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Retratos de um país austero

Economia

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Conheça as histórias de portugueses que antecipam 2013: retratos de um Portugal mais pobre. O que acontece num país mergulhado em austeridade e diariamente confrontado com protestos e manifestações de revolta?

Mesmo antes de começar a ser discutido o Orçamento do Estado que promete o maior aumento de impostos da nossa história, é já possível identificar e observar muitas das situações e fenómenos que vão ganhar cada vez maior amplitude ao longo do próximo ano. O que acontece num país mergulhado em austeridade e diariamente confrontado com protestos e manifestações de revolta?

A resposta é dada, com nome próprio, nas histórias dos portugueses que antecipam 2013: retratos de um Portugal mais pobre, com maior desemprego e com muitos setores de atividade em risco, mas onde os consumidores se tornaram mais exigentes e atentos aos preços baixos, em que crescem os exemplos de solidariedade e muitas pessoas procuram dar novo rumo às suas vidas. Afinal, 2013 já começou...

VEJA AS FOTOS E CONHEÇA AS HISTÓRIAS DE CADA UM NO TEXTO A BAIXO

Manuel Arsénio - Onde se podem salvar empresas
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Manuel Arsénio - Onde se podem salvar empresas

Fernanda Machado - Vestidas para vencer
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Fernanda Machado - Vestidas para vencer

Andreia Morais - A febre dos descontos
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Andreia Morais - A febre dos descontos

Óscar Afonso - A única economia que cresce
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Óscar Afonso - A única economia que cresce

Arsénio Jesus Amaro - O País dos sem trabalho
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Arsénio Jesus Amaro - O País dos sem trabalho

Horácio Guterres - Carro, o novo luxo
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Horácio Guterres - Carro, o novo luxo

Rui e Daniela - Quarto procura-se
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Rui e Daniela - Quarto procura-se

Carla Duarte - Trocas e leilões
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Carla Duarte - Trocas e leilões

Sílvia Lopes - O refúgio das marcas brancas
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Sílvia Lopes - O refúgio das marcas brancas

Caetano Beirão - Hortelões urbanos
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Caetano Beirão - Hortelões urbanos

Serviços Públicos - Não espere, marque a sua vez. Se puder
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Serviços Públicos - Não espere, marque a sua vez. Se puder

Elisabete Moldes - Empreendedora à força
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Elisabete Moldes - Empreendedora à força

Comércio - De portas fechadas
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Comércio - De portas fechadas

José Pereira - Subida do IVA: fim da restauração?
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José Pereira - Subida do IVA: fim da restauração?

Cláudia, Filipa, Diogo e Edgar - Dar a volta ao bar
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Cláudia, Filipa, Diogo e Edgar - Dar a volta ao bar

1 - Onde se podem salvar empresas

No gabinete de Manuel Arsénio há muitos dossiês. Mas é pelo computador que lhe chegam os processos de empresas que recorrem ao IAPMEI Instituto de Apoio às Pequenas e Médias Empresas e à Inovação, na tentativa de encontrar uma solução para o sufoco em que se encontram.

O programa Revitalizar tem dois instrumentos diferentes o Sireve (sistema de recuperação de empresas por via extrajudicial) é o mais amigável. Em vigor desde setembro, recebeu 36 processos.

Aí, os empresários com dívidas negoceiam com os seus credores, com a mediação do IAPMEI. A ideia é chegar a um consenso sobre prazos de pagamento e juros, que permita à empresa continuar a atividade sem sucumbir. Já o PER (processo especial de revitalização), implica a formalidade da mediação de um administrador de insolvência, nomeado pelo tribunal. Em vigor desde maio, o PER já recebeu 197 processos. Manuel Arsénio, coordenador da área de revitalização de empresas, vai avisando que o importante é não recorrer a estes instrumentos só quando a situação está à beira de se tornar irreversível.

2 - Vestidas para vencer

Desde janeiro que Fernanda Machado, 37 anos, financia, com o trabalho em produção de eventos, o seu "projeto de vida". Criou a Dress for Success Lisboa, uma iniciativa que existe há 15 anos nos EUA, para apoiar a entrada no ativo de mulheres carenciadas. Ali, à junta de freguesia de São José, chega quem vem referenciado pelos parceiros do projeto, nomeadamente centros de emprego e instituições de solidariedade: desempregadas, à procura da imagem adequada a uma entrevista de trabalho já marcada (30% tem estudos superiores e são essas que mais facilmente retornam ao mundo do trabalho). A roupa, elegante, está disposta como numa loja e procura-se adequá-la ao estilo e ao gosto de quem não a consegue comprar.

