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"Meditação, terapia e drogas"

Futuro

Fernando Veludo/ NFACTOS/

Stefan Sagmeister pôs o Rivoli a cantar o Hino da Alegria. Depois da ‘Felicidade’, em 2016, o Fórum do Futuro discutirá ‘A Ligação’

Stefan Sagmeister, o designer gráfico nascido na Áustria há 53 anos mas que escolheu Nova Iorque para abrir o seu atelier, foi a pessoa indicada para encerrar o Fórum do Futuro, no Porto. A Felicidade é o tema que o tem ocupado, tanto pessoal como profissionalmente. A sua exposição, The Happy Show, foi inaugurada em Viena (a 7ª cidade por onde já passou) há cerca de duas semanas, “já teve um milhão de visitantes”, e manter-se-á até Março. E o seu The Happy Film está agora a ser submetido a concursos internacionais e deverá ficar disponível ao público lá para meados de 2016.

Foi um bocadinho disto tudo que o designer – que assinou capas de álbuns de Rolling Stones e de Lou Reed – trouxe ao palco do Rivoli, bem como o seu processo pessoal para alcançar a felicidade, plasmado no filme que há-de vir. E que, conforme adiantou, tem muito a ver com três experiencias vividas por si: meditação, terapia e drogas. Ele, que se sentiu infeliz durante muito tempo e não se sentia nada bem (tinha-lhe morrido a mãe e terminado uma relação longa) quando iniciou o projeto do filme, diz ter encontrado o caminho para a sua felicidade. “Só digo coisas que são verdadeiras para mim. Comigo funcionou. Pretendo estabelecer aqui um processo de identificação, no qual o espectador pode ter uma escolha”, explicou. E aqui está um exemplo de como a procura de felicidade pessoal contaminou o seu trabalho.

Meditação e exercício físico

Sagmeister inspirou-se no livro The Happiness Hypothesis, do psicólogo americano Jonatham Haidt, para iniciar uma procura e aumentar os seus níveis de felicidade. Contou a sua história, devidamente ilustrada com bocados do filme e da exposição, muito ao jeito das ‘ted talks’, e com um sentido de humor e energia que agarrou de imediato todo o público, bastante jovem, que mais uma vez lotou a sala.

No essencial, contou como andou a experimentar as práticas de meditação durante três meses. Mas descobriu como “20 minutos de exercício físico todos as manhãs podem fazer mais do que 40 minutos de meditação”. Daí que, na sua exposição, esteja exposta uma bicicleta que, ao ser accionada por alguém a pedalar, vai gerar electricidade e interagir com objectos expostos em redor, iluminando-os em várias cores e provocando surpresas e sentimentos agradáveis em quem por ali anda. Aliás, grande parte da exposição pretende estimular o riso, logo o bem-estar e a satisfação.

Terapia e drogas

Também andou pela terapia cognitiva, “mas na América, quem não anda?”. Entrevistou vários terapeutas e fez a sua própria terapia. Percebeu que “devia ser mais flexível” e de se lembrar de “fazer mais coisas espontâneas”, na tentativa de corrigir um pouco a sua natureza. A resolver está ainda a vontade de se tornar “mais humilde” e mais “bem agradecido”, bem como estimular mais a “empatia simpática” – esteve em Bali uns tempos, “mas não melhorou muito”, contou.

As drogas, experimentou-as todas durante outros três meses. Mas calma, “só as legais” e com o supervisionamento de um médico especialista no assunto. A ideia era desenvolver a consciência, e essa relação ainda muito escondida entre consciente e inconsciente, “o pequeno cavaleiro num grande elefante, em que é o elefante que dita para onde vai”. E lá vem um desenho de traço fino. “Desde que trabalhem em conjunto, a vida torna-se mais harmoniosa e preenchida”, apontou Sagmeister, sem abrir muito mais o livro acerca desta experiencia.

Hino da Alegria

De resto, e enquanto se aguarda um patrocinador para trazer a exposição a Portugal, fiquem sabendo que “a preocupação não resolve nada”, que é preciso “ter atividades não repetitivas”, que “se não procurar, não encontra”, “se não perguntar, não obtém respostas”, “se não pedir, não recebe”. E é preciso fazer amigos, muitos e bons.

O autor do logótipo da Casa da Musica escreveu mesmo uma letra para o Hino da Alegria. E para provar que nada faz melhor do que juntar a nossa voz a muitas outras, pôs todo o Rivoli a cantar uma versão karaoke. “Assim, todos adoram a vida”, disse o designer. Que se despediu com uma ultima sugestão, outro dos seus truques do momento: “Ponham um caderno na cabeceira e todas as noites, antes de adormecerem, apontem três coisas que correram bem no dia. Funciona.”

A Ligação em 2016

E assim foi a Conferência Feliz de Sagmeister, a última de cerca de 20, que envolveu 60 participantes que durante 5 dias passaram pelo Rivoli, Casa da Musica, Serralves e Teatro Nacional São João. Entre vários performers, como Rirkrit Tiravanija (que associou a felicidade à gastronomia) ou Ianina Khemlik (que tocou violino ligada a um termógrafo a medir a temperatura do corpo e a explodir em várias cores), e figuras de renome internacional em várias áreas, como o Nobel da Fisica John C. Mather ou o filósofo Lipovetsky, o Forum do Futuro transformou o Porto na “felizcidade” e tornou-se “um Paredes de Coura do pensamento contemporâneo”, como apelidou Paulo Cunha e Silva, vereador da cultura e o grande impulsionador deste encontro.

Para o ano há mais. O tema será “a Ligação”. Entre pessoas, moléculas, redes sociais ou planetas. Sim, porque afinal, isto anda tudo ligado.