Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

As "mangas" do independentismo no desporto espanhol

Futebol

  • 333

A política e o desporto podem estar mais ligados do que se imagina. Em Espanha, Gerard Piqué, do Barcelona, tem sentido a influência das suas palavras políticas no mundo desportivo

As mangas da camisola da seleção espanhola têm as cores da bandeira na extremidade

As mangas da camisola da seleção espanhola têm as cores da bandeira na extremidade

ANDREJ ISAKOVIC

No domingo, as seleções espanhola e albanesa defrontaram-se num jogo da fase de grupos de apuramento para o Mundial de futebol de 2018. A Espanha saiu vitoriosa (2-0). Mas houve uma situação que despertou tanta ou maior curiosidade do que o próprio jogo.

Mas a que Piqué usou frente à Albânia, não

Mas a que Piqué usou frente à Albânia, não

GENT SHKULLAKU

Gerard Piqué jogou com uma camisola de mangas compridas, como é seu costume. Mas para as redes sociais algo estava errado naquela camisola - faltavam as riscas com as cores da bandeira espanhola. O jogador do Barcelona já está habituado a ser o centro de polémicas. E assim nasceu mais uma.

De facto, Piqué mexeu na camisola. Por sentir que as mangas estavam demasiado curtas para si, decidiu cortá-las a meio e levar uma camisola interior por baixo. Acusado de ter cortado intencionalmente as riscas coloridas das mangas, o defesa central catalão levou para a zona mista uma camisola de mangas compridas, a fim de mostrar aos jornalistas que toda a história não tinha fundamento. Porque ao contrário das camisolas de manga curta, as de manga comprida não tinham as riscas.

Foi a gota de água para o jogador, que anunciou o adeus à seleção espanhola após o Mundial de 2018.

O fator independentista

Piqué nunca escondeu ser a favor da independência da Catalunha e isso talvez tenha influenciado muitas das polémicas criadas à sua volta, que puseram em causa o seu desempenho na La Roja, como é conhecida a equipa nacional de Espanha.

No primeiro jogo do Euro 2016, frente à República Checa, foi um golo de Piqué, a três minutos do fim, a proporcionar a vitória. Nem esta nem as suas outras 63 ao serviço da seleção foram suficientes para o deixar de fora de controvérsias na competição. Oito dias depois, perante a Croácia, o central seria acusado de fazer um gesto obsceno enquanto se ouvia a Marcha Real.

Carles Puyol, Xavi Hernández, Piqué e Pep Guardiola no futebol, Manel Estiarte no polo aquático, Anna Tarrés e Ona Carbonell na natação sincronizada, Enric Masip no andebol, Alex Fàbregas no hóquei, Pau Gasol no basquetebol. Todos eles são catalães e todos tiveram um ótimo desempenho enquanto representaram a seleção espanhola.

Alguns já se expressaram publicamente a favor da independência catalã, pelo menos, em termos desportivos. Por exemplo, Ona Carbonell deixou clara a sua posição ao dizer que, "se tivesse que escolher a seleção espanhola ou catalã, decidiria jogar pela catalã".

Pelo mesmo caminho seguiu Alex Fàbregas. Diz ele que só jogou pela seleção de hóquei espanhola porque era a única opção que tinha de participar nos Jogos Olímpicos e que não se sente espanhol, mas sim catalão.

Também Pep Guardiola, depois de jogar 47 vezes pela seleção espanhola e já no papel de treinador, mostrou o seu apoio à causa independentista: "Se tivesse havido uma seleção catalã, teria jogado pela Catalunha.".

São poucos os que renunciam à equipa nacional por motivos do género. Um exemplo é o do basco Iñaxio Kortabarría, que, depois de quatro internacionalizações, renunciou publicamente à seleção espanhola por razões independentistas.

Oriol Rosell, um futebolista que joga atualmente no Belenenses, disse também que, caso fosse convocado para jogar por Espanha, não aceitaria: "Em primeiro lugar está aquilo que penso e os meus ideais. Muitos jogadores não opinam sobre a independência da Catalunha porque têm medo de se expressar livremente."

Se houvesse opção, talvez muitos destes atletas não jogassem por Espanha. Guanyarem - em português, "Ganharemos" - é uma campanha que pretende conseguir o reconhecimento das seleções desportivas catalãs e conta com o apoio de muitos atletas de que já falamos, como Piqué, Puyol e Xavi.

O tema da independência da Catalunha promete manter-se aceso nos próximos tempos. O Presidente catalão anunciou que vai convocar um referendo sobre a independência para setembro de 2017, com ou sem a aprovação do estado espanhol.

Muitos espanhóis já pediram desculpa a Gerard Piqué pela polémica e torcem agora para que ele mude de ideias.