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11 nuvens no horizonte da economia

Economia

O mundo está em desaceleração, incluindo os nossos maiores parceiros comerciais. Juntando os problemas nacionais, o cenário não é necessariamente negro, mas é incerto

António Costa, o eterno otimista, alertou recentemente: “Temos de continuar a ter a cautela suficiente para não nos pormos numa corrente de ar, apanharmos uma gripe que depois se transforma numa pneumonia.” A frase surge como consequência dos riscos internacionais que o primeiro-ministro teme que possam vir a penalizar a nossa economia, num contexto geral de arrefecimento, dos EUA à China, com a Europa pelo meio.

Ninguém está à espera de uma crise brutal, mas multiplicam-se as análises cautelosas, e até pessimistas, de que o mundo esteja a perder força, o que é particularmente importante para uma economia pequena e aberta como a nossa.

Além dos fatores externos, há também motivos próprios para ter cautela, como se pode ver por esta lista de 11 potenciais riscos para 2019.

1 - China

O galo canta mais baixo
A economia chinesa terminou 2018 a crescer ao ritmo mais lento em 28 anos, com o PIB a avançar apenas 6,6%, acusando a redução da procura interna e os efeitos na subida das taxas alfandegárias no confronto comercial com Washington. O investimento teve o crescimento mais baixo em 22 anos, a venda de automóveis recuou pela primeira vez em duas décadas e até a Apple foi obrigada a rever em baixa, pela primeira vez em 16 anos, a sua previsão de vendas devido ao mercado chinês. “O problema está no consumo. Com os EUA e a China em colisão e em diversas frentes, o sentimento do consumidor parece ter sido afetado”, estima Naoto Saito, chief researcher do japonês Daiwa Institute of Research. O Fundo Monetário Internacional (FMI) identifica, ainda, o reforço da regulação financeira como causa para o abrandamento, que deve prolongar-se durante este ano, em que se espera um crescimento de 6,2 por cento. O arrefecimento desta economia, que nos últimos anos contribuiu para um terço do crescimento global, poderá exigir novos estímulos de Pequim, como o investimento em infraestruturas ou a libertação de recursos para crédito, além da redução seletiva de impostos.

2 - Guerra comercial

À procura de um acordo
A disputa pela supremacia tecnológica entre as duas maiores potências mundiais – que levou, por um lado, Washington a aplicar taxas alfandegárias sobre $250 mil milhões em produtos chineses e, por outro, Pequim a responder com medidas sobre $110 mil milhões de compras ao Tio Sam - está em banho-maria até 1 de março, quando terminam os 90 dias de tréguas assinados no G20. Até lá, Donald Trump e Xi Jinping procuram um acordo comercial que faça respirar de alívio a economia global. Mas as medidas iniciadas pela Administração norte-americana, com o argumento de proteger empregos e de travar transferências “injustas” de tecnologia e de propriedade intelectual norte-americana para a China, já fizeram estragos. “O crescimento nas maiores economias desenvolvidas deve voltar a convergir, ao longo de 2019, para um ritmo mais lento, em comparação com os padrões mais recentes, graças, em grande medida, a uma abordagem mais hostil ao comércio por parte de Washington”, afirma uma nota de análise do JP Morgan. Os analistas do banco BiG atribuem uma probabilidade de 60% a um acordo de cavalheiros e de 30% a um “armagedão”. Um cenário de abrandamento mais pronunciado da China, na sequência do conflito, alerta o FMI, pode desencadear vendas em massa nas bolsas e nos mercados de matérias-primas.

