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Toda a verdade sobre o Daesh

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Explicações simples para entender a origem, os propósitos e as ameaças colocadas pelo mais importante grupo terrorista da atualidade. CONSULTE O MAPA e a CRONOLOGIA

1 - AQI, ISIS, ISIL ou Daesh, o nome é o que menos interessa

Acrónimo, em árabe, do autoproclamado Estado Islâmico - "al Dawlah al-Islameyeah fi Iraq wal-Sham" - o que significa Estado Islâmico para o Iraque e o Levante"

As diferentes designações resultam quer da própria história da organização, quer da forma como os seus adversários o encaram. Pode afirmar-se que a sua origem remonta à Tabigli Jamaat, dedicada à "jihad espiritual" – supostamente "um grupo de autoajuda, muito semelhante aos alcoólicos anónimos", como o definem Jessica Stern e J.M Berger, no livro Estado Islâmico – mas que recrutava mujaidines para o Afeganistão. Aquilo que nós conhecemos agora como Estado Islâmico torna-se fruto de um movimento jihadista que jurou fidelidade a Bin Laden e à Al Qaeda, em 2004: Tanzim Qaedat al-Jihad fi Bilal al-Rafidayn. Tradução: Al Qaeda na Terra dos Dois Rios (ou seja, o Iraque, banhado pelo Tigre e o Eufrates). Os media, para simplificarem, passaram a chamar-lhe Al Qaeda no Iraque (AQI). Em 2013, quando a sua área de atuação se estendeu à Síria, passou a intitular-se Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL, na sigla em inglês, ou ISIS, quando o último S se refere diretamente a Síria ou al-Sham, Levante). No entanto, em junho do ano passado, a megalomania do grupo levou-o a proclamar-se apenas al Dawlat (o Estado). O mesmo é dizer Estado Islâmico (EI), único representante da Umma, a comunidade de todos os crentes, o novo Califado global que tem por missão recriar "a sociedade perfeita" imaginada no século VII pelo profeta Maomé. A todas estas designações e siglas é preciso somar Daesh, o acrónimo árabe de Estado Islâmico, que também pode significar "aquele que esmaga" ou "semeia a discórdia".

2 - Origem no caos iraquiano, provocado pelos Estados Unidos ​

A génese do Estado Islâmico deve-se a um indivíduo nascido na Jordânia, Ahmad Fadhil Nazzal al-Kalaylah – mais conhecido pelo seu nome de guerra, Abu Mussab al-Zarqawi. Um arruaceiro que não foi capaz de terminar o ensino básico e costumava ser descrito como "homem verde", por abusar do álcool e ter várias tatuagens no corpo, duas práticas interditas aos muçulmanos. No entanto, o treino militar e o seu processo de radicalização, no Afeganistão e no Paquistão, distinguiram-no entre os combatentes islâmicos que, seguindo os apelos de Bin Laden e de vários imãs radicais, prometeram uma luta sem tréguas contra os kuffar (os infiéis, os descrentes). O seu fanatismo ficou bem visível mal George W. Bush e os EUA decidiram intervir militarmente no Iraque para derrubar Saddam Hussein, com o declarado objetivo de eliminar (as inexistentes) armas de destruição em massa: a 19 de agosto de 2003, um suicida a mando de Zarqawi destruiu a sede da ONU em Bagdade, provocando uma centena de feridos e 22 mortos, incluindo o diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello. Na altura não se deu grande importância à justificação apresentada pelo mentor do ataque: Vieira de Mello era um "criminoso" e um alvo a abater por ter contribuído para a independência de Timor Leste. Isto é, Zarqawi considerava que a antiga colónia portuguesa jamais deveria ter sido resgatada à Indonésia, o maior país muçulmano do mundo; logo, todos aqueles que tornaram possível a saída de Timor Leste da Umma deveriam ser executados. O jordano tornou-se, assim, um exemplo para milhares de jihadistas que se envolveriam depois na guerra civil cujo balanço final continua por fazer mas que excede seguramente os 150 mil mortos. Por muito que se fale no conflito sírio e na espiral de selvajaria entre o EI e os diferentes grupos que, desde 2011, tentam derrubar o regime do Presidente Bashar al-Assad, o Iraque continua a ser um país destroçado. E convém não esquecer que, apesar da retirada das tropas de combate dos EUA (agora são "apenas" uns 5 mil), a violência parece não ter fim à vista, com o EI a controlar boa parte das províncias de Anbar e Nineveh (cuja capital é Mossul) e a fomentar a rivalidade entre sunitas e xiitas.

