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Irão as máquinas ocupar os nossos lugares?

Futuro

“Sophia”, a cara da IA - Criado pela Hanson Robotics, uma empresa de Hong Kong, o robô Sophia é atualmente o “rosto” da Inteligência Artificial mas, segundo os especialistas, não é tão inteligente como parece. Foi programado para responder a perguntas. E é só o que faz, como qualquer software dotado de IA. A mediatização deste robô humanoide deve-se, essencialmente, ao facto de ter um corpo parecido com o dos humanos e ser o primeiro robô a conseguir cidadania num país. Neste caso, na Arábia Saudita

PATRICIA DE MELO MOREIRA / GettyImages

A Inteligência Artificial é já uma realidade no nosso dia a dia, mas Ninguém sabe o que nos reserva: Pode ser a melhor ou a pior invenção da humanidade. Falámos com Especialistas mundiais, que antecipam graves problemas, como o desemprego e até a criação de uma nova classe social: os inúteis

A Inteligência Artificial (IA) é, para muitos de nós, uma coisa do futuro, algo que apenas irá estar presente na vida dos nossos filhos ou dos nossos netos. Mas, sem pensarmos nisso, já escrevemos SMS com escrita inteligente, que não só corrige como sugere as palavras seguintes, ou no email, com filtros de spam, ou mesmo em outras línguas, usando o Google Translator.

A IA é hoje uma realidade presente nas nossas vidas em quase tudo o que fazemos num telemóvel, num computador ou mesmo em alguns eletrodomésticos já disponíveis no mercado.
“As pessoas usam a IA das mais variadas formas no seu dia a dia. 
E se falarmos da sua utilização de um ponto de vista técnico, as grandes empresas também já o fazem. Não porque seja moda, mas porque é uma nova e fundamental técnica que permite melhorar os produtos ou fabricar aqueles que, sem esta ferramenta, eram quase impossíveis de realizar. Temos de olhar para a Inteligência Artificial como uma tecnologia que é usada no apoio à produção, tal como a eletricidade ou o email”, diz Greg Corrado, cientista sénior da Google, especializado em neurociência e Inteligência Artificial, num encontro realizado por videoconferência em Zurique, na sede da Google Europa, com um grupo restrito de jornalistas, sendo a VISÃO o único órgão de comunicação português presente no evento.

O mundo da finança é aquele que, atualmente, mais tem enveredado esforços para integrar IA nos seus sistemas. Desde a prevenção de fraude (onde existe uma empresa portuguesa especialista, a Feedzai) à avaliação de risco. Mais tarde, a ideia é pôr a máquina a interagir com o cliente. Ficção? Não. Bem pelo contrário. É no Brasil que os bancos estão mais entusiasmados com esta ideia. O Bradesco, a maior instituição financeira daquele país, já adotou o Watson, da IBM, um sistema computorizado cognitivo, usado para o mundo dos negócios, que permite a interação entre pessoas e computadores. No início deste ano, a administração do banco anunciou que planeia usar o Watson para interagir diretamente com os seus clientes em tarefas como transferências, pagamentos, consultas. Medida que poderá acabar com muitos empregos de balcão e de call center.

Grandes consultoras mundiais, como a EY, a PWC ou a Deloitte, estão a usar a IA para substituir processos que, até há pouco tempo, eram realizados apenas pelos humanos, como serviços de consultoria estratégica, aconselhamento fiscal ou auditoria. 
E a capacidade de digerir informação é muito superior à dos humanos. Significa isto que a Inteligência Artificial veio para nos ajudar ou para nos tirar os empregos?

“Essa é a questão que mais me preocupa. Sobretudo os empregados relacionados com as atividades cognitivas que atualmente são feitas pelas pessoas. Assim que conseguirmos pôr as máquinas a fazer esses trabalhos, muito emprego tornar-se-á economicamente inviável”, salienta Blaise Aguera y Arcas, um dos mais prestigiados engenheiros de informática dos EUA, considerado em 2008 pelo MIT como uma das 35 pessoas com menos de 36 anos mais inovadoras do mundo.

