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Agarrados ao cartão

Economia

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Os portugueses adoram o dinheiro de plástico. Somos o quarto país europeu onde os habitantes têm a carteira mais recheada... de cartões. Além disso, o nosso sistema de multibanco é dos mais avançados do mundo. O que pode travar este idílio? A guerra entre os comerciantes e os bancos por causa das taxas que os primeiros pagam aos segundos. O Pingo Doce é apenas o mais recente protagonista. É caso para perguntar: vamos voltar a "andar de burro"?

O que seria da nossa vida sem os cartões? Nem toda a gente lhes sentiria a falta da mesma forma, mas podemos enumerar tudo o que pagamos e fazemos com o multibanco. A conta do supermercado, do restaurante, do pronto-a-vestir, da sapataria, das portagens... Carregamos os telemóveis, pagamos a Segurança Social, a via verde, a luz, a água, o gás, os bilhetes de avião mais baratos que apanhamos na internet... e acima de tudo, deixámos de perder horas preciosas nas filas dos balcões dos nossos bancos apenas para levantar uns míseros euros da conta.

Em Portugal, cada habitante tem, em média, quase dois cartões de débito ou de crédito. Estamos no topo da Europa. No ano passado, movimentámos 84 mil milhões de euros no multibanco, cerca de metade do PIB português. Só em levantamentos foram 27,4 mil milhões de euros. Fora os carregamentos de telemóveis (750 milhões de euros), as transferências bancárias (16 mil milhões de euros), os pagamentos de serviços, como as contas da água ou da luz (5 mil milhões de euros).

De facto, nesta segunda década do século XXI, é muito difícil imaginar as nossas rotinas sem os cartões. Até uma inscrição na Universidade ou num clube desportivo já vem agregada a um cartão de débito ou de crédito. No entanto, nos últimos dois anos, "milhares de comerciantes desistiram dos terminais", diz João Vieira Lopes, presidente da Confederação do Comércio. Nas lojas, nos cafés, nas mercearias, multiplicaram-se os cartazes a dizer "Não temos multibanco" ou "Pagamentos com multibanco só superiores a €5". A lei permite; ninguém é obrigado a aceitar cartões como forma de pagamento.

É que "as taxas para o médio e pequeno comércio são, em geral, o dobro das que existem para os grandes operadores", continua Vieira Lopes. De facto, não existe uma tabela de taxas oficial - elas são negociadas caso a caso e variam conforme o volume de negócios. No pequeno comércio, as taxas para os cartões de crédito, que são bem mais altas do que as dos cartões de débito, podem rondar os cinco por cento de cada transação. 

Tecnologia - O futuro está aqui

As principais redes de meios de pagamento e operadoras telefónicas estão a apostar em novas soluções como as compras sem contacto físico ou através de telemóveis. Em Portugal deverão chegar ainda este ano. 

Apesar da fraca adesão dos consumidores durante os Jogos Olímpicos em Londres, a empresa de cartões de crédito Visa está a apostar na massificação da sua mais recente tecnologia, que permite fazer compras com cartões e telemóveis através da aproximação dos aparelhos aos terminais de pagamento. Com esta aplicação, conhecida como paywave, as operações tornam-se mais práticas e, no caso das compras para valores inferiores a 20 euros, deixa de ser necessário introduzir o código. Eliminam-se barreiras, reduzem-se comissões e, assegura a empresa, mantém-se o mesmo nível de segurança. Em qualquer momento, o cliente pode bloquear o uso do cartão ou do chip inserido no telemóvel. Sempre que for utilizado determinado plafond, ou ao fim de três ou quatro transações, passa a ser exigida a introdução do código de segurança. A adesão dos bancos, comerciantes e operadores móveis, e a isenção de pagamento de comissões bancárias para estes pequenos gastos são essenciais para o sucesso destas fórmulas.

A par da entrada em Espanha, Turquia e República Checa, a empresa quer chegar este ano a Portugal, prevendo arrancar com a distribuição da nova tecnologia junto dos principais bancos. As aplicações móveis estão ainda a ser discutidas com os operadores. Mas outras empresas estão já a tomar posições e, a partir do próximo ano, aguarda-se a chegada de novas soluções para telemóveis.

Desde março que a Portugal Telecom está a testar, junto dos seus 11 mil colaboradores, o TMN Wallet, um projeto-piloto de pagamentos através do telemóvel e que já está a ser usado dentro dos seus escritórios nas compras de bens alimentares. A aplicação - que poderá vir a ser adotada também pela Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal para atenuar as despesas com as comissões bancárias - terá de apresentar custos de investimento competitivos, tanto na mudança de terminais de pagamento como nas taxas cobradas por cada operação, de forma a atrair novos adeptos. A lista vai crescendo, a cada dia que passa, com os principais operadores e empresas de cartões a mostrar os seus produtos. É o caso da Mastercard, da Apple com o seu Iwallet, ou até da Google, com o Google Wallet.  A tecnologia está já aqui.

 Rita Montez

 

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