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Benfica: glória ou maldição?

Futebol

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Factos e histórias das finais europeias do Benfica que entraram para a lenda do futebol. RECORDE OS VÍDEOS DE TODAS AS FINAIS

A competição é recente, mas só o seu nome - Liga Europa - remete imediatamente para a célebre frase proferida pelo húngaro Bella Guttmann, há meio século, quando abandonou o Benfica, após a conquista, consecutiva, de duas taças dos clubes campeões europeus: "Senhores, sem mim nem daqui a cem anos o Benfica voltará a ser campeão europeu." Os termos exactos da frase têm conhecido várias versões, ao longo dos anos. Mas a "maldição", essa, tornou-se lendária no futebol mundial e volta, naturalmente, a ser evocada quando a equipa de Lisboa se prepara para a nona final europeia da sua história, esta quarta-feira, 15, em Amesterdão, frente ao Chelsea, de Londres. Memória de uma epopeia em oito atos, que apaixona multidões.

1961 (Benfica 3 - Barcelona 2) - A surpresa e o início de uma bela amizade com os postes -

A 31 de maio, no Estádio Wankdorf, de Berna, Suíça, começa a ser escrita a primeira vitória europeia de uma equipa portuguesa na então chamada Taça dos Campeões Europeus, até esse ano sempre dominada pelo Real Madrid, vencedor das cinco primeiras edições. Chegar à final da competição era, só por si, um feito extraordinário, num país onde nunca qualquer equipa tinha sequer passado, alguma vez, da primeira eliminatória... Por isso, quando o húngaro Bella Guttmann, ao assinar contrato com o Benfica, no início da época 1960-61, pediu um prémio especial (de 200 contos, qualquer coisa como mil euros!) pela conquista do troféu europeu, um dos dirigentes do Benfica, incrédulo, respondeu-lhe: "Ó homem, ponha mais 100 contos!" O prémio foi pago, após uma vitória por 3-2 frente ao Barcelona (que tinha eliminado o Real Madrid na segunda eliminatória), num jogo em que os desconhecidos portugueses, em que só Guttmann parecia acreditar, conseguiram bater uma formação catalã recheada de estrelas como os  húngaros Kocsis e Czibor, além do craque Luis Suarez, o único espanhol, até hoje, a ganhar a Bola de Ouro. Mas para a lenda ficaram as quatro bolas no poste (duas no mesmo remate!) da baliza defendida por Costa Pereira. E para demonstrar que a rivalidade vem de longe, um dos primeiros telegramas de parabéns a chegar ao Estádio da Luz era assinado por Santiago Bernabéu, então presidente do Real Madrid.

Portugueses na equipa da final: 11 - toda a equipa do Benfica, que incluía, dois atletas nascidos em Angola (Santana e José Águas) e outros dois em Moçambique (Mário Coluna e Costa Pereira)

1962 (Benfica 5 - Real Madrid 3) - O ocaso de Di Stefano e o início da lenda Eusébio

A 2 de maio, no estádio olímpico de Amesterdão, Holanda, o Benfica sagrou-se bicampeão europeu, após uma vitória clara sobre o Real Madrid, numa final que, no dia seguinte, o jornal desportivo espanhol Marca considerou, na sua primeira página, ter sido la mejor final europea, desde que existe la famosa copa. E isto após um jogo em que os espanhóis estiveram a ganhar 2-0 até aos 25 minutos e 3-2 ao intervalo, com um hat-trick do húngaro Puskas. No intervalo, Bella Gutman disse aos jogadores que tinham a vitória ao seu alcance, pois os madrilenos estavam cansados. Coluna empatou e Eusébio, por duas vezes, garantiu a vitória final por 5-3, saindo em ombros, vitoriado pelos adeptos... e guardando entre as cuecas a camisola trocada com Di Stefano, o seu maior ídolo.

Portugueses na equipa da final: 11 - toda a equipa do Benfica, onde pontificavam agora três moçambicanos (Eusébio, Coluna e Costa Pereira) e um angolano (José Águas).

1963 (Milão 2 - Benfica 1) - O início da maldição

Após sagrar-se bicampeão europeu, Bella Guttmann exigiu aumento de ordenado e, depois de contrariado nessa sua pretensão, bateu com a porta e lançou a célebre "maldição", que incluía também a profecia de que, no próximo século, nenhuma outra equipa portuguesa conseguiria vencer a Taça dos Campeões duas vezes seguidas (só faltam 49 anos para o provar!). Para o substituir, o Benfica chamou o chileno Fernando Riera, que comandou a equipa até à final, a 25 de maio, no Estádio de Wembley, em Londres, frente aos italianos do AC Milan. E a maldição de Guttmann cumpriu-se, num jogo em que o Benfica até começou a ganhar (logo aos 18 minutos, com um remate "marca da casa" de Eusébio), mas em que acabou por sucumbir, depois, a dois golos do brasileiro Altafini, numa altura em que o "capitão" Coluna apenas se arrastava em campo, lesionado - naquela época, não eram permitidas substituições.

Portugueses na equipa da final: 11 - toda a equipa do Benfica, onde jogavam três moçambicanos (Eusébio, Coluna e Costa Pereira) e um angolano (Santana).

