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Revolução Cultural chinesa começou há 50 anos

Mundo

O ditador chinês Mao Tsé-tung lançou há extamente 50 anos as bases para a sua Revolução Cultural – eufemismo para um reino de terror que durou dez anos e fez três milhões de mortos, além de outras 30 milhões de outras vítimas.

No início da segunda metade da década de 60 Mao Tsé-Tung era um homem agastado. O grande herói da revolução chinesa de 1949 tinha sido afastado do poder e remetido para uma função quase simbólica. O seu Grande Salto em Frente, programa económico com o qual quis, a partir de 1958, transformar a China comunista num Estado industrializado moderno, revelara-se um estrondoso salto para o abismo. Nos anos seguintes, milhões de pessoas morreram à fome e o líder chinês teve de renunciar à presidência da República Popular da China (RPC). No inicio da década seguinte, já muitas das medidas económicas decididas por ele haviam sido revertidas por iniciativa do novo presidente Liu Sahoqui e um grupo de dirigentes pragmáticos do Partido Comunista Chinês (PCC).

Com o seu prestígio cada vez mais reduzido, Mao terá, segundo os seus biógrafos, adotado um estilo de vida decadente e excêntrico, à medida que outros começaram a gerir assuntos que antes eram coutadas suas. Homens como Liu, Peng Duhuai, Zhou Enlai e Deng Xiaoping encarregaram-se da administração do Estado e da burocracia.

Afastado do processo decisório, Mao dedicou-se ao pensamento. Dando contributos para a teoria social marxista-leninista, desenvolveu, entre outras, a ideia da “revolução contínua” – a ferramenta ideológica que iria ajudá-lo na intriga palaciana para, num contra-ataque, recuperar o seu prestígio pessoal e impor ao partido a sua versão do comunismo.

O dia do seu regresso à ribalta seria o de 16 de maio de 1966. O Politburo do partido reunira-se, em Pequim, para uma assembleia alargada. Mas ao contrário de outras sessões, habitualmente dominadas por discussões sobre políticas concretas, esta viu-se carregada de retórica maoista sobre a luta de classes e de acusações meticulosamente preparadas contra dirigentes do partido.

Com redação supervisionada pessoalmente por Mao, um dos textos apresentados nesse debate ficaria para a história como “a notificação de 16 de maio”. Nele resume-se a justificação ideológica para a Revolução Cultural (ou a Grande revolução Cultural Proletária, no jargão maoista). O documento fala em "inimigos de classe" infiltrados no partido que “agitam a bandeira vermelha para se oporem a ela”.

“Aqueles representantes da burguesia que se infiltraram no partido, no governo, no Exército e nas várias esferas da cultura são um punhado de revisionistas contra-revolucionários. Uma vez amadurecidas as condições, vão tomar o poder político e transformar a ditadura do proletariado numa ditadura da burguesia. Já desmascarámos alguns deles, outros ainda não. Em alguns ainda depositamos confiança e estão a ser treinados como nossos sucessores. São pessoas como [o líder soviético] Khruchev, que ainda de abrigam entre nós.”

E a única maneira de identificar essas pessoas seria “através do telescópio e microscópio do pensamento de Mao Tsé-Tung. Embora o documento não tenha agradado a muitos elementos do politburo, acabou por ser quase unanimemente apoiado pela liderança. Estava dado o mote para a Revolução Cultural, que haveria de dominar a vida política chinesa durante a década seguinte, até 1976, ano da morte de Mao.

Para o líder comunista chinês, a revolução teria de ser um processo permanente e mantida viva através de uma luta de classes perpétua. Os inimigos ocultos no seio do partido e nos círculos intelectuais teriam de ser identificados e afastados. A revolução cultural teria de tocar a alma do povo e atacar os “quatro velhos” – velhas ideias, velha cultura, velhos costumes e velhos hábitos. Só assim se poderia alinhar a educação, a arte e a literatura com a ideologia comunista. Tudo o que fosse suspeito de ser feudal ou burguês teria de ser destruído.

Nos meses seguintes, encerraram-se as escolas e criaram-se os Guardas Vermelhos – uma milícia paramilitar de jovens maoistas que chegou a ter um poder desmesurado. Mao instigava os jovens a atacarem os valores tradicionais e tudo o que fosse burguês, além de testarem a lealdade dos quadros do partido criticando-os publicamente.

