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Jean-Charles Decaux explica à VISÃO como vai fintar a crise, com projectos ecológicos, e porque quer introduzir, em Lisboa, bicicletas de aluguer

Rita Montez

Rita Montez

Jornalista

Durante uma das suas visitas a Portugal, Jean-Charles Decaux, 39 anos, filho do fundador do gigante da publicidade exterior e actual presidente do grupo, controla o tempo ao segundo. Depois de, há dez anos, ter chamado a atenção por ser um dos gestores mais jovens a assumir a liderança de uma empresa de nível mundial, Jean-Charles Decaux foi considerado um herói do ambiente pela revista Time, em Setembro do ano passado.

Mal termina a reunião com a equipa portuguesa, corre para o último piso da JCDecaux, na Avenida Infante D. Henrique, em Lisboa, para nos receber com um sorriso e um "olá", seguido de um pedido de desculpas por não falar português. Temos apenas uma hora para conversar, pois Jean-Charles tem agendado um almoço de trabalho. No final desse dia, regressa a Paris, onde se encontra a sede do grupo JCDecaux, criado pelo seu pai, há 45 anos. Jean-Charles vem a Portugal três ou quatro vezes por ano e está, neste momento, juntamente com a sua equipa portuguesa, concentrado na entrega da candidatura ao concurso lançado pela Câmara Municipal de Lisboa para a introdução na cidade de um sistema de bicicletas de uso partilhado.

O projecto é familiar ao grupo, pioneiro no aluguer de bicicletas, em Paris, há oito anos, e que hoje é um êxito, espalhado por 20 cidades do mundo e com mais de 35 mil bicicletas em utilização. Foi, aliás, graças a este projecto, que a revista Time considerou o líder da JCDecaux um herói do ambiente.

AMBIENTE E PUBLICIDADE

"Os heróis", diz, "são as pessoas que utilizam a bicicleta, que se preocupam cada vez mais com o ambiente." A ideia levou seis anos até ser posta em prática. Primeiro em Paris, depois noutras cidades francesas e, posteriormente, nos EUA e na Coreia do Sul. Actualmente, a Vélib como foi baptizada a bicicleta e que, curiosamente, é fabricada em Portugal, pela Orbita regista uma média de 10 0 mil utilizações diárias.

O negócio faz-se de acordo com u m a f ó r m u l a simples e os contratos firmados com as auta rquias têm a duração típica de dez anos. "O sucesso f i n a nc ei ro d a Vélib assenta na partilha de custos, entre nós, os municípios e os utilizadores, que pagam um valor simbólico por cada utilização individual ou sem limites de utilização, através da compra de um passe mensal", explica. Em todos os contratos, a JCDecaux recebe uma contrapartida ao investimento na aquisição das bicicletas, à gestão e à manutenção do sistema: a exclusividade do parque mobiliário urbano, assim como da publicidade que este ostenta. Jean-Charles Decaux garante que se trata de uma fórmula equilibrada, que permite garantir a viabilidade do sistema. Mesmo com os expectáveis roubos, pois as bicicletas públicas são uma tentação. Só em Paris, já desapareceram mais de 7 mil Vélib.

Jean-Charles não está preocupado, pois, explica, "apenas 0,05% rouba, num universo de 14 milhões de utilizadores, em Paris." Enquanto aguardam o desfecho do concurso em Lisboa inicialmente previsto para o Verão, mas que deverá sofrer alguns atrasos -, o grupo projecta novos investimentos, mesmo em tempo de crise. "Estamos concentrados naquilo que já é tradição na nossa empresa: em tempos de crise, costumamos alcançar resultados acima da média do mercado e conquistar quota. Nessas alturas, procuramos apresentar mais inovações", revela o gestor. A empresa está cotada em bolsa mas continua a ser detida, maioritariamente, pela família. Dois dos três filhos do fundador assumem, alternadamente, a gestão. Sem problemas? "Sim. A liderança é entregue de acordo com as qualidades de gestão e não por uma questão familiar.

A posição da empresa está perfeitamente definida e, por isso, não surgem conflitos", assegura Jean-Charles Decaux.

A VANTAGEM DA RUA

O grupo tem a sua principal fonte de receitas na publicidade, um dos sectores que sofrem, de forma mais acentuada, com a crise só em Portugal, o mercado publicitário caiu 17,48% em Janeiro, de acordo com a Media Monitor. Todavia, Jean-Charles Decaux salienta que a comunicação exterior é aquela que menos sente os efeitos da crise, já que as pessoas continuam a andar nas ruas, local onde a empresa faz publicidade.

"Mas o orçamento para este ano já é mais reduzido que o do ano passado. O primeiro trimestre de 2009 foi pior do que o homólogo de 2008 e acredito que, no segundo ou terceiro trimestre, o mercado vai bater no fundo", acrescenta.

Para manter o crescimento dos negócios, o grupo procura avançar com novas soluções que atraiam clientes e consumidores.

Dentro de três anos, por exemplo, pretendem introduzir, nas ruas, novos ecrãs publicitários imunes aos reflexos do sol. Também a publicidade interactiva continua a ganhar terreno e, em breve, será possível uma nova dimensão tecnológica: "Cada pessoa poderá, individualmente, escutar e comunicar com a publicidade exterior, através do seu telemóvel. Só recebe as informações que desejar", explica o presidente do grupo francês. Será que funciona? Muito provavelmente, serão os portugueses a decidir, pois muitas das inovações do grupo têm sido estreadas em Portugal. "Um mercado que não é grande, mas é bom." E Jean-Charles Decaux explica: "Tem grande potencial de crescimento, uma vez que o clima permite às pessoas passarem muito tempo na rua."

Líder urbana

A multinacional francesa é líder mundial em mobiliário urbano

> Constituição em 1964

> Sede em França

> 8 900 trabalhadores

> Presente em 54 países

> Volume de negócios em 2008 € 2 168 milhões de euros

 

Vélib

Uma bicicleta especial

Chama-se Vélib e está preparada para um uso intensivo e, ao mesmo tempo, prático e confortável