Em conversa com a VISÃO, a partir de Silicon Valley, na Califórnia, Blaise Aguera y Arcas acrescenta que “com esta mudança podemos criar riqueza, mas essa tem de ser distribuída, caso contrário arriscamo-nos a criar desemprego maciço em muitas regiões e a concentrar riqueza em muito poucos. E já estamos a ver esses efeitos”, afirmou o cientista, que já participou várias vezes nas conferências Ted Talks – uma das quais com mais de 5 milhões de visualizações e uma das favoritas de Bill Gates (atualmente lidera o programa de Inteligência Artificial da Google).

Uma preocupação que é partilhada por outros. “À medida que a Inteligência Artificial ultrapassa os humanos em cada vez mais e mais capacidades, é provável que os venha a substituir em mais e mais empregos. É verdade que outras profissões poderão aparecer, mas isso não resolverá o problema”, defende Yuval Noah Harari, professor de História da Universidade de Jerusalém e autor dos best-sellers Sapiens – uma Breve História da Humanidade e Homo Deus – Uma Breve História do Futuro.
Para este historiador, a biotecnologia e o crescimento da IA poderá dividir a espécie humana numa pequena classe social dos super-humanos e uma enorme dos que não têm utilidade. E assim que as massas percam o seu poder económico e político, os níveis de desigualdade poderão crescer de forma alarmante.

“Os humanos têm praticamente duas habilidades – física e cognitiva –, e se os computadores forem capazes de as fazer melhor que nós, poderão também substituir-nos nos novos empregos que serão criados. 
E milhões de pessoas poderão ficar sem trabalho. Assistiremos ao nascimento de uma nova classe social: a classe dos que não têm qualquer utilidade”, avisa Yuval Noah Harari.

Um estudo recente, da consultora McKinsey, mostra que 30% das tarefas de 60% das profissões podem ser substituídas por computadores que utilizem IA. O economista chefe do Banco de Inglaterra foi mais longe e admitiu que 80 milhões de postos de trabalho, nos EUA, e 15 milhões, no Reino Unido, poderiam ser ocupados por robôs.

Outro estudo, denominado o Futuro do Emprego, fez um relatório sobre as profissões que estão mais em risco com a massificação da IA. Os profissionais de telemarketing são os que estão mais em risco, pois 99% das tarefas que agora desempenham podem ser automatizadas. O mesmo acontece com os bancários, sobretudo os que trabalham nos empréstimos e os que estão nas caixas. Este estudo refere que 98% das suas tarefas, no caso dos primeiros, e 97%, no caso dos segundos, poderão ser executadas por IA. Em risco estão ainda os que se dedicam ao aconselhamento legal, os taxistas e os cozinheiros de fast food.

(IA)pocalipse

O cenário apocalíptico surge sempre associado à Inteligência Artificial, com as máquinas a subjugarem ou a erradicarem os seres humanos. Uma ideia que foi passada pelo filme Exterminador Implacável, no qual o realizador James Cameron nos dava a ideia de um computador superpotente que, em agosto de 1997, ganhava autoconsciência e retirava o controlo humano do sistema de defesa mundial.

Passado 20 anos sobre este romanceado apocalipse, o prestigiado físico britânico Stephen Hawking manifesta receios semelhantes em relação à evolução da Inteligência Artificial. “Não podemos saber se seremos infinitamente ajudados pela IA ou se ignorados, afastados e até destruídos por ela”, disse o físico na abertura da Web Summit, através de videoconferência. Defendeu que esta pode ser a pior invenção da História da nossa civilização, com perigos associados a poderosas máquinas autónomas ou novas maneiras de poucos oprimirem todos os outros. “Pode ser a última coisa que faremos enquanto espécie.”

Por outro lado, o físico admite que a Inteligência Artificial poderá criar meios para combater a pobreza, erradicar doenças e restaurar o meio ambiente.

Resumindo, para Stephen Hawking a IA pode ser “a melhor ou a pior coisa que aconteceu à Humanidade”.

Já o cientista Greg Corrado admite que os riscos para a espécie humana não são preocupantes.

