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Rui Santos: "Como não me deixei amestrar, a solução foi colarem-me ao Sporting"

Futebol

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Marcos Borga

Em entrevista à VISÃO, o jornalista afirma que ser imune aos clubes de futebol e às pressões é “tarefa diária” e “para toda a vida”. E lamenta que as autoridades nunca tenham descoberto nem o mandante nem os encapuzados que, há nove anos, o tentaram agredir à saída dos estúdios da SIC

Rui Antunes

Rui Antunes

Jornalista

No ar há 13 anos, o rosto do Tempo Extra, também presença fixa no Play-Off, ambos na SIC Notícias, garante que ter crescido numa “família sportinguista” não faz dele adepto do clube de Alvalade. Ao contrário do que o Benfica tentou fazer crer para o desacreditar, acusa.

Como se prepara para os programas?

A minha preparação assenta em seguir a imprensa, estar atento às intervenções públicas dos protagonistas e filtrar as informações que me chegam. Deixo cair facilmente as fontes envenenadas. Já tenho tempo suficiente disto para perceber quem é e quem não é confiável.

Como analisa os casos de arbitragem?

Vejo as repetições que forem necessárias para que as pessoas vejam em mim alguém em quem possam acreditar. Uma vez que escrevo relatórios sobre os erros dos árbitros em todos os jogos que envolvem os primeiros quatro classificados, a partir dos quais faço a Liga Real do Tempo Extra, não posso facilitar. Sei que vivo num ambiente adverso, porque as pessoas habituaram-se a ver quem defenda incondicionalmente, no ecrã, as suas cores, mas esse não é, claramente, o meu papel. Levo muito a sério a função que muitos dizem ser de regulador. Não procuro a polémica, mas não tenho medo de enfrentá-la.

Os adeptos abordam-no na rua?

Em 90% das situações muito simpaticamente. Uns acham que sou do Sporting, outros que sou do Benfica e já tenho tido testemunhos de pessoas que acham que sou do FC Porto. Tem piada. Há quem queira arrancar-me a carapaça, porque gostavam que eu assumisse uma preferência, mas a minha consciência profissional vacinou-me totalmente contra isso.

Nos anos 90, admitiu ser simpatizante do Sporting e gostar muito do Benfica.

Essa entrevista foi duplamente tirada de contexto. Primeiro, eu disse e reafirmo que sou oriundo de uma família sportinguista. Foi interpretado como a minha opção clubística. Segundo, quem a veiculou no espaço público, na época passada, fê-lo a mando da direção de comunicação do Benfica da altura [chefiada por João Gabriel], para desacreditar a minha opinião no âmbito do “caso Jorge Jesus” e fazer prevalecer a ideia de que as críticas resultavam do facto de eu ser do Sporting. Falso e desonesto. Essa gente está habituada a manipular, a condicionar e a coagir as pessoas. E a capturá-las. Tentaram fazê-lo comigo. Não funcionou. E, como não me deixei amestrar, a solução foi colarem-me ao Sporting. São fracos. Utilizam a força social dos clubes que lhes pagam para exibirem as suas fragilidades e misérias.

Os dirigentes e os treinadores telefonam-lhe?

Ainda tenho abordagens, pressões dissimuladas, mas os anos vão correndo e já me vão conhecendo: não vale a pena. A minha opinião é como a água filtrada. Faço os possíveis para a descontaminar. Não gosto de ser deselegante com quem é natural e honestamente simpático comigo, mas tive sempre muitos cuidados com os chamados facilitanços. É uma tarefa diária, para toda a vida. Realizo-me com a condição de comentador, não comendador.

Sofreu mais ameaças quando escrevia no jornal A Bola ou desde que, em 2004, passou a comentar na SIC?

Estou mais exposto, agora, na televisão, mas não se esqueça que sou de uma geração em que o jornal chegou a tirar mais de 200 mil exemplares. O desassombro que muitos agora me apontam já vem desses tempos.

A situação mais grave foi aquela em que um grupo de encapuzados o surpreendeu à saída da SIC?

Tive outras complicadas nos anos 80 e 90, quando fui a minha própria testemunha de que sempre houve coação no futebol em Portugal. Mas a que causou maior impacto foi essa das tentativas de agressão junto ao parque de estacionamento da SIC. O Apito Dourado estava ao rubro e considerei que era muito importante uma limpeza de métodos.

Já passou quase uma década. Nunca se soube quem foram os agressores? Como ficou o caso na Justiça?

Fez nove anos no dia 24 de fevereiro. Nada se apurou, oficialmente. O processo foi arquivado, por falta de provas. É isto que me constrange. Inicialmente, o Ministério Público revelou muito interesse pelo meu caso, mas a partir de um certo momento, e sei qual foi, comecei a perceber que o balão ia esvaziar. Fiz o que pude para que se fizesse justiça. Mas, nestas coisas, ou há vontade político-clubística ou não há. Não houve, e isso diz muito sobre a desproteção das pessoas sem suporte partidário ou clubístico perante a violência e a coação. Dramático.

Que “certo momento” foi esse?

Foi o momento em que se começou a formar a convicção de que o mandante, afinal, podia estar ligado a alguém fora da área geográfica a que inicialmente se pensava poder pertencer. Não posso ir mais longe porque não consigo apresentar provas.

Ainda fica nervoso em direto?

Há sempre um nervoso miudinho subjacente à preparação de cada programa. Depois, dilui-se.

Qual a maior gafe que cometeu?

Ter afirmado a existência de um fora de jogo quando, na verdade, não aconteceu. Na semana seguinte, assumi o meu erro e pedi desculpa.

Vê outros programas de comentário futebolístico?

Fui perdendo o gosto pelos debates sobre futebol, porque não se aprende nada. Só servem para percebermos como funcionam os gabinetes de comunicação dos clubes. São espaços que revelam a miséria intelectual da maioria dos protagonistas e a procura incessante de gordas mordomias. Há muito pouca gente a pensar pela sua própria cabeça. Com uma ou outra exceção, claro.

artigo publicado na VISÃO 1256 de 30 de março