3 - Zona Euro

Motores “au ralenti”
Deverá ser um ano mais difícil para a área da moeda única na Europa, numa altura em que os indicadores de confiança do consumidor, o clima de negócios e o sentimento económico acumulam quedas. Os indicadores avançados que medem o pulso à atividade económica apresentaram, em dezembro, o valor mais baixo em 4 anos e, em França, coincidindo com a agitação social dos “coletes amarelos”, já estão mesmo em território de contração. O Fundo Monetário Internacional cortou nas previsões para o crescimento das três principais economias (Alemanha, França e Itália) e da Zona Euro como um todo, que agora deverá crescer 1,6% em 2019, em oposição aos 1,9% anteriormente apontados. O organismo liderado por Christine Lagarde atribui a maior fraqueza esperada na Alemanha ao desempenho do setor automóvel, que está penalizado pelos novos padrões mais exigentes em torno das emissões de gases, enquanto Itália se destaca pela redução da procura interna no país, a braços com riscos financeiros e soberanos, depois de um embate com as autoridades comunitárias, por causa do défice do país. Em França, os protestos nas ruas obrigaram o Governo de Macron a abrir os cordões à bolsa, com impacto no défice que deve furar a barreira dos 3% neste ano. No radar dos investidores, estão também os resultados das eleições europeias de maio, devido ao risco de ascensão de populistas e de eurocéticos.

4 - Estados Unidos da América

Ímpeto com limites
O estímulo dado pelo plano fiscal de Donald Trump, considerada a sua primeira vitória política no mandato que já leva dois anos (com um corte de impostos de $1,5 biliões e um aumento de gastos federais de $300 mil milhões), pode estar a perder gás. Ainda assim, a economia vive o seu segundo maior ciclo de expansão e teve, em 2018, os seus melhores dois trimestres consecutivos em quatro anos, além de ter sido o melhor ano para a criação de emprego desde 2015: mais 2,6 milhões de postos de trabalho. “É improvável que o desempenho significativo dos EUA permaneça ao longo de 2019. O estímulo fiscal que impulsionou a economia, em 2018, deverá ser atenuado nos próximos trimestres, e o crescimento do PIB deverá abrandar para menos de 2% até ao fim de 2019”, estima o JP Morgan. Os indicadores avançados abrandaram no final do ano, e ainda está por medir o impacto que o shutdown da Administração terá na economia – para João Pisco, do Bankinter, “poderá tornar-se igualmente uma ameaça, dependendo da sua duração”. Mas, no horizonte próximo, a generalidade dos analistas prevê um crescimento, ainda que mais lento, e não arrisca ver riscos de recessão.

5 - Bancos centrais

E depois dos estímulos
Socorrer uma economia em apuros e pôr a máquina a imprimir dinheiro, encontrar o momento certo para fechar a torneira antes de embebedar o mercado e, ao mesmo tempo, manter a capacidade de voltar a deitar a boia de salvação em caso de nova crise. Os bancos centrais, sobretudo o BCE e a FED, continuam a não ter a vida facilitada depois da saída em socorro das respetivas economias, na sequência da crise financeira internacional. Os sinais de abrandamento na Zona Euro deverão condicionar o processo de normalização da política monetária do Banco Central Europeu, nomeadamente a subida de taxas, depois de terminado o programa de compra de ativos (deixando margem de manobra para atuar em crises futuras) e no ano em que Mario Draghi será substituído no cargo. O reinvestimento dos valores reembolsados e o financiamento facilitado ao setor bancário são ferramentas que estão ao alcance de Frankfurt, segundo destaca o BiG, numa altura em que a inflação persiste distante do objetivo de 2 por cento. Do outro lado do Atlântico, e depois das pressões públicas de Trump para conter subidas aceleradas de juros (estão previstas três para este ano), a Reserva Federal norte-americana continua a agitar a bandeira de uma economia sólida, mas acalmou os mercados ao mostrar flexibilidade para mudar a política monetária, caso as condições económicas o exijam. O JP Morgan espera que as condições monetárias a nível global permaneçam relativamente folgadas, “dando algum consolo aos investidores que estão preocupados” com o ritmo destas subidas de juros.

