Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Bruxelas aprovou o uso de químicos na conservação do bacalhau

Economia

  • 333

Os industriais do setor acusam o Governo português de ceder em toda a linha e não defender a total oposição à adição de químicos ao bacalhau destinado à cura tradicional portuguesa

O secretário-geral da Associação dos Industriais do Bacalhau (AIB), Paulo Mónica, afirmou hoje que a aprovação do uso de polifosfatos e outros químicos no bacalhau pode levar a um aumento de preços daquele peixe.

Em comunicado hoje divulgado, o eurodeputado do Partido Socialista (PS) Capoulas Santos lamentou que Portugal tenha votado a favor da introdução de polifosfatos no bacalhau, numa votação que teve lugar na segunda-feira no âmbito do Comité Permanente para a Cadeia Alimentar e de Saúde Animal da União Europeia, que contou com a oposição de França e do mais recente membro da União Europeia, a Croácia.

Segundo Paulo Mónica, a função dos polifosfatos é reter a humidade dentro dos produtos, o que faz com que se impeça que "a água saia do bacalhau" e que a cura do peixe, modo tradicional de secagem em Portugal, demore duas a três vezes mais do que o normal, tendo um efeito imediato que é o do "agravamento dos custos com a secagem".

Paulo Mónica lembra que as preocupações da indústria foram comunicadas em devido tempo ao Governo e sublinha que vai conduzir a um "incremento brutal do tempo de secagem e de custos com energia, e mesmo com mão-de-obra", o que se pode repercutir junto do consumidor final e ter um impacto no setor, no qual os produtores estrangeiros vão ficar "com caminho livre para ditarem os preços e levarem à falência a indústria portuguesa".

Para além das consequências em termos de custos, o secretário-geral da AIB salienta que a introdução destes químicos no bacalhau vai modificar a textura do mesmo, a cor e até o sabor.

"A cura não se desenvolve de forma a permitir que o produto final tenha as lascas tão evidentes", explicou o dirigente da AIB.

Num comunicado adicional da AIB, a associação refere que "o Governo português cedeu em toda a linha e não quis defender a posição inicial de total oposição à adição de químicos ao bacalhau destinado à cura tradicional portuguesa".

Capoulas Santos "considera incompreensível o aval do Governo português ao uso de polifosfatos que, segundo argumentam os países interessados [Noruega, Islândia e Dinamarca], permite uma melhor conservação do peixe", mas que, segundo o mesmo, "tudo parece indicar que coloca em causa as características do bacalhau tradicional" tal como os consumidores o conhecem hoje.

Na página do grupo parlamentar do Partido Social Democrata (PSD), um texto datado de 9 de janeiro deste ano referia, em título, que aquela estrutura "reprova a introdução de polifosfatos no bacalhau".

Na altura, o deputado Hélder Sousa Silva disse, citado pela página do grupo parlamentar do PSD, que "a introdução de polifosfatos no peixe salgado fresco dificulta a maturação do 'Bacalhau Português', alterando as suas características organoléticas específicas e aumenta os custos energéticos do processo de secagem do peixe".

"Face aos dados técnicos que dispomos, o grupo parlamentar do PSD, reprova em toda a linha, a introdução de polifosfatos no bacalhau que é importado salgado fresco, para ser transformado em Portugal", acrescentou Hélder Sousa Silva.

A Lusa questionou o Ministério da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território, mas não obteve resposta em tempo útil.

A 7 de março, a eurodeputada Maria do Céu Patrão Neves (PSD) anunciou que a Comissão Europeia iria assegurar uma medida excecional para a rotulagem do bacalhau fresco que tenha como destino o mercado português, informando sobre a presença de aditivos químicos (polifosfatos).

Ao mesmo tempo, o bacalhau que não apresente quaisquer aditivos terá que ser rotulado como tal pela Noruega e Islândia, países que pretendem utilizar químicos no peixe.