Fernanda é o exemplo perfeito do oásis que se abriu com o aguçar da crise. Os portugueses deixaram de olhar apenas para o umbigo e, um pouco por todo lado, organizaram-se tendo em vista iniciativas como esta, num esforço solidário, gratuito para (re)construírem um país melhor.

3 - A febre dos descontos

"Neste momento, já não compro sem verificar se existe algo em promoção", revela Andreia Morais, 40 anos, financeira numa produtora de publicidade.

Desde que surgiram os sites de descontos, afirma, já se inscreveu em vários, recebendo diariamente as novidades apresentadas por cada um. "Às vezes, não preciso de nada, mas o desconto é tão bom que compro para utilizar mais tarde", acrescenta. Entre as suas preferências, incluem-se os serviços em cabeleireiro, hotelaria, refeições, massagens e até já comprou um batismo de vela, com poupanças que chegam aos 70 por cento.

Para a grande maioria das empresas que vendem produtos com descontos entre 50% e 70%, a crise tem proporcionado um aumento da procura. Num destes sites, a Letsbonus, a procura tem aumentado desde o verão passado ao mesmo tempo que os consumidores começam a dar prioridade a bens mais utilitários e para a família, em detrimento do puro lazer.

4 - A única economia que cresce

Desconto de 10% no preço da refeição para quem pagar em dinheiro e não pedir fatura. A "promoção" é murmurada ao ouvido apenas de clientes habituais e está em vigor em vários restaurantes, desde que o IVA subiu para 23 por cento. "Só assim conseguimos manter o negócio", confessa, sob anonimato, o proprietário de um espaço em Oeiras. Óscar Afonso, vice-presidente do Observatório de Economia e Gestão de Fraude, prevê que os esquemas de fuga aos impostos continuem a surgir ao ritmo da imposição pelo Governo de novas taxas fiscais. "A economia paralela já representa 25,4% do PIB e vai crescer", antevê o professor da Faculdade de Economia do Porto. Se é verdade que, para algumas pessoas, isso constitui um meio de sobrevivência, para outras, como é o caso de grandes empresas, representa lucro fácil. "É nesse setor que o fenómeno assume proporções mais preocupantes", alerta Óscar Afonso.

5 - O País dos sem trabalho

O nome de Arsénio Jesus Amaro, 61 anos, operador de logística, vinha na lista. Há cerca de dois meses, a Udifar, uma cooperativa de distribuição farmacêutica, enviou o aviso prévio de despedimento coletivo a 39 dos mais de cem trabalhadores do seu entreposto em Lisboa. Arsénio recebeu a indemnização devida 1,1 mês de ordenado por cada ano de antiguidade e agora prepara-se para se dirigir ao fundo de desemprego. "Esperava trabalhar até aos 65 anos... vim para cá com 24... Agora, vou procurar trabalho, mas é difícil", diz, sem esperança. De janeiro a agosto deste ano, foram dispensados 5 843 trabalhadores por via do despedimento coletivo, mais 84% do que em igual período do ano passado. A taxa de desemprego em Portugal atingiu, em agosto, 15,9%, bem acima da média europeia que é de 10,5 por cento.

6 - Carro, o novo luxo

O pequeno escritório situado à entrada da oficina está atulhado de papelada dossiês gordos espreitam pelas portas dos armários.

Alguns daqueles documentos foram preenchidos numa época em que Horácio Guterres, 70 anos, empregava 18 pessoas.

Agora, há apenas três mecânicos em 500 metros quadrados de espaço. O beirão luta, de punhos cerrados, para manter o negócio vende pneus usados a 15 euros, bem como combustível e explora um táxi. "As pessoas só têm dinheiro para trocar pastilhas dos travões, o resto fica por reparar", conta o dono da AutoPenha, situada no centro de Lisboa. "Vários clientes encostaram os carros e andam a pé e de transportes públicos." Desde 2007 que já encerraram 5 500 oficinas e 750 stands de carros usados, e as vendas de automóveis novos caíram 42 por cento. "São milhares de postos de trabalho que desapareceram", diz António Teixeira Lopes, presidente da Associação Nacional do Ramo Automóvel.

"O setor está a morrer."

