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Ainda há estágios de luxo

Economia

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Raquel Lopes 26 anos - O último ano foi passado em trânsito entre Portugal, Brasil, Argentina e Argélia. Ficou a trabalhar no escritório da Zagope, em São Paulo

São bem pagos, podem incluir viagens ao estrangeiro e a taxa de contratação, no final, aproxima-se dos 100 por cento. Os programas de trainee ficam nos antípodas dos estágios tradicionais, mas não estão ao alcance de todos. Afinal, o que procuram as empresas que entram na "guerra do talento"?  

É difícil tirar o sorriso do rosto de Inês Arnauth, 24 anos. O caso não é para menos. Depois de muitos currículos enviados - sem resposta -, ainda lhe é difícil acreditar que está na empresa com que sempre sonhou. Entrou no programa de trainees da Vodafone, no final de março, e a experiência está a superar todas as expetativas da jovem licenciada em gestão e com mestrado na Nova School of Business & Economics (NovaSBE), da Universidade Nova de Lisboa.

Quando se candidatou, não fazia ideia do que lhe ia acontecer. Acima de tudo, não imaginava que passaria um mês a trabalhar no atendimento ao público, numa loja da marca. "Foi uma experiência muito marcante. As perguntas dos clientes obrigaram-me a aprender imenso sobre telecomunicações", revela, ao mesmo tempo que troca um sorriso cúmplice com um dos cinco elementos do seu grupo de trainees.

Formado em Engenharia de Comunicações na Universidade do Minho, em Braga, Hugo Ferreira, 25 anos, confessa que a experiência que partilhou com Inês, no programa Vodafone Graduates, o obrigou a sair da sua zona de conforto. "Estava mais habituado às áreas técnicas e lidar com pessoas é muito diferente." Perante tanto entusiasmo por causa da experiência numa loja, apetece perguntar: afinal, é isto um "estágio de luxo"?  Também é.

Os programas de trainee (aprendiz, na tradução literal) são estruturados ao detalhe pelas empresas para trabalharem competências-chave dos recém-licenciados, muitos deles a estrearem-se no mercado de trabalho. O job rotation, a rotação por várias funções ou departamentos das empresas, faz parte do processo de avaliação e aprendizagem. "É uma forma de imersão completa no negócio, de ficar a conhecer bem a empresa, e de criar relações que facilitam a comunicação entre departamentos", explica José Bancaleiro, especialista em recursos humanos da Stanton Chase Portugal.      

Ao mesmo tempo que aprendiam mais sobre o negócio da empresa e testavam os seus limites, Inês e Hugo também tinham de estar atentos ao que podia ser melhorado: "De repente, agendavam-nos um encontro com o CEO [presidente executivo] em que devíamos dar a nossa opinião sobre os procedimentos habituais", recorda Inês. A rotação de funções também é útil para aproveitar a perspetiva crítica de quem vem de fora (o inside-outsider): como acabaram de integrar a empresa (inside), ainda conservam o ponto de vista dos consumidores (outsiders). Quando o nervoso apertava perante tamanha responsabilidade, Inês concentrava-se num único pensamento: "Se eu fui escolhida, é porque sou capaz." Mimar o talento    

Os programas de trainee procuram conquistar os melhores alunos, das melhores universidades. O "namoro" começa, muitas vezes, quando os estudantes ainda estão nas faculdades. Inês ouviu falar, pela primeira vez, do Vodafone Graduates, durante o Business Forum, uma iniciativa em que os empregadores se apresentam aos alunos da NovaSBE e de outras universidades.

Num país onde o desemprego entre os menores de 25 anos ronda os 40%, empresas sedentas de talento parecem uma miragem. José Bancaleiro desvenda o cenário: "Tratando-se de alunos das melhores universidades do País, com uma média de 14 valores ou mais, não são as organizações que os escolhem. São eles que escolhem onde querem trabalhar." Os trainees não são, portanto, uns estagiários quaisquer.

O departamento de recursos humanos da Vodafone foge da terminologia "estágio" por considerar o programa demasiado valioso para ser inserido nessa categoria. Mas, na verdade, continua a ser "um período de trabalho por tempo determinado para formação e aprendizagem de uma prática profissional" (a definição de estágio no dicionário da Porto Editora). O Graduates existe desde 2009, mas tem vindo a ser afinado nos últimos anos. O grupo de Inês e Hugo, por exemplo, foi o primeiro a estar em lojas da marca. Só vão saber se ficam na empresa em março de 2014, mas as estatísticas dão-lhes esperança: nos anos anteriores, 80% a 90% dos candidatos ficaram. 

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