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Empregadas 'varridas' do mercado

Economia

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Há cada vez mais famílias a dispensarem as mulheres a dias. Ter empregada, em tempos de austeridade, passou a ser um luxo

Durante 30 anos, Ana Maria trabalhou na mesma casa, a tempo inteiro. Criou a menina que passou a ser, depois, a sua patroa, e depois as meninas dela, que já estão na Universidade.

Foi por isso com redobrada tristeza que, aos 53 anos, recebeu um telefonema, frio e distante, dispensando os seus serviços. Sem explicações, sem a dignidade de o fazer olhos nos olhos. Ana Maria notara que "a patroa tinha vindo para casa" mas também sabia que o patrão, um advogado importante de Lisboa, ganhava bem. Sentiu-se "abandonada como um cãozinho".

Ana Maria é apenas uma das dezenas de milhares de empregadas domésticas que, hoje, estão sem trabalho.

Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, no primeiro trimestre de 2011 existiam 132,7 mil domésticas com contrato oficializado, em casas de família.

Nos primeiros três meses de 2012, já só restavam 123,7 mil, uma queda de 7%, num ano. A situação terá piorado, entretanto.

Em Outubro, dados do Instituto de Segurança Social indicam que estavam registadas apenas 93 512 empregadas domésticas.

Entre aquelas sem vínculo legal, o desemprego será ainda maior, admite-se no setor. Carlos Trindade, dirigente do STAD, o sindicato que representa as domésticas, nota que existem muitos casos com redução forçada do tempo de trabalho e, consequentemente, de ordenado.

Uma tendência que terá piorado no último trimestre, com o anúncio de mais austeridade. "A maioria dos patrões são também trabalhadores, gente da classe média que está aflita com esta compressão dos rendimentos", diz o sindicalista.

"Mulher séria, honesta, profissional com experiência, procura urgentemente trabalho a dias." Madalena Simões tem 42 anos e colocou anúncios em todos os supermercados da zona de Cascais. Já lá vão quatro meses e o telefone não tocou uma só vez. "Agora, ninguém está à procura, só estão a mandar embora.", lamenta.

"Alguns clientes invocam dificuldades económicas, mas a maior parte está apenas com expectativas negativas, cortando este custo por precaução", considera David Mendes, diretor-geral da Molly Maid, empresa pioneira, em Portugal, na área das limpezas domésticas profissionais.

Há também vários clientes a reduzirem as horas contratadas: "Ficam com empregada uma vez por semana ou fazem só limpezas ocasionais." Também Nuno Lopes, administrador da House Shine, refere que os únicos novos clientes são os que tinham empregadas a tempo inteiro e que, depois de as dispensarem, "estão a contratar a empresa para fazer serviços episódicos ". O impacto da crise abala da mesma forma o Projecto Marias, uma cooperativa com sede na Cova da Moura (Amadora).

A gestora Raquel Santiago sente que, desde o verão, houve uma diminuição da procura. "Se antes procuravam Marias a tempo inteiro e internas, agora pedem mais empregadas a meio-tempo e à hora", explica.

A quebra no negócio já levou a Molly Maid a dispensar pessoal. Uma tendência que o diretor espera ver invertida em breve. "A sujidade não deixa de existir por causa da crise", ironiza David Mendes.

"A questão é perceber se as pessoas preferem ganhar qualidade de vida e tempo livre, pagando por este serviço ou se vão ser elas próprias a fazê-lo."

CORTE RADICAL

O que falta, diria Carla Baptista, é a liberdade financeira para ter hipótese de escolha. Esta professora universitária, de 43 anos, casada com um cineasta, não sabia, há mais de duas décadas, o que era viver sem ajuda doméstica até ao verão de 2011, quando percebeu que, depois de pagar o subsídio de férias à empregada, não restava dinheiro suficiente para as suas próprias férias.

O casal tem três filhos e, quando a mais velha nasceu, há 18 anos, contrataram empregada a tempo inteiro. Quando o mais novo chegou, há dez anos, ela já só ia até às três da tarde. "Agora, não vem de todo, foi mesmo um corte radical. Tivemos de optar entre a empregada e as escolas de música e a ginástica dos miúdos." Hoje, a segunda-feira passou a ser dia de arregaçar as mangas e calçar luvas de borracha. e também de dizer piadas sobre o suplício das novas tarefas. "Não tenho mais artigos científicos publicados, porque estou a limpar a casa", ironiza Carla Baptista, enquanto explica que, para manter a sanidade, desenvolveu "uma outra tolerância à desordem".

O segredo, diz, é simplificar: "Tenho imensos truques. Tornei-me, por exemplo, fã das toalhitas." Em sua casa, já se fazem piadas com isso. Como no dia em que não as encontrava e, enquanto as procurava, desesperada, os filhos iam-na seguindo, imitando vozes robóticas de alerta: "Pânico, pânico!" Agora já se riem em conjunto mas Carla Baptista nota que, sem empregada, se deterioram até as relações familiares.

Depois de um "tu não fizeste isto ou aquilo!", sucedem-se sempre momentos de costas voltadas.

As rotinas hoje estão mais normalizadas.

O que não mudou foi a aversão a algumas tarefas. "Não limpava uma casa de banho há muitos anos, custa um bocado ", admite. É por isso que, sem hesitação, diz que "assim que tiver algum rendimento disponível" voltará a contratar uma empregada: "Nem que seja uma vez por semana, valerá a pena."