6 - Brexit

Vai ou racha?
Quase três anos depois do referendo e quando apenas faltam dois meses para o Reino Unido se desvincular da União Europeia – a 29 de março –, mantém-se a incerteza sobre o desfecho das negociações do Governo de Theresa May com Bruxelas, presas pela questão do backstop na fronteira com a Irlanda do Norte e ainda sem luz verde do Parlamento britânico, ao qual a primeira-ministra promete, agora, dar mais voz. Um cenário extremo, de saída sem acordo, continua a ser apontado como um dos maiores riscos de perturbação económica para 2019, embora pairem outras hipóteses em surdina. “A probabilidade de uma saída sem acordo, em março, é baixa, mas o caminho será acidentado. Não é impossível um novo referendo”, considera a gestora de ativos BlackRock. “Um bom acordo de Brexit pode ser uma ótima notícia para a economia e pode coincidir com um impulso no crescimento em 2019”, acrescentam os analistas do JP Morgan. Com 400 mil portugueses a residir no Reino Unido e cerca de 22 mil britânicos a viver cá, o Governo português preparou um plano de contingência para preservar os direitos dos cidadãos, manter o fluxo de turistas (é o principal mercado emissor) e apoiar as empresas, técnica e financeiramente. O Reino Unido é o quarto cliente das exportações portuguesas e nosso oitavo fornecedor.

7 - Portugal

Nuvens no horizonte
“Depois de dois anos de sólida expansão, a economia mundial está a crescer mais devagar do que era esperado, e os riscos estão a aumentar.” A afirmação da diretora-geral do FMI foi feita nesta semana, mas desde 2018 que a economia portuguesa reflete os ventos contrários que sopram de fora. Em dezembro, os indicadores coincidentes para a atividade económica diminuíram, e o consumo privado teve o menor crescimento homólogo em mais de quatro anos. A economia cresceu 2,1% no ano passado, abaixo dos 2,3% previstos pelo Executivo. Se se verificarem as previsões do Banco de Portugal para o PIB deste ano (que coincidem com as da Comissão Europeia), a economia crescerá 1,8% e abrandará novamente em 2020. A projeção do Governo para 2019 continua a ser a mais otimista: um crescimento de 2,2 por cento. João Pisco, analista financeiro e de mercados do Bankinter, identifica o elevado endividamento público como o calcanhar de Aquiles da economia, tornando-a mais vulnerável a um eventual choque externo, nomeadamente no custo com os juros: “É fulcral manter políticas orçamentais restritivas e permanentes, mas que não comprometam a atividade económica”, sustenta. Considera ainda que os receios de uma recessão económica global, apesar de infundados, podem adiar ou cancelar investimentos. Ainda assim, defende este especialista, “depois dos esforços nos últimos anos, ao nível da consolidação orçamental, Portugal dispõe agora de alguma margem para recorrer a estímulos orçamentais pontuais (via despesa, investimento ou fiscalidade), sem comprometer o cumprimento dos objetivos de défice acordados com Bruxelas”. “Não obstante, a margem não é muita e nós não podemos perder de vista os níveis de dívida pública”, conclui o analista do Bankinter.


8 - Exportações

A menina dos olhos da recuperação
Foi a componente que mais contribuiu para a recuperação económica de Portugal no pós-Troika e a que melhor equipa o País para enfrentar uma futura hipótese de recessão. A expectativa é que, até 2021, as exportações possam vir a reforçar o seu peso em percentagem no PIB para próximo de 50 por cento. Porém, elas estão também entre as atividades com mais exposição aos humores da economia internacional, em particular ao desempenho da União Europeia e da Zona Euro, onde as principais economias clientes – Espanha, França, Alemanha e Reino Unido – estão a braços com arrefecimentos. A relação económica com Londres está entre as maiores fontes de preocupação, estimando-se, num estudo realizado pela CIP, que o Brexit, num cenário extremo, possa reduzir em 26% as vendas de Portugal para o Reino Unido. Também pesam fatores endógenos, como o que limitou a atividade em novembro. Nesse mês, a greve dos estivadores nos portos foi apontada como a principal causa para a queda de 8,7% nas exportações, devido à travagem na venda de automóveis ao exterior, nomeadamente os produzidos na AutoEuropa. Além do Brexit e da desaceleração das economias europeias, o fim do apoio do Banco Central Europeu à economia também pode influenciar negativamente as trocas comerciais. Contas feitas, em todo o ano 2018 as vendas ao exterior aumentaram 5,3% e as importações subiram 8%, em desaceleração depois das subidas de 10% e 13,1%, respetivamente, em 2017.