7 - Quarto procura-se

Passaram três meses desde que Rui e Daniela deixaram um anúncio na internet à procura de um quarto para alugar em Lisboa. O jovem casal, de 23 e 22 anos, veio do Norte para iniciar os estágios de final de curso na capital. Como só um deles vai receber pelo trabalho, cerca de 600 euros mensais, dependem ainda da ajuda da família. É certo que o futuro passará pela partilha de casa. Na atual, para onde se mudaram há dois meses, vivem com outro rapaz. Pagam 350 euros pelo quarto, no centro de Lisboa.

Com os rendimentos em queda, cada vez mais famílias são forçadas a optar pelo arrendamento.

Muitas delas, depois de terem perdido a capacidade de pagar as prestações ao banco, foram obrigadas a entregar as suas casas. De acordo com a Associação das Empresas de Mediação Imobiliária de Portugal, só em junho deste ano, estavam a ser entregues, em média, no País, 64 casas em dação em pagamento, sendo o distrito do Porto o mais afetado.

8 - Trocas e leilões

Desde que se estreou nestas andanças, há mais de um ano, com a troca de um livro por um tapete de atividades para o bebé, Carla Duarte, 40 anos, mãe de três filhos e psicóloga educacional, já perdeu a conta às permutas feitas através do grupo do Facebook. Chegou a entregar um vestido para receber uma quiche, mas foi a cama de grades, que trocou pelo berço da filha do meio, que mais a marcou pela felicidade proporcionada.

Nos últimos anos, têm crescido os grupos e sites dedicados a permutas gratuitas de bens e serviços. Assim como de leilões e vendas de produtos usados.

No site de vendas de usados Olx, por exemplo, os móveis, eletrodomésticos, bicicletas, roupa e vestuário, artigos de tecnologia e para bebés fazem parte dos itens mais procurados.

9 - O refúgio das marcas brancas

Sílvia Lopes, 33 anos, é professora de Educação Física. Agora com horário reduzido e menos dinheiro, já não hesita no momento da compra: escolhe os produtos brancos, os mais baratos.

A marca branca está associada às insígnias das cadeias de distribuição, por oposição às marcas de fabricante.

"O peso da marca branca é já de 40%, em média, das vendas. Nalgumas categorias, como o arroz, ice tea, saladas, carnes, será até mais do que isso.", adverte João Paulo Girbal, da Centromarca. A situação é perversa porque o distribuidor se torna no principal concorrente do seu fornecedor, mas também porque vai vulnerabilizando cada vez mais o fabricante. Os preços baixos são conseguidos à custa de leilões cada vez mais agressivos e, se o fornecedor não for capaz de corresponder, o distribuidor muda para outro e muitas vezes, numa altura em que o fornecedor estava já totalmente dependente do distribuidor. Quando assim é, segue-se a falência.

Há ainda uma relação direta entre as marcas da grande distribuição e as importações. É o caso do leite: no Continente, vem de Espanha e, no Pingo Doce, da Polónia.

Já alguma vez tinha pensado nisto?

10 - Hortelões urbanos

Logo à entrada da varanda de Caetano Beirão, 58 anos, em Lisboa, é-se assaltado por um inebriante cheiro a manjericão. Desde há dois anos, quando ficou desempregado, dedica-se a experiências hortícolas, que acabam a aromatizar os cozinhados lá de casa. Naqueles vasos, crescem os embriões que, em breve, serão transplantados para um recanto dos 400 metros quadrados de jardim, nas traseiras do prédio, onde também existem árvores de fruto. Olhando com atenção para os quintais vislumbram-se várias hortas. A paisagem urbana da capital (e de outras grandes cidades), por culpa da crise, mas também de uma maior preocupação com o que se come, tem vindo a mudar. Além das varandas que, em muitos casos, escondem diversos produtos que antes se compravam no supermercado, há os terrenos que as câmaras põem ao dispor dos candidatos a hortelões. Aí, planta-se todo o tipo de alimentos, ajudando a atenuar os gastos com a comida. Nalgumas situações, até servem de fonte de rendimento, através da venda do que permitem retirar da terra.

11 - Não espere, marque a sua vez. Se puder

Aos beneficiários da Segurança Social não faltam motivos de reclamação. As filas para o atendimento continuam intermináveis, como sucede em muitos outros serviços públicos saturados. Em Lisboa, a redução de custos provocou o encerramento de diversos serviços como os da Alameda, Avenida dos EUA e Pedralvas e a sua concentração no edifício do Areeiro.