“Essa preocupação é baseada na ideia de que os computadores criarão uma aprendizagem em massa que rapidamente passará as suas capacidades. Não há qualquer razão para pensarmos que estamos próximos desse ponto. 
O que existe são sistemas que criamos com IA para desenvolver uma determinada tarefa e apenas essa tarefa. Para monitorizar spam nos emails, e é só isso que ele faz. Para traduzir, e é 
só isso que faz. E faz muito bem. Ainda não estamos nem perto do ponto de criar sistemas que tenham inteligência global”, afirma.

Para este cientista, existem centenas de mitos em relação à IA. “Muita gente pensa que a Inteligência Artificial é uma única máquina centralizada que domina tudo. Não funciona dessa forma. A IA é um programa de software que apenas cumpre uma função e que vai sendo cada vez melhor a desempenhar essa função. 
E, ao contrário do que muitos pensam, não aprendem indefinidamente. Vão aprendendo até atingir um padrão quase perfeito daquilo que foi desenhado para fazer”, esclarece Greg Corrado.

Realidade enviesada

A ideia de um apocalipse provocado pelas máquinas também não tira o sono a Blaise Aguera y Arcas. “Para mim, o risco da existência é um dos pontos menos preocupantes em relação a esta matéria. O que mais me preocupa, além das questões ligadas ao desemprego, são os possíveis enviesamentos cognitivos dos sistemas.”

Pode explicar? “A Inteligência Artificial é basicamente a aprendizagem de processos cognitivos humanos, que, por definição, são julgamentos rápidos, catalogados, estereótipos, etc. E sabemos que todos e qualquer sistema que treinamos para fazer tarefas humanas relevantes incorporam sempre enviesamentos cognitivos dos humanos. E isso pode ser um problema.”

E dá o exemplo de um estudo recente que mostrava, através de IA, quais os traços fisionómicos que se poderiam encontrar num homem ou numa mulher heterossexual e de um homossexual. “Temos de aferir o que estamos a fazer. Essas são as nossas tecnologias e temos de ser responsáveis por elas”, diz o cientista.

E refere ainda outro caso de um algoritmo criado na China que, com base nos ficheiros de dois mil criminosos, definiu o retrato do criminoso típico. “Toda a informação que foi dada ao algoritmo foi com julgamento humano. Havia toneladas de enviesamentos cognitivos no programa. 
É esse caminho que verdadeiramente me preocupa em matéria de Inteligência Artificial.”

Corrida aos técnicos

Por outro lado, com a introdução generalizada da Inteligência Artificial nas grandes empresas, existe atualmente uma procura enorme de técnicos 
especializados nesta área.

Nos EUA, a escassez de engenheiros informáticos especializados é tão grande que muitas empresas começaram a recrutar nas universidades… os professores. Alguns deles com imensos estudos publicados sobre IA, mas sem qualquer experiência prática.

E acenam-lhes com salários chorudos com sete dígitos por ano, cinco a seis vezes mais do que estes ganham como professores.

Muitas universidades alertam para o efeito dramático que esta prática poderá ter no futuro da IA. Se os professores saírem das universidades, não terão ninguém para formar novos engenheiros de Inteligência Artificial. E a escassez será ainda maior nos próximos anos.

Sem retorno

Seja qual for o caminho, ou caminhos, a tomar, a Inteligência Artificial fará parte das nossas vidas nas próximas décadas. O professor Hani Hagras, diretor do Centro de Inteligência computorizada da Universidade de Essex, no Reino Unido, garante que a “Inteligência Artificial vai dominar a ciência dos computadores nos 
próximos 20 anos”.

Está presente em quase tudo o que fazemos quando interagimos com um simples telemóvel ou um computador.

Programas com o email, motores de busca, tradução automática, os assistentes pessoais, como a Siri da Apple, os aparelhos autónomos para limpar a casa, entre outros, todos eles usam Inteligência Artificial. E somos nós que contribuímos para que eles aprendam ainda mais.

Sempre que usamos a escrita inteligente para enviarmos um email, não só estamos a recorrer a IA, como estamos a ensinar o programa a ser mais inteligente. Ao escrever uma palavra, o sistema sugere a palavra seguinte, e, na maioria das vezes, acerta. E irá acertar cada vez mais quantas mais mensagens enviarmos. Porquê? Porque o software associado aprende de acordo com a quantidade de hábitos e de informação que tiver disponível. Vai construindo padrões dentro dos textos que enviamos e dá-nos a palavra que mais vezes usámos a seguir à que escreveu anteriormente.