9 - Imobiliário

E depois do topo?
A par com o turismo e de mãos dadas com a atração de investimento estrangeiro, o setor imobiliário está entre os mais dinâmicos da economia, nos últimos anos em Portugal. Mas é também neste onde se fazem ouvir vozes de aviso, nomeadamente do Banco de Portugal, preocupado com o aumento dos preços das casas. A crescer há 20 meses, o valor da avaliação bancária bateu um novo máximo de €1 220 por metro quadrado, em dezembro. Os preços das casas desaceleram há dois trimestres, mas as vendas de casas entre julho e setembro renderam, segundo a associação de mediadores APEMIP, mais 30% em valor em termos homólogos. Após três meses de queda – na sequência de recomendações do Banco de Portugal face a preocupações com o sobreaquecimento do mercado –, em outubro, novembro e dezembro os bancos voltaram a emprestar mais dinheiro para novas operações de compra de casa. No seu outlook para 2019, o BiG defende que a “valorização histórica do mercado imobiliário parece aproximar-se do seu epílogo”, mas esta perspetiva de sobreaquecimento traz riscos no caso de uma eventual recessão global.

10 - Turismo

Mais ovos de ouro?
Tem um peso crescente na economia e no emprego, ajudou a solidificar o excedente da balança de serviços e, durante anos, contribuiu com recordes para a contabilidade oficial, no número de hóspedes, dormidas ou de proveitos que ficaram no País. Nos últimos meses, a atividade esmoreceu em alguns dos principais mercados (Reino Unido, Alemanha e França), as dormidas estagnaram mas a geração de receitas continua a somar recordes e a crescer a dois dígitos – até dezembro, superaram os €16,5 mil milhões. A recuperação recente da atividade em destinos mais competitivos, como os da bacia do Mediterrâneo (Tunísia, Turquia, Egito ou Grécia), surge como um dos maiores pontos de aviso, mas a principal ameaça será o impacto que o Brexit terá no mercado britânico, o principal emissor de turistas estrangeiros para Portugal, em particular para regiões como a Madeira e o Algarve. No pior cenário, segundo o estudo da CIP, as exportações de turismo para aquele mercado podem cair na ordem dos 10%, devido à descida do poder de compra. A Organização Mundial do Turismo estima que a atividade desacelere, em 2019, a nível global pelo segundo ano consecutivo, com as chegadas de turistas internacionais a crescer entre 3% e 4 por cento. “O motor do turismo (e das exportações em geral) é aquele que está em maior risco de ‘gripar’, caso a Europa entre numa preocupante tendência de desaceleração”, considera João Pisco. Outros mercados principais (como Espanha) ou de diversificação (EUA e Brasil) continuam a crescer.

11 - Política

A incógnita eleitoral
O ano pode trazer alterações a nível político, em particular com as eleições europeias, que se realizam a 26 de maio, e com as legislativas, marcadas para 6 de outubro. Cá dentro, depois de quatro anos de entendimentos à esquerda, António Costa manifestou recentemente a intenção de renovar a solução de Governo alicerçada na geringonça, enquanto à direita se perspetiva um PSD acabado de sair de uma guerra interna e um espaço político fragmentado, onde se defende possíveis entendimentos pós-eleitorais. Tal como em 2015, a formação de maiorias parlamentares será uma incógnita, o que poderá ter impacto na perceção internacional do País. A incerteza, por si, não é boa para o clima de negócios, mas não há um receio generalizado acerca da equação de poder que sairá da votação. “A nossa sensação é de que os investidores internacionais não temem, de forma alguma, as eleições em Portugal”, estima João Pisco, do Bankinter. Lá fora, é a possibilidade de reforço de partidos e de políticos populistas e eurocéticos no Parlamento Europeu que mais parece preocupar os analistas. “Os políticos de centro ainda estão a tentar ultrapassar os partidos populistas. Com as eleições críticas do Parlamento Europeu, em maio, cresce o risco de que as alianças eurocéticas venham a ganhar uma maior fatia de voto. Neste caso, os investidores podem tornar-se céticos quanto às perspetivas de longo curso para a integração e quanto à possibilidade de Bruxelas assumir uma liderança significativa na próxima recessão”, refere Karen Ward, diretora-geral e estratega para o mercado EMEA do JP Morgan.