Para evitar as filas de centenas de pessoas que todos os dias se formavam à porta, foi inaugurado, no verão, o atendimento por marcação telefónica. O beneficiário telefona a marcar o dia e a hora para levantar uma senha que lhe vai garantir o atendimento presencial. ao fim de um mês ou mais. Na Loja do Cidadão das Laranjeiras, ainda sem serviço telefónico, os beneficiários esperam na rua pela abertura das portas, às 8 e 30, para serem atendidos, no próprio dia, pelos escassos funcionários da Segurança Social que prestam serviço no local. Quem pediu mais cortes na despesa do Estado?

12 - Empreendedora à força

O desemprego bateu-lhe à porta no final de 2007, no regresso da licença de maternidade.

Seguiram-se dois anos a receber subsídio, até arranjar novo emprego. Esteve uns meses a trabalhar, mas voltou a ficar desempregada.

Com dois filhos pequenos, Elisabete Moldes, 42 anos, percebeu que, na zona onde reside, no Restelo, em Lisboa, não existiam espaços onde as crianças pudessem fazer as suas festas de anos. Com a ajuda da família e dos parceiros de negócio que nela acreditaram, lançou a marca É Aqui.Restelo. Encontrou os espaços que procurava no polidesportivo do Belenenses e no ginásio de Caselas, comprou um insuflável e firmou uma parceria com o representante dos carros que fazem as delícias dos miúdos. Com trabalho, boa disposição e animação, contrariou os números do desemprego e tornou-se empresária em nome individual, uma entre os 11 383 profissionais que, segundo os dados do Ministério da Justiça, escolheram esta forma jurídica para se manterem em atividade. São vidas que a troika não conseguiu lixar.

13 - De portas fechadas

Um périplo pelas ruas mais emblemáticas da capital deixa a descoberto o cenário desolador em que vive o comércio e que afeta todos os tipos de lojas: novas, emblemáticas, quase desconhecidas.

Os taipais e as portas encerradas a cadeado não deixam margem para dúvidas. Os consumidores estão a gastar cada vez menos. Porque não têm ou porque preferem amealhar, num momento em que o futuro é incerto. E nem os descontos e promoções, que já se prolongam pelo ano inteiro, conseguem estancar esta sangria. A União das Associações de Comércio e Serviços, estima que o setor registou quebras nas vendas de 30%, nos primeiros seis meses do ano. Só na cidade de Lisboa, a união calcula que estejam a encerrar 16 lojas por dia.

14 - Subida do IVA: fim da restauração?

Aos 56 anos, José Pereira teme pelo futuro dos seus restaurantes, um no Porto, outro em Gaia. O sócio de Rui Veloso na gestão dos D. Tonho considera o aumento do IVA de 13% para 23% a machadada final num processo descendente iniciado no segundo semestre de 2008. No início, apareceram os primeiros sinais de retração do consumo, depois vieram os problemas de tesouraria agravados pela falta de crédito. Finalmente, o aumento do IVA determinou quebras nas margens de 30% a 40 % no negócio. Como se não bastasse, o comportamento das pessoas também se alterou: vão muito menos ao restaurante, e os que vão deixaram de consumir entradas, sobremesas e vinhos onde estavam as tais margens de lucro. José Pereira, que é também o coordenador do Movimento Nacional de Empresários da Restauração, cita o estudo da associação do setor (AHRESP) para traçar o cenário para 2013: 40 mil restaurantes fecharão e os nomes de cerca de 100 mil profissionais serão acrescentados aos números do desemprego.

15 - Dar a volta ao bar

Sentados no passeio, na movimentada Rua Nova do Carvalho, no Cais do Sodré, dois casais bebem, animados, enquanto conversam.

Cláudia e Filipa seguram dois copos de caipirinha. Mas os namorados, Diogo e Edgar, partilham uma garrafa de vinho Monte Velho, comprada no supermercado, juntamente com o jantar, que saborearam em casa de um deles. Os dois casais de estudantes já conhecem de cor os preços e as poupanças que conseguem ao comprar nos supermercados ou nas muitas mercearias que florescem em frente dos bares e que até dão direito a copos grátis. "O que gastamos em quatro litros, na mercearia, não dava para pagar duas imperiais, num destes bares", explica Diogo.

Contas que César e Mikas, sócios do recém-aberto bar Da Velha Senhora, conhecem bem, pois estão a faturar menos. "Já criámos uma associação de comerciantes do Cais do Sodré. Queremos este espaço limpo e tranquilo. Que todos possam usufruir dele.

Sem ficar cheio de garrafas, no meio da rua, ou com confusões, provocadas por este fenómeno do botellon", diz Mikas.