1965 (Inter 1 - Benfica 0 ) - Dilúvio, 'frango' e guarda-redes improvisado

A 27 de maio, num relvado encharcado pela chuva, o Benfica, agora orientado pelo romeno Elek Schwartz, defrontou, na sua quarta final, a outra equipa de Milão, o Inter. Local: o estádio de San Siro, "casa" que o Inter reparte com o AC Milan. Rezam as crónicas que o jogo foi pouco interessante, muito por culpa das condições do relvado. A contenda resolveu-se, no final da primeira parte, através de um remate relativamente fraco do brasileiro Jair que Costa Pereira deixou passar... por entre as pernas. Depois, aos 57 minutos, o guarda-redes do Benfica pediu para abandonar o relvado, lesionado. Como não se permitiam substituições, o defesa central Germano vestiu a camisola número 1 e foi para a baliza, jogando o Benfica o resto do desafio com apenas 10 jogadores. A "maldição" de Guttmann começava a fazer sentido...

Portugueses na equipa da final: 11 - (incluindo os moçambicanos Eusébio, Coluna e Costa Pereira)

1968 (Manchester United 4 - Benfica 1) -  O 'maldito' Wembley de Eusébio

A 29 de maio, o Benfica voltou à final da Taça dos Campeões e novamente ao estádio de Wembley, onde tinha perdido a final de 1963 e onde metade da sua equipa (incluindo o treinador brasileiro Otto Glória) tinha sido eliminada, com as cores da seleção nacional, pela Inglaterra, nas meias finais do Mundial de 1966. O adversário era o Manchester United e foi aqui que Eusébio confirmou mesmo ser Wembley o seu estádio maldito: a poucos minutos do fim do tempo regulamentar, quando a final se encontrava empatada a 1 golo, o moçambicano isolou-se, mas rematou à figura do guarda-redes. O jogo decidiu-se, então, no prolongamento, cimentando a glória de George Best e Bobby Charlton (4-1 para os britânicos).

Portugueses na equipa da final: 11 - (com os moçambicanos Eusébio e Coluna).

1983 (Anderlecht 1 - Benfica 0 e Benfica 1 - Anderlecht 1) - Eriksson e a desilusão na Luz

Quinze anos depois, o Benfica regressou às finais europeias, agora na Taça UEFA, terceira competição na hierarquia da UEFA e a única em que a final se jogava a duas mãos. O principal obreiro desse regresso foi o treinador sueco Sven-Goran Eriksson, então com apenas 35 anos, mas que tinha vencido esta competição na época anterior, à frente do Gotemburgo, e cujos métodos inovadores operaram uma revolução no futebol português. A primeira-mão da final jogou-se em Bruxelas, "casa" do adversário Anderlecht. Sinal dos tempos: o jogo não foi transmitido pela RTP, o único canal então existente em Portugal (vitória dos belgas por 1-0). Já a segunda mão, num Estádio da Luz com lotação recorde, teve honras de uma cobertura exaustiva e até o Presidente da República Ramalho Eanes desceu ao relvado para cumprimentar os jogadores, antes do apito inicial. Mas a "maldição" de Guttmann voltou a ecoar: Shéu, a passe de Humberto Coelho, ainda pôs o Benfica na frente, mas o espanhol Lozano, aos 38 minutos, estabeleceu o empate que ficaria como resultado final.

Portugueses nas equipas da final: 15 (incluindo Shéu, nascido em Moçambique). Estrangeiros: Stromberg (Suécia) e Filipovic (Jugoslávia)

1988 (Benfica 0 - PSV Eindhoven 0) - A lesão de Diamantino e a angústia do penalti

A 25 de maio, no Neckarstadion, de Estugarda, Alemanha, o Benfica regressou às finais da Taça dos Campeões, frente aos holandeses do PSV Eidhoven, e pela primeira vez com um treinador português no banco: Toni. A "maldição" de Guttmann voltou a ecoar: no último jogo na Luz, antes da final, o melhor jogador do Benfica de então, Diamantino, lesionou-se gravemente. Em Estugarda, esteve o tempo todo sentado, de muletas, junto do relvado, sem hipótese de jogar ou de participar no desempate por penaltis, após duas horas quase sem remates à baliza. Falhou Veloso e os holandeses fizeram a festa - que iriam prolongar, no mês seguinte, quando metade da equipa se sagrou campeã europeia de seleções, no Euro 88.

Portugueses na equipa da final: 7 (incluindo Shéu, nascido em Moçambique). Estrangeiros: 4 brasileiros (Mozer, Elzo, Chiquinho e Wando), 1 sueco (Stromberg), 1 marroquino (Hajry)

1990 (Milan 1 - Benfica 0)- A prece de Eusébio no cemitério

A 23 de maio, o Benfica, novamente sob o comando de Eriksson, voltou à final da Taça dos Campeões, e mais uma vez frente ao AC Milan, equipa italiana onde pontificava então um famoso trio holandês: Gullit, Van Basten e Rijkaard. Na véspera, Eusébio deslocou-se ao cemitério judeu de Viena e rezou junto à campa de Bella Guttmann, pedindo-lhe que salvasse o clube da "maldição". O golo solitário de Rijkaard, aos 67 minutos, no estádio do Prater, foi a resposta. A glória vai ter que esperar.

Portugueses na equipa da final: 8 (incluindo o guineense Samuel e o angolano Vata). Estrangeiros: 3 brasileiros (Ricardo, Aldaír e Valdo) e 2 suecos (Thern e Magnusson)