3 - Grupo que não é estado, nem islâmico

Para a maioria dos investigadores, o Islão obscurantista e radical tem origens longínquas e remonta a teólogos como Ibn Hanbal, no século VIII, ou Ibn Taymiya, já no século XIII – duas figuras em que o EI se inspira por terem sido paladinos da morte e da destruição de todos os vestígios das civilizações pré-islâmicas. No entanto, é mais ou menos consensual que foi há menos de 300 anos, na Península Arábica, que a ideologia jihadista ganhou corpo. O grande responsável é Ibn Abd al-Wahhab, pregador cujo nome daria origem ao wahabbismo, a doutrina oficial do estado saudita e uma influência incontornável para todos os movimentos salafistas nas últimas três décadas. A invasão do Afeganistão pela URSS (1979-1989) veio propagar a ideologia jihadista graças ao apoio dos EUA e da Arábia Saudita aos mujaidines que se batiam contra os "ateus" de Moscovo – um apoio levado a cabo pela CIA e de que beneficiou até Bin Laden. Hillary Clinton é uma das poucas personalidades americanas que já fez mea culpa pelo contributo de Washington no alastrar da hidra terrorista. Mas nunca é demais lembrar que os islamitas estão longe de serem um grupo representativo dos 1500 milhões de muçulmanos espalhados pelo mundo. E é bom insistir que esta comunidade repudia a violência e o novo Califado decretado em junho do ano passado, tendo Abu Bakr al-Baghdadi como líder absoluto. É verdade que a estratégia do grupo lhe permitiu conquistar um território que é quase o triplo da área de Portugal e onde residem mais de seis milhões de pessoas. Mas isso não significa que seja sequer um estado. Em primeiro lugar, por ninguém o reconhecer e depois porque os seus dirigentes também não pretendem que ele seja reconhecido. Afinal, o Califado rege-se exclusivamente pelos princípios da sharia, da lei islâmica, e só depende de Alá. A única conclusão a tirar daqui, como já todos percebemos, é que o grupo que ainda faz justiça com decapitações e crucificações ignora tudo o que seja direito, moral ou ética.

4 - Uma organização que não é imbatível, nem pouco mais ou menos

O EI cometeu a proeza de, nestes últimos três anos, recrutar mais combatentes estrangeiros do que o total de jihadistas internacionais que, durante uma década, se bateram contra os soviéticos no Afeganistão – cerca de 25 mil contra perto de 20 mil. Esta capacidade de mobilização permitiu-lhe fazer frente aos exércitos do Iraque e da Síria, mas os seus sucessos militares não se devem às hordas de jovens europeus nas suas fileiras. Os principais comandantes são antigos oficiais de Saddam Hussein, a que se juntaram alguns guerrilheiros do Cáucaso, já muito rotinados no manejo de armas e de homens. O mesmo se poderia dizer em relação ao aparelho do Daesh, cuja logística é garantida por antigos dirigentes do partido Baas, movimento responsável pelos governos tanto de Bagdade como de Damasco. A mais valia dos jovens oriundos do Ocidente tem sido na criação daquilo que já é descrito como o cibercalifado: a máquina de propaganda do EI na internet e nas redes sociais. Um documentário italiano esta semana exibido no canal Odisseia retrata na perfeição a estratégia mediática da organização, através de quatro produtoras e 40 canais de distribuição que chegam aos cinco cantos do globo. Para neutralizar esta ameaça, como escreveu Natasha Ezrow, professora na Universidade de Essex, no Reino Unido, será preciso tempo e recursos: "A única forma eficaz de lidar com o grupo vai exigir um plano de longo prazo para eliminar as raízes da frustração que existe no Médio Oriente – a incompetência, a corrupção e a violência dos estados".

5 - Não somos o alvo principal, mas atenção à "israelização da Europa"

Após os atentados do último mês, a resposta da França e da Rússia ao EI tem sido a intensificação dos bombardeamentos contra o grupo na Síria. No entanto, multiplicam-se as vozes de que a aposta militar só vai agravar a desordem no Médio Oriente. É essa a opinião de Peter Neumann, responsável pelo Centro Internacional para o Estudo da Radicalização e Violência Política, no King's College de Londres. Neumann considera que mais bombas apenas criarão uma nova vaga de recrutas para o Daesh. Além de que não eliminará a ameaça interna, os lobos solidários e simpatizantes do Califado que vivem nas nossas sociedades – alguns deles doutrinados nos campos da Síria e do Iraque. Um dos seus objetivos é criarem caos nos países infiéis a que chamam "Casa da Guerra". Ora os atentados de Paris demonstraram que o equilíbrio entre liberdade e segurança é cada vez mais delicado e esse é um desafio que está para durar. Manuel Castells, um conceituado sociólogo espanhol, alertou há duas semanas para a hipótese de "assistirmos à israelização da Europa". O tempo parece dar-lhe razão: em julho de 2014, uma sondagem da empresa ICM revelava que um em cada quatro franceses com idades entre os 18 e os 24 anos tinha uma opinião positiva sobre o Estado Islâmico. Agora, 87% dos franceses admite ver reduzidos direitos e liberdades a troco de segurança.