A escalada foi vertiginosa. Pessoas mais velhas, intelectuais e professores, entre outras, eram atacadas verbalmente, humilhadas publicamente, detidos e torturados. Bens culturais milenares foram destruídos e milhares de livros queimados.

As matanças em massa constituíram um dos fenómenos mais marcantes da revolução cultural. Umas, incentivadas pelo governo, consistiam em humilhar publicamente as vítimas entregando-as à turba para serem linchadas ou obrigando-as a suicidarem-se em público; houve ataques do Exército ou milícias contra civis desarmados; limpezas de “inimigos de classe” dirigidas por forças de segurança, líderes locais ou milícias; execuções sumárias e mortes por “acidente” durante interrogatórios envolvendo técnicas de tortura.

Números? Não há. Pelo menos oficiais e rigorosos. Meio século depois, o regime de Pequim continua tratá-los como um “segredo de Estado”. Sem acesso aos dados estatísticos da época, alguns investigadores arriscam estimativas a partir das "mortes anormais" registadas nos anuários locais e regionais. Essas estimativas apresentam discrepâncias enormes entre si, oscilando entre os cerca de 750 mil e os quase oito milhões de mortes. Usando dados de vários estudos, pode calcular-se uma média de três milhões de mortes.

No total a Revolução Cultural deverá ter produzido 30 milhões de vítimas entre mortos, feridos, torturados, deportados e humilhados publicamente.

Um partido novo

Os Guardas Vermelhos rapidamente degeneraram numa autêntica polícia do pensamento. O culto de personalidade em torno de Mao assumiu proporções religiosas e não tardou que os Guardas Vermelhos se cindissem em fações sectárias, cada uma reivindicando ser a detentora da pureza ideológica maoista. Isso ao ponto de se terem registado confrontos armados entre elas.

Foi logo durante a fase inicial que se purgou o politburo de homens como Liu Shaoqi e Deng Xiaoping, sumariamente afastados.

As comissões provinciais do partido foram desmanteladas e criadas novas. Em fevereiro de 1967, alguns dos principais líderes do partido apelaram ao fim da revolução cultural. Mas o efeito foi precisamente o contrário: Mao e os seus partidários intensificaram as purgas.

Com o país à beira de uma guerra civil, Mao teve de chamar o Exército a intervir. Ocuparam-se escolas e universidades. Milhões de membros da milícia foram deportados para as zonas rurais.

No final de 1968, Mao estava em condições de reconstruir as estruturas do partido, cujos principais órgãos passaram a ser dominados por militares.

As escaramuças fronteiriças sino-soviéticas ocorridas em 1969 foram um pretexto para declarar a Lei Marcial, que por sua vez foi aproveitada para eliminar fisicamente vários dos dirigentes do PC purgados entre 1966 e 1968.

Depois de 1971, Mao desviou as suas atenções das matanças de "inimigos de classe" imaginários para as lutas intestinas no seio da elite comunista. A primeira foi entre o próprio líder e Lin Biao, o seu número dois. Na perspetiva de Mao, Lin tornara-se demasiado poderoso no seio do Exército e do partido. Lin, que ele próprio nomeara para seu sucessor, tentou fugir do país, em 1972, morrendo com toda a sua família, num desastre aéreo na Mongólia. Os seus amigos foram perseguidos e presos.

Apesar da luta política se travar agora mais nas entranhas da Cidade Proibida, as campanhas com nomes como “Limpeza das Fileiras de Classe”, as purgas e a caça às bruxas não terminaram antes da morte de Mao, em 1976. Qualquer contestação à Revolução Cultural era brutalmente reprimida.

A Revolução Cultural foi um fenómeno essencialmente urbano. Mas teve gravíssimas consequências para toda a China. O caos e o terror que alastraram pela China resultaram, em primeiro lugar, num abrandamento drástico da economia – por exemplo, a produção industrial de 1968 situou-se 12% abaixo dos níveis atingidos em 1966 – e na incapacidade do governo assegurara o regular funcionamento do aparelho de Estado.

Levou também a uma paralisia burocrática. Os funcionários públicos desleixaram-se na medida em que entre eles se instalou a perceção de que se fossem demasiado zelosos a implementar uma determinada política seriam punidos quando essa fosse substituída por outra.

A Revolução Cultural abriu muitas feridas na China que ainda estão por sarar. Considerada “um erro grave” pelo PCC, desde 1981, é um capítulo da história que o regime prefere esquecer, não se tendo nesta segunda-feira, 16, assistido a qualquer ato oficial relacionado com a efeméride.