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Por que a Noruega é o melhor país para viver (contado por quem lá vive)

Vasco Pinhol

Há 12 anos consecutivos que a Noruega é eleita o melhor país para viver. Vasco Pinhol, um português que se mudou há quatro anos para o paraíso dos fiordes, explica o que tem, afinal, de especial. Descubra as diferenças

Em 2011, instado pela vida, peguei nas malinhas e ala para a Noruega, mais precisamente para Ålesund, uma pequena terra com 47 mil almas, capital mundial do bacalhau, do design de navios de prospeção e das cadeiras para bebés ultra-urbanos.

Embora para os meus amigos portugueses – que tenho muitos e a quem aproveito para enviar um grande abraço - a Noruega seja uma espécie de mancha conceptual onde orcas atravessam fiordes com ursos polares à perna, a realidade é diversa e queria aqui aproveitar para esclarecer as diferenças principais entre a terra de Ibsen e a terra de Camões. É um assunto atempado, tanto mais que pelo 12º ano o meu novo país cimeia o ranking do Relatório de Desenvolvimento Humano (vulgo qualidade de vida) em 188 nações – para vossa referência Portugal ocupa o 43º lugar, à frente da Hungria e do Bahrain mas, muito atrás da Grécia, de Chipre, e até da Argentina e do Chile.

Por isso aqui vão - em primeira mão e por observação direta – as principais diferenças entre viver em Portugal e viver na Noruega, neste ano da graça de 2015:

1. O pacto social, essa vetusta antiguidade inventada pelos franceses para os ingleses, em que se entrega ao Estado uma fatia dos ganhos para receber um pacote de cidadania (educação, saúde, segurança, justiça) continua aqui vivo e de boa saúde. Por isso, pagam-se muito menos impostos do que no resto da Europa – se fizermos as contas ao rácio entre dinheiro entregue versus cidadania recebida.

2. Está sempre mau tempo. Há uma piada que corre que diz que Deus ficou de tal maneira contente com a criação da Noruega que decidiu lavá-la todos os dias. Falar de meteorologia é uma das principais atividades sociais. As relações de amizade evoluem mais ou menos assim: fala-se com alguém sobre meteorologia uma meia centena de vezes, aprofundando cada vez mais o nível de pormenor e – as mais das vezes – à quinquagésima primeira temos um amigo para a vida. Como opção sai-se ao fim de semana, todos se enfrascam alegremente e vão para a cama. Ao fim de uma dúzia de idas para a cama tem-se uma amiga para a vida.

3. Os ritmos circadianos são diferentes dos do resto do planeta. Agora - no Inverno - a luz do dia aparece às 11 da manhã e desaparece às 2:30 da tarde. Mesmo com o céu limpo, o sol não se vê porque está sempre “por detrás das montanhas”. A fixação dos noruegueses em “subir montanhas” passa um bocadinho por ir ver o sol. Ninguém diz “vou subir uma montanha para ver o sol” mas é nisso que estão a pensar. No verão, é ao contrário. Nunca é noite, o pôr-do-sol dura horas e horas a fio e à uma e meia da manhã acorda-se espavorido com o sol a entrar pelas pálpebras adentro. Os noruegueses não acreditam em cortinas. Para compensar esta esquizofrenia luminosa, trabalha-se de forma produtiva.

4. Sendo que os exercícios de linguística são um sinal maior de capacidade intelectual, todos os noruegueses devem ser génios: existem duas línguas oficiais (bokmål e nynorsk) e toda a gente fala ainda um dialeto que pode ser mais ou menos inteligível para os restantes concidadãos. É frequente estar a conversar com um grupo de 5 pessoas em que só compreendo o que duas delas dizem e o facto de não compreender as outras (dialeto) leva-me a acreditar que se calhar não compreendo ninguém. Além destas, todos os noruegueses falam bem inglês e/ou outra língua estrangeira.

5. A Noruega é um dos países mais compridos do mundo e tem meia dúzia de habitantes (2 500 km de comprimento, transformados em mais de 25 000 km de linha de costa, sem contar com as ilhas; 5 milhões de pessoas), mas não acredita muito em ajuntamentos. Quando se viaja pelo país, passando pelos sítios mais inesperados e inóspitos, levanta-se uma pedra e saem meia dúzia de casas, com famílias; Oslo, a capital, tinha até há pouco tempo 400 000 habitantes e, embora tenha crescido a ritmo cavalgante nestes últimos anos, continua com apenas 600 000. Independentemente da distância a que se esteja da capital, o nível de vida e acesso a infraestruturas e serviços não vê grandes alterações. Toda a gente tem internet em todo o lado – a Noruega é um dos países mais avançados do mundo em termos de tecnologia de comunicação – e os meios sociais como Facebook e Instagram são utilizados todos os dias, inclusive como ferramenta de trabalho. A internet serve para tudo, até para ouvir rádio no carro. A experiência de ouvir a TSF a tempo-real enquanto guio pelas estradas dos fiordes da Noruega é uma das minhas vivências favoritas.

VASCO PINHOL

6. A paz social, esse valor tão raro e precioso, é praticamente absoluta. Todos têm mais ou menos o mesmo poder de compra, pelo que não se sente qualquer insegurança em deixar as portas, os carros, as vidas, destrancadas. Esta paz social coabita com outro valor que desapareceu das nossas vidas portuguesas: tempo disponível. A partir das quatro da tarde acabou-se o trabalho em praticamente todas as empresas da Noruega. A partir das cinco da tarde todas as lojas fecham. A partir das oito da noite nenhum centro comercial está aberto. Aos domingos está tudo fechado. Como tenho ouvido muitas vezes dizer que a paz social e o tempo disponível são os luxos mais caros do planeta no século XXI, acho que apesar do mau tempo, das dificuldades linguísticas e das perplexidades sociais, vou continuar por aqui até mais ver.

7. Na Noruega bebe-se imenso café (até há pouco tempo, era o país do mundo com maior consumo de café per capita), mas não se faz “vida de café”. O ski faz-se como desporto aos fins de semana mas também é usado como divertido meio de transporte para ir para a escola. Tem-se só meia hora para almoçar mas sai-se do trabalho à hora a que muitos portugueses ainda estão a quatro horas de sair. A igualdade de género e de oportunidades, embora ainda longe de perfeita, está décadas e décadas à frente da que se vive no restante mundo civilizado. Tem lacunas e falhas, como todos os países e todas as culturas – mas quando olho para a lista agora publicada pelas Nações Unidas, que a coloca no primeiro lugar mundial em termos de qualidade de vida, a única coisa que me ocorre é: “pois é.”