“Acho que é na medicina e nos cuidados de saúde que a aprendizagem das máquinas e a Inteligência Artificial pode trazer mais benefícios para a Humanidade”, diz o neurocientista Greg Corrado.

Revolução na medicina

Um dos projetos pioneiros da Google na aplicação da IA na área da Saúde está a realizar-se na Índia, país que tem um défice brutal de oftalmologistas. 
A especialista Lily Peng dirige o projeto, que criou um algoritmo capaz de detetar retinopatia diabética de forma precoce através do exame a fotos dos olhos dos pacientes. “Este tipo de cegueira pode ser prevenido, mas como não existem oftalmologistas suficientes para poderem fazer o exame a toda a gente, metade da população com a doença acaba por perder a visão antes de o problema ser detetado, esclareceu, em declarações à VISÃO, Lily Peng, que este ano surgiu na lista dos 20 visionários da tecnologia da revista Wired.

Com esta tecnologia, o acesso aos cuidados de saúde poderão ficar muito mais baratos para populações carenciadas. Existem atualmente 400 milhões de diabéticos, 70 milhões dos quais na Índia.

No fundo, a Inteligência Artificial permite ao computador extrair padrões de uma enorme base de dados. A partir desses padrões faz reconhecimento. Quanto maior for a informação que recebe, mas fiável é o resultado, como já vimos. Mas nem sempre.

Perigo da ilusão

Quando funciona bem, a IA permite que o nosso computador reconheça, a uma velocidade estonteante, um gato numa foto. E até num desenho, por mais mal feito que este esteja. Mas se correr mal, pode achar que uma tartaruga é uma espingarda. Foi isso que os técnicos do laboratório de Inteligência Artificial do MIT testaram, descobrindo como enganar o software de reconhecimento de objetos e imagens da Google – criaram um algoritmo que, subtilmente, modifica uma fotografia de uma tartaruga fazendo com que o software pense que é uma espingarda. Mais espantoso foi que, quando esta equipa criou uma imagem 3D da tartaruga, o software continuou a dizer que era uma espingarda.

Esta confusão veio lançar a discussão da forma como os criminosos poderiam explorar esta distorção nas imagens. Nomeadamente nos equipamentos de raios X que analisam o interior das malas num aeroporto, pois muitos destes aparelhos já estão a incorporar IA. Segundo os técnicos, a máquina deteta por vezes aquilo que o olho humano não é capaz. Com o mesmo processo criado pelos técnicos do MIT, os criminosos podem enganar o software e passar armas ou bombas para dentro do avião.

Os computadores desenhados para detetar objetos automaticamente são baseados em redes neurais, um 
software que tenta imitar a forma como o cérebro humano aprende. Se os investigadores encherem o 
software com muitas fotos de gatos, por exemplo, o programa aprende a identificar padrões nessas imagens para identificar qualquer tipo de gato sem a ajuda humana.

E não é só nos aeroportos que o problema se coloca. As câmaras de segurança estão, nos dias de hoje, preparadas para se ligarem apenas quando detetam movimento. Para evitar estarem sempre a ligar-se com o movimento dos automóveis, estas já têm Inteligência Artificial para não filmar os carros que passam, mas apenas as pessoas. Para enganar essa inteligência, os criminosos poderão, por exemplo, usar t-shirts especialmente desenhadas (tal como a tartaruga) que enganam as câmaras pensando que estes são carros, o que lhes permite passar facilmente pelo sistema de segurança.

Estamos a falar de casos hipotéticos, mas que para os investigadores podem tornar-se bem reais nos 
próximos tempos.

As máquinas estão inteligentes e estarão cada vez mais. Segundo um estudo realizado nos EUA, 25% das pessoas acredita que a IA já atingiu o nível do cérebro humano e está guardada em segredo pelo governo.

O génio já está fora da lâmpada. Mas teremos de ter cuidado com aquilo que desejarmos.