Wall Street como algo monolítico, mas não é verdade. Tem uma cultura própria fortíssima, prefere atrair jovens e moldá-los à sua maneira, tem um sistema de gestão de risco implacável o que lhe permitiu sobreviver a vários momentos críticos. E, acima de tudo, a Goldman sabe como ninguém fazer dinheiro em bons e maus momentos.

Como classificaria os valores morais da Goldman Sachs? Pode-se sequer falar de ética em Wall Street?

Moralidade? Moralidade… em Finanças e em Wall Street?! Estas não são instituições de caridade, a Goldman não é a Madre Teresa. Falar de ética é muito bonito, mas estas empresas existem para maximizar os seus lucros para os seus acionistas. Há empresas morais? Sim, pode haver meia dúzia, mas falar de moralidade numa grande empresa financeira pública é ridículo. A Goldman tem sido vilipendiada desde a crise do subprime, mas esperar que seja um bastião da ética é para lá de risível.

Mas essas críticas foram injustas?

Não injustas, mas ingénuas. É evidente que o seu comportamento não foi apropriado. É claro que a GS não devia estar a vender obrigações hipotecárias a partir do momento que decidiram começar a apostar contra o mercado hipotecário, o que aconteceu em dezembro de 2006. O que fizeram foi inteligente e correu-lhes bem, embora tenha corrido mal para o mundo.

Como viu o papel da Goldman durante a crise do subprime?

Houve muito mau comportamento, da Goldman e de muitas outras empresas, durante a crise financeira. Muita gente devia ter sido acusada e posta na prisão por causa desse comportamento mas, por razões que são um mistério para mim, o Departamento de Justiça de Obama decidiu não o fazer. Não se fez justiça, e decidiram aplicar multas enormes a estes bancos à custa dos seus acionistas. Neste processo, a GS transformou-se numa espécie de poster do mau comportamento porque são o alvo mais fácil: são os mais arrogantes e os mais inteligentes. Detesto estar na posição de ter de defender a GS, mas ela virou o saco de pancada porque deu jeito ao governo ter um bode expiatório.

A regulação fez o papel que lhe compete?

Todo o sistema está desenhado para encorajar a especulação. A regulação está focada nas coisas erradas: se quiserem mudar o comportamento de Wall Street, é preciso mudar a forma como aqueles senhores são remunerados e recompensados. Pedem-lhes para assumir grandes riscos com dinheiro alheio, e é isso que eles fazem.

Como viu a nomeação de Durão Barroso para chairman?

Há muito tempo que a Goldman recruta os oficiais públicos de primeira linha para os seus quadros – há, desde os anos 60, uma porta giratória entre a Goldman e os lugares de destaque políticos. Não é ilegal. Será ético e moral? Não sei… Provavelmente, o crime não é o que é ilegal, mas sim o que é legal. Não o conheço bem, mas é claro que não vai mudar nada na cultura da empresa. Vai fazer aquilo para que é pago: ter um papel cerimonial, abrir portas e dar opinião sobre o que se passa na Europa. Mais nada.

A propósito da porta giratória: o que pensa das teorias de conspiração que dizem que a Goldman mete ex-funcionários nos sítios certos para influenciar a seu favor as decisões? Como Hank Paulson que foi para secretário do Tesouro depois de sair de CEO da Goldman?

Não acredito nisso. É fácil e divertido tirar esse tipo de conclusões, mas não fazem sentido. Nem imagino o que seria de nós hoje se durante a crise financeira ainda estivesse John Snow na secretaria do Tesouro, que não percebia rigorosamente nada de como Wall Street funcionava. É muito fácil criticar a posteriori, mas dá para imaginar o que foram aqueles dias? Nem acredito que Paulson tenha beneficiado a Goldman. O seu grande erro foi não ter deixado cair a Bear Stearns logo no início. Mas é fácil falar olhando para o retrovisor…

Acredita que a Goldman tem um tratamento especial dentro da Reserva Federal (Fed)?

Acho que é preciso lembrar uma coisa que toda a gente se esquece: a Fed não trabalha para o povo americano! A Fed foi criada pelos bancos para servir os bancos. O que seria de esperar?

Está a dizer que a Fed não é independente nem isenta nas suas decisões de supervisão e regulação?

Não, nunca foi independente, desde a sua criação em 1913. Esta ideia de independência de entidade pública foi uma pátina que o Congresso lhe passou por cima, mas na verdade não é. É tudo uma ficção e uma miragem. De vez em quando a regulação funciona devidamente, mas na maioria das vezes funciona no interesse de Wall Street. A América está construída com base no capitalismo e Wall Street é o seu ventrículo esquerdo. Se a entupirmos como se está a fazer agora, é como entupir o ventrículo esquerdo do capitalismo.

O problema não é Wall Street, mas o capitalismo.

Sim, é mesmo isso. Mas é nele que vivemos, até se encontrar algo melhor.